Ninguém nunca a entende naquela casa (e naquela rua)

O homem-couve (na verdade, homem-taioba), que encontramos em Tiradentes. (Foto: CMC)

Ontem eu estava voltando do jornal quando cruzei com um homem, sentado na calçada, ao lado de uma latinha de cerveja aberta, lendo em voz alta (bem alta) o que pareciam ser fundamentos de matemática avançada. Seu tom de voz tinha aquela afobação dos lunáticos, aquela pressa de quem tem muitos pensamentos complexos na cabeça e está ansioso para libertá-los ao mundo. A angústia dos loucos.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção em São Paulo é a quantidade de pessoas em outra sintonia que andam pelas ruas da cidade. Elas andam alheias a este mundo de enchentes, poluição, sujeira nas ruas e politicagem. Estão em seu próprio mundinho, que muitas vezes traz palavras desconexas sobre religião, noutras tantas escondem genialidades mais específicas. Como sabemos, os loucos têm muito de gênios.

Sempre fui encantada por esses serezinhos outsiders, que são personagens de todas as cidades. São Paulo tem mais deles, provavelmente, por ser uma cidade com mais pessoas. Ou porque é uma cidade com mais pessoas solitárias, que vivem aqui só para trabalhar porque solidão tende a enlouquecer a gente mesmo.

(Já tenho um primeiro sintoma: falo sozinha direto. E gosto de andar na rua cantando. Só não tenho, ainda, amigos imaginários.)

Em Beagá também já cruzei com vários desses tipos. Teve uma vez que acordei de madrugada com gritos frenéticos de pessoas anunciando o apocalipse, ou algo parecido. Não era raro eu passar minhas noites de insônia tentando entender as palavras desconexas que eram gritadas de janelas vizinhas. (E é um carma, porque onde moro hoje também ouço gritos arrepiantes de madrugada, que me fazem sempre suspeitar de que um assassinato está prestes a ocorrer à minha volta e pensar se é notícia.)

A vez que mais me marcou foi de uma mulher gritando, de forma insistente e agressiva, que queria morrer, me deixa morrer, me solta! A frase mais intrigante que ela soltou foi: “Estou incomodando porque amanhã é domingo e tenho que rezar pras pessoas mortas.” Me fez pensar.

Ela inspirou o poema abaixo:

 

Madrugada Insone

Em meio à absorção dos poemas,

gritos abafados

descontrole – me solta!

histeria.

Eu não quero mais viver!

a voz se desfigura em gralha

a mulher vira miséria

barulho de ódio

barulho de amor odioso

barulho de janela se abrindo.

Me solta!

estou incomodando porque amanhã é domingo

e tenho que rezar pras pessoas mortas.

É o escândalo do ódio

que perfila em toda alma humana.

Que resume todo amor de loucos.

Não vale a pena amar, pensam os vizinhos.

Teme a gralha.

A madrugada insone é dura para os poetas

eles ruminam o ódio dos loucos.

Silêncio! pede aquele que vai tomar no cu.

E o choro é amargo

é doloroso, porque ninguém entende.

Ninguém nunca a entende naquela casa.

O carro que passa e estaciona não entende.

O poeta não entende, só pressente.

E os insones permanecem em suspense

esperando o próximo abafado.

Vai pular?

Tem um cachorro de leve, mas pode ser um gemido.

Acabou: tudo silêncio.

Um silêncio incômodo dos que não entendem.

Como dói esta madrugada em silêncio.

(07/11/2005)

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