60 músicas de Rita Lee comentadas por ela própria

Rita Lee, a rainha do rock’n’roll brasileiro. Show em outubro de 2008, em Nova Lima. Foto: CMC

Todo mundo já escreveu sobre a autobiografia de Rita Lee, eu acho. Há os que a amaram (como eu!) e os que a odiaram, geralmente o pessoal que achou que ela foi injusta com os Mutantes, etc e tal. Paciência, não vou entrar nesse mérito.

O que me parece incontestável, seja de qual time você for, é que Rita é nossa rainha do rock, uma mulher incrível, criativa, grande compositora e letrista, totalmente porra-louca, e que muito contribuiu para a música brasileira, para a quebra de diversos tabus e para abrir caminhos para outras mulheres fazerem o que lhes desse/der na telha.

É sobre as músicas dela que vou falar neste post, não sobre sua biografia contestadíssima. Porque, sim, dentro dessa autobiografia de histórias conturbadas, que passam pela ditadura militar, pelas drogas, pelos E.T.s, pelos casamentos e até por uma cena de abuso sexual infantil grotesca, há muitas informações sobre as músicas incríveis criadas pela fazedora-de-hits Rita Lee — contadas por ela própria, tem coisa melhor que isso? Explicações, comentários, bastidores, inspirações…

Super recomendo a leitura integral do livro, mas, se você quiser saber especialmente sobre as canções, este post dá um gostinho. Separei algumas dessas partes na biografia em que Rita Lee fala sobre suas composições e transcrevo abaixo, entre aspas, na ordem de aparição no livro. Bom divertimento! Continuar lendo

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Shows inesquecíveis contra o botão de autolimpeza cerebral

Outro dia resolvi abrir minha caixinha de lembranças (um dia vou escrever sobre ela) e redescobri várias coisas que minha desmemória já havia apagado por completo. Parece que meu cérebro tem um processo de autolimpeza, igual de liquidificador — mas que ele aciona e varre blocos inteiros de vida sem me consultar primeiro (um dia também vou escrever sobre isso… se lembrar).

Uma das melhores coisas que fiz na vida foi guardar os ingressos dos shows a que já assisti. Alguns tinham sido inesquecíveis no dia e, no entanto, viraram uma sombra confusa agora, dez anos depois.

O fato é que, ao passear por esses ingressos e por algumas fotos, cenas fortíssimas voltaram à minha memória.

O primeiro “salário”, quando ainda só fazia bico de professora particular, sendo gasto num show de uma banda ruim, só pelo prazer de poder me dar ao luxo de pagar R$ 35 para sair com meus melhores amigos.

A noite em que descobri as maravilhas do blues, na companhia do meu irmão, e ouvi as Chicago Blues Ladies, irmãs apropriadamente negras e gordas (como deve ser todo mundo que carrega aquelas vozes de deus), que depois encontrei no restaurante de um hotel de Beagá, de havaianas no pé e lenço na cabeça.

A vez em que não pude ouvir o B.B.King, porque descobri tarde que haveria o show e só tinham sobrado ingressos de R$ 500. Era a última turnê dele, já com mais de 80, e fiquei desolada. Daí, poucos anos depois, ele voltou, os ingressos custavam mais de R$ 300, eu estava dura, mas ganhei uma dessas promoções-de-mandar-frase-para-rádio e fui.

O Brian May tocando Bohemian Rhapsody acompanhado de um vídeo do Freddy Mercury no telão. E parecia tão real, como se o piano fosse ao vivo. E eu sozinha nesse show.

A chuva que tomei pra ouvir o Herbie Hancock de graça no parque Villa Lobos e o frio que passei nas Viradas Culturais. O desânimo coletivo no show do Lô Borges, após uma tromba d’água que quase nos matou. A aventura para ouvir os Rolling Stones em Copacabana no esquema bate-e-volta, sem direito a banho ou cama. A surpresa de ouvir o filho do Muddy Waters na Galeria do Rock. Uma centena de pessoas, que não se conhecem, cantando juntas o riff de “Black Night“, em plena avenida do Contorno, após o show do Deep Purple. A gente pedindo — e o Paul tocando — “Paperback Writer“, um hino da minha turma de amigos de infância.

