Shows inesquecíveis contra o botão de autolimpeza cerebral

Outro dia resolvi abrir minha caixinha de lembranças (um dia vou escrever sobre ela) e redescobri várias coisas que minha desmemória já havia apagado por completo. Parece que meu cérebro tem um processo de autolimpeza, igual de liquidificador — mas que ele aciona e varre blocos inteiros de vida sem me consultar primeiro (um dia também vou escrever sobre isso… se lembrar).

Uma das melhores coisas que fiz na vida foi guardar os ingressos dos shows a que já assisti. Alguns tinham sido inesquecíveis no dia e, no entanto, viraram uma sombra confusa agora, dez anos depois.

O fato é que, ao passear por esses ingressos e por algumas fotos, cenas fortíssimas voltaram à minha memória.

O primeiro “salário”, quando ainda só fazia bico de professora particular, sendo gasto num show de uma banda ruim, só pelo prazer de poder me dar ao luxo de pagar R$ 35 para sair com meus melhores amigos.

A noite em que descobri as maravilhas do blues, na companhia do meu irmão, e ouvi as Chicago Blues Ladies, irmãs apropriadamente negras e gordas (como deve ser todo mundo que carrega aquelas vozes de deus), que depois encontrei no restaurante de um hotel de Beagá, de havaianas no pé e lenço na cabeça.

A vez em que não pude ouvir o B.B.King, porque descobri tarde que haveria o show e só tinham sobrado ingressos de R$ 500. Era a última turnê dele, já com mais de 80, e fiquei desolada. Daí, poucos anos depois, ele voltou, os ingressos custavam mais de R$ 300, eu estava dura, mas ganhei uma dessas promoções-de-mandar-frase-para-rádio e fui.

O Brian May tocando Bohemian Rhapsody acompanhado de um vídeo do Freddy Mercury no telão. E parecia tão real, como se o piano fosse ao vivo. E eu sozinha nesse show.

A chuva que tomei pra ouvir o Herbie Hancock de graça no parque Villa Lobos e o frio que passei nas Viradas Culturais. O desânimo coletivo no show do Lô Borges, após uma tromba d’água que quase nos matou. A aventura para ouvir os Rolling Stones em Copacabana no esquema bate-e-volta, sem direito a banho ou cama. A surpresa de ouvir o filho do Muddy Waters na Galeria do Rock. Uma centena de pessoas, que não se conhecem, cantando juntas o riff de “Black Night“, em plena avenida do Contorno, após o show do Deep Purple. A gente pedindo — e o Paul tocando — “Paperback Writer“, um hino da minha turma de amigos de infância.

Show é uma coisa legal demais, que dá uma injeção de adrenalina como quase nada mais é capaz de dar. Que este post faça com que muitos de vocês, que também foram a estes shows, também se emocionem ao reviver a experiência (clique na foto para ver maior):

B.B. King, SP

Jorge Ben, BH

Mud Morganfield, SP

Festival de Blues, BH

Paul, SP

Mutantes, BH e SP

Queen, SP

Rita, BH

Lô Borges, Serra do Cipó

Paralamas, BH

Stones, RJ

Anúncios

Presente de amigo: light music

Acabo de chegar em casa e ver que, além das contas a pagar, que são a única correspondência que recebo ultimamente (é muito triste que as pessoas tenham parado de trocar cartas, né?), havia um pequeno pacote, no formato de um CD.

No pacote não havia um remetente especificado e fiquei intrigada, pensando se não era engano. Afinal, que eu me lembrasse, eu não tinha feito nenhuma compra de CD nos últimos tempos.

Quando abro, vejo um CD com capa colorida do Jethro Tull. Eu definitivamente não tinha comprado aquele CD e já estava certa de que tinha vindo por engano.

Daí vejo o bilhete de um grande amigo de Beagá dizendo que era um presentinho de natal atrasado e que ele se lembrava de uma conversa nossa de quase quatro anos atrás em que eu dizia que não tinha aquele CD na minha coletânea.

“Tem uma pegada mais blues, country, acústica e instrumental”, descreveu meu amigo sobre esse álbum “A Little Light Music“.

O set list inclui duas músicas excepcionais da banda, duas das minhas favoritas: Too Old to Rock’n’Roll e Someday the Sun Won’t Shine For You.

Esta última é um bluesão, de uma época em que o Jethro Tull ainda se propunha uma banda de blues e a gaita tinha muito mais espaço que a flautinha. Foi com ela que Ian Anderson abriu o showzaço que fez em Beagá em 2007, no Chevrolet Hall. E é ela que abre este CD sensacional, que estou ouvindo agora.

Fica como dica para vocês comprarem ou baixarem:

Reparem em como a letra é inocente e bobinha e simples, como cabem ser muitas músicas de blues 😉

Ian em sua pose favorita. (Foto: CMC)

Por fim: valeu, querido Bill! Fez meu sábado mais feliz! Que venham mais pacotinhos-surpresa e bilhetes amigos em nossas vidas! 🙂