Sobre a prefeitura de Marcio Lacerda

Aí vai um post especial aos moradores de Beagá: uma breve reflexão anônima, refinada pelo meu pai, sobre as políticas públicas de Marcio Lacerda, prefeito da cidade desde janeiro de 2009.

texto de José de Souza Castro:

Recebi hoje pelos Correios a cobrança do IPTU do apartamento onde moro com minha mulher. Tivemos, em 2010, reajuste de 6,1% na aposentadoria. O aumento do IPTU é de 21%. Acho que uma forma de protestar contra esse abuso é divulgar o que recebi hoje, pela Internet: uma carta aberta ao prefeito de Belo Horizonte. E não se trata de IPTU.

A carta não tem autoria conhecida, mas é atribuída a uma suposta tia de Marcio Lacerda, não nominada. Em uma das mensagens há um autor, Luther Blissett, mas isso diz pouco, pois este é um pseudônimo adotado desde 1994 por centenas de hackers, ativistas e operadores culturais em vários países.

É possível que a carta, datada de 11 de dezembro passado, tenha sido escrita por alguém da área cultural que prefere o anonimato, pois tem o rabo preso com a prefeitura. Mas o que importa é o conteúdo da carta, ainda não contestada por Lacerda.

Para mim, o que se diz ali apenas confirma uma expectativa que expus neste artigo em julho de 2008, quando contestei a possibilidade de o então candidato a prefeito apoiado pelo tucano Aécio Neves vir a administrar a cidade com base em conceitos socialistas.

O missivista critica o muro construído na Praça da Estação, para cobrar ingresso de quem quisesse assistir ao show em comemoração à Declaração Universal dos Direitos Humanos e ao aniversário de Belo Horizonte. “Como pode uma prefeitura transformar a Estação em praça privada?”

Essa resposta é fácil, cara tia. Primeiro, o prefeito decreta, em 9 de dezembro de 2009, que “fica proibida a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação”. Depois, no dia 4 de maio de 2010, publica outro decreto que estabelece aluguel para uso da Praça da Estação, com preços variando de 9.600 reais (aluguel de 1 a 2 dias) a 19.200 (5 a 6 dias). Negócio, tia. E o ex-dono do Grupo Partcon é bom para fazer negócio…

“E eu, cidadã belorizontina, obrigada a ficar do lado de fora”, continua a carta. Sim, você, cara tia, e mais dois milhões de moradores! Mas faz sentido o que a missivista diz a seguir:

“Meu filho, exatamente no Show dos Direitos Humanos, presenciei a sociedade sendo privada de seu direito mais elementar, que é o de ir e vir e em plena Praça Pública. Não se impõe ao povo a lei e a ordem restringindo seus direitos. É necessário organizar a vida em sociedade, sim, mas é preciso o diálogo para isso. Cercar, murar, coagir, recriminar, despejar, remover… de nada irá resolver os problemas da população”.

Sem dúvida. Mas, tem mais:

“Sabemos que esta sua ação na Praça não foi pontual. Contando as feridas que tem deixado expostas neste último ano, relembro: Em janeiro proibiu a realização de eventos, de qualquer natureza, na Praça da Estação (sem falar que, em 2009, proibiu cães, bicicletas, skates, patins em todas as praças e jardins da capital); Em março tentou proibir o FIT, Festival Internacional de Teatro; Em abril, expulsou os índios pataxós da feira Hippie e os pipoqueiros das ruas da cidade; Em maio, abandonou os parques e jardins da cidade, a despeito de vários pedidos de espaço verde em orçamentos participativos; Em junho, transformou a Praça da Estação em apoteose da Coca-Cola e conseguiu transformar a exibição daquele que é consagrado como esporte com maior capacidade de socialização em um evento particular (você alugou a Praça!); Em agosto, anunciou que vamos perder mais uma chance de termos um transporte público digno e cancelou os investimentos no metrô para copa de 2014; Em setembro, retirou o Quarteirão do Soul das ruas e expulsou os moradores das Torres Gêmeas, a despeito do apelo da consultora da ONU, Raquel Rolnik; Em outubro retirou as feiras de produtores de verduras das ruas e prometeu retirar alguns sacolões ABC, de preços populares, compostos por hortifrutigranjeiros de pequenos produtores da região; Em novembro, decidiu vender importantes terrenos e imóveis de domínio da prefeitura, tal como a residência oficial do prefeito, na orla da Pampulha (com mobiliário que inclui um quadro de Guignard), e também decidiu pela ampliação da pavimentação do Arrudas, com a intenção ampliar as vias de transporte e esconder a podridão em que se encontra o ribeirão onde papai pescava; E ainda promete que 20.000 cidadãos belorizontinos serão despejados de suas casas.”

Bem, vou terminar, transcrevendo um último parágrafo (quem quiser ler a íntegra, pode ler, por exemplo, aqui):

“A cidade não é uma empresa. Não se pode atropelar cidadãos pensando apenas no desenvolvimento econômico, enriquecimento dos cofres públicos, no crescimento eficiente, higiênico, homogêneo, lucrativo. A cidade não é mercadoria, é o local do encontro, da civilidade, de urbanidade, da diversidade e assim deve ser tratada.”

Anúncios