Show é uma coisa legal demais, que dá uma injeção de adrenalina como quase nada mais é capaz de dar. Que este post faça com que muitos de vocês, que também foram a estes shows, também se emocionem ao reviver a experiência (clique na foto para ver maior):

B.B. King, SP

Jorge Ben, BH

Mud Morganfield, SP

Festival de Blues, BH

Paul, SP

Mutantes, BH e SP

Queen, SP

Rita, BH

Lô Borges, Serra do Cipó

Paralamas, BH

Stones, RJ

Post dedicado aos solteiros desesperados para estarem com alguém

Olha como as coisas são:

quando eu tinha lá pelos três a quatro anos, aprendi uma música com a minha mãe, que ela adorava cantarolar. Para mim, a letra dizia apenas o seguinte:

“Papai do céu, me dá um namorado lindo, fiel, gentil e tarado.”

Esqueci completamente disso e agora só lembrei por causa daquele post sobre amnésia infantil.

Pela primeira vez na vida, fui dar um Google para descobrir de quem é essa música, crente que seria de alguma marchinha antiga de Carnaval, de alguma cantora desconhecida. Quase caí pra trás ao ver que é da minha querida Rita Lee, aquela mesma de quem tenho um ímã de geladeira e quase toda a discografia no computador, desde os Mutantes. Por alguma razão obscura, justo a música da minha infância passou batido durante todos esses anos, mesmo com o grande contato que tive com as músicas da Rita.

Após esse reencontro emocionado, que me revelou que a canção se chama Xuxuzinho e a letra é muito maior do que esses versinhos, comecei a pensar no significado deles.

É basicamente uma moça pedindo aos céus para ter um namorado. Ela nem é muito exigente: não precisa ter dinheiro, não precisa ser muito inteligente, nem o cara mais legal do mundo. Não precisa ter bom gosto musical, adorar cinema e torcer pro mesmo time de futebol. Não precisa estar bem informado, saber trocar o chuveiro queimado ou cozinhar arroz. Basta ser bonito, fiel, gentil e tarado.

Lembro nitidamente que eu perguntei à minha mãe o significado dessa última palavra. Droga, não lembro o que foi que ela respondeu pra mim! 😉

O importante é que essa memoriazinha fugaz, que recuperei justo agora, veio a calhar para este dia 12 de junho. Porque neste dia de mil propagandas e celebrações comerciais só me vêm a cabeça certos tipos de pessoa: aquelas desesperadas para estarem com alguém. Não falo dos solteiros convictos, nem dos solteiros satisfeitos com a fase da vida em que estão. Mas daqueles que estão angustiadíssimos, como no poema abaixo:

Lua cheia
Hoje todos os casais da cidade
saíram às ruas.
E me espiavam, de mãos dadas.
Abraçavam apertado e cochichavam,
olhando para mim.
Todos os olhares eram para mim.
Todos estavam apaixonados
— e me olhavam.
E eu fui encolhendo e apequenando
e tornei-me miúda com tantos olhares
de tantos casais de mãos dadas e abraço apertado.
E tornei-me sozinha.
E o único olhar que eu queria olhava pra lua.
Por sinal, cheia – belíssima.

Já repararam que essas pessoas geralmente são as que ficam insatisfeitas em qualquer fase da vida? As que estão sempre brigando com o namorado ou pensando em se divorciar do marido?

Penso nelas com certa piedade.

Estão sempre esperando por uma vida friamente imaginada ou planejada — que nunca vai acontecer — em vez de desfrutar das oportunidades que a vida real lhes oferece a todo momento, em cada fase.

É por isso que dedico este post aos solteirões e solteironas insatisfeitos do mundo. Desejo que eles saibam encarar esta data com o mesmo bom humor da Rita, porque é preciso que saibam que todas as fases da vida — do casamento, do namoro, do rolo e, claro, da solteirice — têm lados positivos muito aproveitáveis.

E desejo àqueles solteirões e solteironas, que não desejam mais esse status social, que sejam menos exigentes e olhem as pessoas ao seu redor, porque bastam quatro belas virtudes para que elas se tornem uma companhia perfeita.

Não fazem questão da beleza, gentileza, fidelidade e taradice? Escolham seu cardápio particular!

(Eu fico com a lealdade, a boa conversa, o bom humor e a simplicidade. O resto é resto ;))