Melhores livros de 2016

livros2016

Continuando uma tradição deste blog, segue uma lista dos 7 livros mais divertidos que li neste ano: Continuar lendo

Anúncios

“Ameaça de morte no clube”

piscina

Manhã de muito sol, clube cheio em Belo Horizonte. (Mineiro não tem mar, mas tem piscina, tá?) Crianças brincando na água enquanto os mais velhos caminham pra lá e pra cá na piscina, num exercício pouco exigente. Picolés, açaís, refris, sucos, cervejas. Bebês brincam ao sol. As crianças mais velhas já se aventuram no parquinho. Grávidas fazem muito xixi, a todo momento. Adolescentes desfilam. Famílias conversam — é domingo, dia de reunir a família.

Eis que um homem de seus 70 anos passa perto de todos, esbravejando ao celular:

— Eu vou te matar! Vou agora pegar o revólver lá em casa e VOU TE MATAR!

Silêncio constrangedor. Todos ficam com um certo medo do homem, mas também muito curiosos. O silêncio é um pouco pelo susto, outro tanto pela vontade de aguçar os ouvidos e entender a conversa.

— Você ameaçou minha filha, é? Então VOU TE MATAR AGORA!

Uma mulher, que está perto dele, pode ser a filha em questão. Não se sabe se ela tenta acalmá-lo ou se o incentiva nas ameaças à pessoa que, antes, a ameaçara. Seria seu ex-marido? Algum stalker da vizinhança? O atual companheiro, com, digamos, problemas de alcoolismo?

As cabeças do clube, antes voltadas para amenidades, agora começam a imaginar um roteiro de “Law & Order” ou de um livro da Agatha Christie (“Ameaça de morte no clube” parece título de uma das dezenas de novelas da rainha do crime). Tentamos encontrar uma justificativa para tamanho ódio contido naquelas ameaças, tão pouco adequadas ao espaço de lazer, ao domingo de sol, ao céu azul.

Onde caberiam? Numa madrugada escura e fria, num beco sujo de alguma viela deserta, com baratas, ratos e muitos latões de lixo. Lá, se surgisse um homem gritando “EU VOU TE MATAAAAAAR!” talvez não chocasse tanto a audiência. Mas ao lado do parquinho do clube?!

O homem finalmente segue seu rumos, os gritos vão se distanciando, e os pensamentos mórbidos voltam a dar lugar à conversa sobre as últimas estripulias da sobrinha de dois anos. A grávida volta a fazer xixi, a criança volta a querer nadar, o avô põe a neta mais nova no colo, os sorrisos retornam com facilidade.

E aquele pequeno drama familiar, subitamente tornado público, passa como uma nuvem apressada, que cobre o sol por um minutinho e depois se evapora, sem prejudicar o bronzeado.

(Mas eu torço para que todos estejam vivos e longe das páginas policiais pelos próximos dias, semanas e anos.)

Leia também:

faceblogttblog

As Stars Hollow de Minas

Gonçalves, em Minas, uma das cidadezinhas encantadoras onde eu adoraria viver. Foto: CMC

Gonçalves, em Minas, uma das cidadezinhas encantadoras onde eu adoraria viver. Foto: CMC

Quem nunca pensou em morar numa cidadezinha, em algum momento da vida?

Eu adoro morar na capital, em uma cidade com boa infraestrutura e quase tudo de que preciso, mas, vez por outra, preciso me refugiar em alguma rocinha para descansar de um jeito que em Beagá eu não consigo. Ir para o sítio, a Serra do Cipó ou algum mato qualquer, onde dê para enxergar mais estrelas durante a noite, menos prejudicadas pelo excesso de luzes no chão.

Quando chego nessas cidades, fico encantada com a tranquilidade, com a sensação de que todos se conhecem, com o artesanato local, com as comidas deliciosas e simples, com o preço mais barato de tudo. As pessoas se cumprimentam mais, são mais cordiais, menos apressadas. Há um outro ritmo, outros passos para a vida.

Mas logo sinto necessidade de me acelerar de novo e voltar à minha rotina frenética.

Fico me perguntando se um dia, quando eu tiver me aposentado, vou querer me esconder em um desses recantos pacatos. Se sim, vou buscar a lista de possíveis cidades para morar nesta reportagem AQUI, que fala das 156 cidades mineiras que não tiveram nenhum homicídio registrado em cinco anos, segundo os dados do Mapa da Violência.

