
Outro dia escrevi aqui sobre racismo e esse assunto vai ser freqüente no blog, porque gosto muito de bater nessa questão malresolvida do Brasil.
E justamente por eu gostar tanto de discutir a igualdade de direitos para todas as raças sociais e o acesso à oportunidades para os negros é que acho ridícula a censura que será feita na obra de Mark Twain, com a retirada das várias palavras “nigger” em suas obras.
“Nigger” é negro em inglês, mas tem uma conotação ofensiva, próxima do “crioulo” em português.
Acontece que Twain era um escritor do fim do século 19 que defendia as minorias, era crítico aos costumes de seu tempo e, ao colocar deliberadamente essas expressões comumente usadas pelos brancos do Mississipi em suas obras, fazia um retrato acurado daquela realidade para as gerações futuras.
Assim como as referências pejorativas de Monteiro Lobato à Tia Nastácia – que ao mesmo tempo era, de forma progressista para a época, alçada à condição de personagem principal e parte integrante da família –, esses termos servem à crítica e à reflexão e devem ser lidos no contexto da época em que foram escritos. É como ouvir um blues do começo do século 20, com várias referências dos músicos negros às condições degradantes a que eram submetidos: não servem de incitamento ao racismo, mas de crítica a uma situação que (quase) ninguém mais quer que se repita.
Tanto é assim que cresci lendo as aventuras do Sítio do Pica-pau Amarelo e uma das minhas personagens favoritas é justamente a assustada Tia Nastácia e me tornei uma pessoa muito crítica ao racismo que ainda vigora forte no Brasil (mas que vigorará por muito mais tempo se as questões espinhosas de sua história forem jogadas para debaixo do tapete, em vez de serem discutidas em sala de aula).
Além de ser um estupro à obra de um grande escritor, as mudanças no texto de Twain ajudam a apagar da memória dos norte-americanos parte da sua história que, justamente por seus problemas e injustiças já razoavelmente superados, deveria ser sempre relembrada e estudada. Até porque Obama é negro e de descendência árabe e hoje é presidente daquele país, mas convive com um Tea Party da vida, que é forte e está a um pulo de grupos mais reacionários como o Ku Klux Kan (fortíssimo dos anos 1920 e existente até hoje).
Temos que saber por que os afrodescendentes ou negros foram chamados de crioulos e não eram considerados “gente” em trechos da história de Tom Sawyer e Huckleberry Finn! Estamos falando da história dos direitos humanos, da história social, da história da arte e, em última instância, da história da humanidade.





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