Bicicleta a gente aprende e nunca esquece (ou não)

 

Lembro como se fosse ontem do dia em que aprendi a andar de bicicleta.

A gente tinha se mudado para um prédio novo quando eu estava com seis anos e três meses. A garagem na época era bem vazia (hoje um carro fica amontoado em cima do outro, praticamente) e era quase que um playground pra criançada e moçada do prédio. Era lá (e na Praça da Liberdade) que eu andava com minha bicicleta de rodinhas.

Quando faltava uma semana, ou algo do tipo, pra eu completar sete anos, me enfezei: eu não faria sete anos sem aprender a andar de bicicleta sem rodinhas!

Fiquei lá o dia inteeeeeiro, ou um tempo realmente longo, de acordo com a minha lembrança. Era um sábado. Meu pai ficou um tempo comigo, minha mãe ficou outro tanto. Consegui me equilibrar só com uma das rodinhas, mas ainda não estava pegando o jeito da coisa. Até que uma vizinha, a Hélia, foi lá ficar um tempo comigo e, se não me engano, foi com ela que me soltei e comecei a voar.

Que beleza! A gente aprende a andar de bicicleta e nunca mais esquece!

[Ou melhor, até esquece um pouco, com a falta de prática, mas é algo que se reaprende em alguns minutos.]

A última memória que tenho de passar um dia inteiro andando de bicicleta foi num carnaval, quando eu tinha uns 15 anos, em que fui para a fazenda de um tio, achei uma bike lá, e saí andando pelas estradas de terra, uma delícia!

Depois disso, acho que fui uma vez com um ex-namorado para um parque em que se aluga bicicletas em Beagá, na Pampulha, mas foi coisa rápida.

Acho que andei umas duas vezes em Mucuri, sul da Bahia, nas férias da vida.

Hummm, e só.

Até que ontem eu voltei a andar de bicicleta, para uma pauta.

E o resultado da aventura, eu garanto, é muito engraçado. Vejam aqui, ou aqui e aqui 😀

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A aposentadoria dos ex-governadores

Charge GENIAL do Jean, publicada na Folha de S.Paulo em 21.01.2011.

texto de José de Souza Castro:

O trabalhador brasileiro sabe que aposentadoria é decisão de alto risco. O valor recebido perde a cada ano seu poder de compra. Se não tiver o bom senso de morrer logo, terá, nos finalmentes, uma vida miserável.

Mas, como em tudo mais neste país dito republicano, há exceções. Estas contemplam, por exemplo, os ex-governadores. Eles não apenas recebem aposentadorias vitalícias extensivas à viúva e filhos, como recebem muito mais do que jamais sonhou um trabalhador que não fez da política um modo de ganhar a vida.

Imagino que quem aprovou tais leis que beneficiam ex-governadores de vários Estados – entre eles, quatro mineiros ainda vivos – pensou que, garantindo a sobrevivência deles, não precisariam roubar no exercício do cargo. Pois é muito fácil roubar: o governador tem nas mãos a chave do erário, como dizia Benedito Valadares que, ao que parece, preferia, no entanto, governar com a chave da cadeia.

Qualquer que seja a justificativa, a aposentadoria de ex-governadores é uma vergonha. Tanto que eles fogem do assunto, quando procurados por repórteres. Como fugiu o atual governador de Minas, Antônio Anastasia, futuro possível beneficiário.

Primeiro, mandou dizer aos repórteres que uma lei estadual impedia a divulgação de dados sobre servidores e pensionistas sem autorização expressa deles. O repórter Felipe Luchete, da “Folha de S. Paulo”, insistiu, e Anastasia acabou admitindo que a lei só proibia a divulgação do valor recebido por cada um, não seus nomes e o valor total.

O contribuinte pode saber, assim, que o governo de Minas gasta R$ 47.250 por mês, para pagar a aposentadoria de Rondon Pacheco, Francelino Pereira, Hélio Garcia e Eduardo Azeredo, que governaram o Estado entre 1971 e 1999. A viúva de Israel Pinheiro, governador de 1966 a 1971, também recebe a pensão, de valor não divulgado.

As pensões estão previstas em lei de 1996, época em que Azeredo governava o Estado. Se não houver viúva, o direito passa para filhos com menos de 18 anos ou de filhas maiores de idade que sejam solteiras ou viúvas e não tenham rendimentos.

Esse pessoal que respeita tanto as leis, quando elas lhe interessam, se esquece de uma coisa: pensões pagas a ex-governadores, como Eduardo Azeredo – que foi senador nos últimos oito anos e se elegeu agora deputado federal pelo PSDB mineiro – desobedecem à Emenda Constitucional 41, de dezembro de 2003, que limita aos vencimentos dos ministros do STF (R$ 26,7 mil), a remuneração máxima dos funcionários públicos e dos detentores de mandatos eletivos recebidos cumulativamente ou não. “O que vale para o funcionalismo não conta para senadores e deputados. Esses somam as pensões aos subsídios que recebem”, escreveu à “Folha de S. Paulo” o leitor Francisco Pedro do Coutto.

Azeredo talvez precise desse dinheiro extra para se defender, no Supremo Tribunal Federal, da ação que resultou das investigações sobre o chamado “mensalão mineiro”. E certamente continuará recebendo-o, gostando ou não o contribuinte mineiro, se o Supremo, como quer agora a Ordem dos Advogados do Brasil, não revogar todas essas leis de aposentadorias de ex-governadores.

Há casos realmente vergonhosos, como vem relatando nos últimos dias o jornal paulista. Por exemplo, o senador Álvaro Dias (PSDB), que foi governador do Paraná de 1987 a 1991, pediu em outubro passado a aposentadoria de ex-governador. Já no mês seguinte – quem disse que o governo é lento? – começou a receber a aposentadoria de R$ 24 mil. E receberia mais R$ 1,4 milhão de pagamento retroativo, relativo aos últimos cinco anos, se a imprensa não tivesse descoberto. Pego com a boca na botija, Dias anunciou que devolveria o dinheiro recebido.

O mesmo fez o senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho. Ele governou o Estado de 1987 a 1990, e desde então vem se elegendo senador pelo mesmo partido. No ano passado, ele pediu a aposentadoria de ex-governador, que equivale ao vencimento mensal de um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul: R$ 24.117. Quando pediu a aposentadoria, o vencimento de senador era de R$ 16,5 mil. Com o reajuste de 61,8%, passou para R$ 26,7 mil. Descoberto, Simon disse que devolverá os R$ 48 mil já recebidos (novembro e dezembro) e declarou que é contra a aposentadoria para ex-governadores.

Ah, bom…

Se depender do ministro do Supremo Marco Aurélio Mello, essas aposentadorias de ex-governadores serão extintas. Mas tem aquela história de direito adquirido, e quero ver se Azeredo, Garcia, Pacheco e Pereira ficarão sem elas. É um assunto para as chamadas Calendas Gregas, tão queridas de nossa célere Justiça…