Ajudei a fazer a matéria e, enquanto procurava as fotos dessas cidades, me espantei com a tranquilidade que existe até nas imagens. A padaria chama só “padaria”, o casamento é um evento local que lota a igreja, a iluminação da pracinha é amarela, há pessoas sentadas nos banquinhos das praças, namorando ou conversando — e uma infinidade de belezas naturais.

Todas elas, com cerca de 4.600 habitantes em média, lembram a cidade fictícia de Stars Hollow, do meu seriado favorito, “Gilmore Girls”, onde a graça da vida está fundamentalmente nas pessoas, nos doidinhos e estranhos, e nos festivais locais, que mobilizam todo mundo. Também me lembram as cidadezinhas que eram cenários dos livros de Agatha Christie — onde, curiosamente, os piores assassinatos aconteciam.

Pode ser que o mundo da ficção seja melhor do que a realidade que eu encontraria nesses refúgios, mas, pelo menos, tenho certeza que lá não ouvirei o barulho de britadeiras em todas as esquinas. E passarinhos são muito mais inspiradores do que marteladas de obras, então é possível que, morando lá, eu finalmente encontre um jeito de escrever meu livro. Quem sabe quando eu me aposentar…

E você, tem um refúgio favorito? É uma dessas cidades da reportagem?


 

Leia também:

A Barcelona sombria e engraçada ao mesmo tempo

ogoano

Ouvi a recomendação dos meus pais, que têm um gosto para livros muito parecido com o meu: este livro é muito bom, embora seja meio esotérico.

Esotérico. Esta palavra ficou balançando na minha cabeça por algum tempo, até que eu deitasse numa rede para ler o livro pela primeira vez. Tenho preconceito contra coisas esotéricas. Lembra tarô, horóscopo etc. (Eu até leio o horóscopo de vez em quando, mas mais para me divertir com o microconto que cabe ali dentro do que para acreditar no que ele tenta me dizer.)

Por outro lado, pensei que poderia ser um esotérico tipo o livro “O Cavalo Amarelo“, da mestre dos romances policiais Agatha Christie. Naquele livro, mortes aconteciam de forma misteriosa, havia bruxas e paranormais, magia negra e afins, mas tudo se resolveu de forma bastante racional no final.

O preconceito desapareceu de vez quando comecei a ler a primeira frase do livro. Carlos Ruiz Rafón escreve bem, pra valer, não é desses picaretas que ganham dinheiro fazendo best-seller ruim. E o herói do livro, que nos é apresentado já com a narrativa em primeira pessoa, é um aspirante a jornalista e um amante da literatura! Nenhum personagem poderia me inspirar mais simpatia (e empatia) de forma tão instantânea. Ele descreve as coisas a seu redor de forma soturna, lúgubre, sinistra, tétrica (e posso seguir desvelando os sinônimos, porque todos soam bem para o cenário do livro). A começar por Barcelona, que é uma cidade que, depois de ler este livro, tenho medo de conhecer. E continuando na Redação do jornal “La Voz de La Indústria” – se eu ainda fosse colegial, teria desistido de virar jornalista depois de ler a descrição de um ambiente de trabalho tão mesquinho e cheio de pessoas arrogantes, incompetentes e babacas.

O mais bacana do livro é essa forma de falar do personagem-narrador, David Martín. Ele não esconde pormenores desagradáveis, mas é engraçadíssimo, irônico, sarcástico, daquele tipo que não perde uma piada nem à beira do abismo. Isso torna a narrativa leve e fluida, mesmo que permeada de mistérios intrincados.

O que me desagradou um pouco foi o fim. É claro que não vou contar nada dele por aqui, mas fiquei desapontada por ter encontrado mais do esoterismo e menos do racionalismo da escola de Agatha Christie. De qualquer forma, posso dizer que, das 410 páginas do livro, é como se 400 valessem muito a leitura. Do tipo de querer esticar a luz acesa no quarto por mais uns minutinhos antes de dormir, mesmo com os olhos ardendo de tanto ler. Um tipo que não se encontra em qualquer autor de best-seller por aí.

“O Jogo do Anjo”
Carlos Ruiz Zafón
Editora Objetiva
410 páginas
De R$ 22,40 a R$ 49,90

Melhores livros de 2013

Continuando uma tradição deste blog, segue uma lista dos 8 livros mais divertidos deste ano:

contos-de-amor-de-loucura-e-de-morte-horacio-quiroga_MLB-F-200347850_3114 Contos de amor, de loucura e de morte, de Horácio Quiroga, 208 págs. 15 contos sensacionais, cheios de suspense, tensão e com personagens inusitados, que marcam a gente para sempre. Leia mais sobre ele AQUI.

200x200_852092803XA Vida como ela é…, de Nelson Rodrigues, 533 págs. Cem contos, com mil diálogos, começo-meio-e-fim encaixadinhos, quase comportando uma vida inteira, além de personagens muito complexos, que geralmente passam por situações de casamento, traição e muita amargura (embora não sem boa dose de humor). Gírias, expressões e estereótipos que, embora sejam do Rio dos anos 1950, ainda são atuais (infelizmente) até hoje. Mais sobre ele AQUI.

mortesubitaMorte Súbita, de J.K. Rowling, 501 págs. Foi o primeiro romance adulto da autora que ficou famosa pela criação da saga de Harry Potter. Conta a história de um político do povoado de Pagford que morre, e o que se desencadeia a partir dessa morte, com o relato de vários dramas humanos que se entrelaçam. É um retrato bastante trágico da vida em uma cidade pequena, muito seco, com poucos respiros de humor, mas muito bem escrito. Pode ser comprado a partir de R$ 23.

O generalíssimo e outros incidentes, de Joel Silveira, 236 págs. Livro que relata reportagens feitas por Silveira, além de contos que ele escreveu. É muito raro e, ao que parece, parou de ser publicado desde a edição de 1987. Hoje só é encontrado em sebos, reais ou virtuais, como ESTE.

gabo

Eu não vim fazer um discurso, de Gabriel García Márquez, 127 págs. São 21 discursos que o prêmio Nobel fez, que tratam das agruras da América Latina, do ofício apaixonante de jornalista, da literatura e de figuras públicas, mais ou menos conhecidas. Mais sobre ele AQUI, AQUI e AQUI.

maomisteriosa

A Mão Misteriosa, de Agatha Christie, 223 págs. Fazia tempo que eu não lia um livro da Dama do Crime, que sempre adorei. Já devo ter lido mais de 30 e, nos últimos tempos, eu estava sacando muito facilmente o estilo dela e identificando de cara o assassino. Não foi o que aconteceu neste livro, muito divertido, sobre como cartas anônimas provocaram um rebuliço em uma cidadezinha inglesa. Pode ser achado por a partir de R$ 11,60.

leminskiToda Poesia, de Paulo Leminski, 421 págs. Estou devendo um post mais completo sobre essa obra maravilhosa, que só ameacei fazer AQUI. Leminski tem um domínio da língua portuguesa que é de tirar o fôlego, e possibilita que ele brinque com as palavras, os sentidos e os significados de uma maneira surpreendente. Outra coisa maravilhosa é como sobra humor nos versos, mesmo que às vezes eles tenham um quê de depressivo ou um cinismo em relação à vida e ao amor, por exemplo. Cada poeminha faz um movimento de chave girando e, no final, chego a ouvir o estalo que dá no meu cérebro, de encaixe perfeito. Coisa de gênio, que senti poucas vezes na vida. A vontade é sair sublinhando os melhores versos, ou marcando as melhores páginas, mas aí o livro ficaria todo manchado de caneta marca-texto. Para ler e reler a vida toda. Pode ser achado por a partir de R$ 25,90.

cisneprata

O Cisne de Prata, de John Banville, 319 págs. O autor escreve de um jeito tão detalhista, e tão bom em figuras de linguagem e comparações inusitadas, que nos transporta para a cena como se estivéssemos vendo um filme. Os personagens são muito bem construídos e a trama, com mil vai-e-vens, fora da ordem cronológica, constrói um suspense muito bom, com mistérios que só vão ser revelados, literalmente, nas últimas três páginas. Mas o mais legal é que não é o assassinato (ou acidente? ou suicídio?) que é o mistério principal da trama. O que mais nos prende é querer saber quem são, afinal, aqueles personagens. Quem é o homem da cabeleira prateada, o indiano de pele escura e a menina Deirdre (ou Laura Swan)? Pode ser achado por a partir de R$ 22,79.

Leia também: