Para viajar melhor de busão, cinco regras de adaptação

Vista da aurora pela janela do ônibus, em minha segunda viagem pra SP. (Foto: CMC)

Algumas pessoas comentaram no último post que o transporte de ônibus não é as mil maravilhas que minhas comparações fizeram crer.

Não é mesmo, ele tem lá seus pontos negativos. Mas a gente vai criando estratégias para se adaptar a eles, vejam só:

FRIO

Na primeira vez que viajei a São Paulo de ônibus, na lonjura que é maio de 2007, passei um frio do cão. Eu era tão inexperiente em ônibus que achava que, por ser uma viagem de madrugada, a empresa emprestaria um cobertor (eles até fazem isso, mas só nos leitos*). Como eu ia fazer um bate-volta para uma entrevista de emprego, levei o mínimo necessário: basicamente, a roupa do corpo. E ela não era quente e eu não sabia como São Paulo conseguia ser fria no mês das mães.

Enfim: eu simplesmente não consegui dormir nem um minuto da viagem de tanto frio que eu sentia. Olhava para os lados e todos estavam bem agasalhados ou cobertos, e eu, toda enroscada, tentando pensar em como conseguir manter o calor da minha boa alma. Pedi para o motorista reduzir o ar condicionado e ele disse que não tinha como (com a experiência, aprendi que isso foi lorota dele), tentei comprar cobertor nas paradas e não vendiam. Então fiquei lá, morrendo 😦

Aprendi que, não importa se está um calorão lá fora, é sempre bom levar uma manta ou um casaco grosso que, em último caso, serve de travesseiro.

ABANDONO

Na segunda vez que fui para São Paulo, em dezembro de 2007, desci em uma das paradas para fazer xixi e, na volta, cadê meu ônibus? Tinha me largado pra trás. Até vi o dito cujo fazendo a curva a uns 500 metros dali, mas já era tarde. Desesperei, mais ainda porque minha mala tinha ficado lá dentro. Estava sem lenço e sem documento, no meio da estrada, às 3h da madrugada.

Falei com os outros motoristas da companhia e um deles me disse que estava indo com o ônibus vazio para São Paulo e provavelmente correria mais que o meu ônibus e eu chegaria na parada seguinte (são duas) a tempo de entrar lá de novo.

E assim foi. Quando contei o que aconteceu ao motorista do meu ônibus, ele ficou morrendo de medo de eu fazer uma denúncia na ANTT ou algo do tipo, porque é obrigação deles contar o número de passageiros nas paradas, para não deixar ninguém pra trás, e eu realmente não tinha gastado mais que os 15 minutos estipulados. Não denunciei, mas fiquei puta com uma mulher que estava sentada perto e viu que eu tinha ficado pra trás e não disse nada.

Aprendi que não dá para confiar nos motoristas e nas malas que se sentam perto, então é bom fazer xixi em dois minutos, não comer nada e já voltar para dentro do ônibus com uma boa margem de erro.

CLARIDADE

Sempre tive muita dificuldade de dormir em ônibus e uma das razões é a claridade. Você fecha a cortina, mas continua passando pelas brechinhas as luzes dos faróis de outros carros, dos postes, das casas. E ainda tem o zé mané da poltrona em frente que nem fecha a cortina.

Aprendi que, se você não tem daqueles tapa-olhos fashion, um gorro bem preto enfiado até abaixo dos olhos também é muito útil para garantir a divina escuridão da soneca. Sempre levo o meu.

BARULHOS

Sempre tem, e não há o que se fazer. É a criança chorona e escandalosa. É o cara que ronca igual a uma furadeira direto no meu cérebro. São as duas maritacas tagarelando futilidades a noite toda. É o adolescente que escuta música no MP3 tão alta que, além de ficar surdo, deixa vazar o péssimo gosto musical.

A pior vez da minha vida foi uma que uma idiota sem educação, que provavelmente tinha acabado de comprar sua mini-TV, ou celular com TV, ou sei lá que diabo era aquilo, ficava assistindo na maior altura, como se estivesse na sala de casa. Não bastasse isso, gargalhava, gritava, era uma perfeita folgada. Consegui aguentar minha santíssima paciência até as 3h, quando soltei um sonoríssimo “pelamordideus, são três da manhã, tá todo mundo tentando dormir, porra!” e passei a ouvir grilos (e pensamentos aliviados de outras pessoas concordando fortemente comigo).

Aprendi que é preciso ter paciência, mas que também dá para pedir para as pessoas falarem baixo ou calarem a boca se você está numa viagem de madrugada. Se você não consegue abstrair, outra solução é levar seu próprio MP3 e colocar umas músicas baixinhas. E, sim, existem ônibus silenciosos também, nem tão raros assim.

A PESSOA AO LADO

Como eu disse no outro post, na maior parte das vezes, viajo com a poltrona ao lado livre, o que me permite esticar bem as pernas e achar algum conforto nessa jornada (não vou criar o item de como achar uma boa posição para dormir em ônibus, porque até hoje eu e minha coluna não descobrimos. Só pagando o leito mesmo).

Mas há também as viagens com vizinhos incômodos.

Teve uma vez que uma menina, que tinha acabado de levar um pé na bunda do namorado, me pegou de cristo e ficou até duas da manhã tagarelando na minha orelha sobre as agruras da vida dela. Fiquei com dó, então ouvi (embora aí eu tenha quase me enquadrado no item acima). Até que finalmente ela resolveu dormir.

Na parada, saí pra fazer xixi (já repararam que não uso o banheiro do ônibus nem a pau, né?), e, quando voltei, a moça tinha simplesmente deitado nas duas poltronas!

Essa foi a mais folgada que já encontrei. Também tem o caso dos gordinhos, que ocupam parte da minha poltrona e me esmagam contra a janela. E teve o caso de um senhorzinho que, durante o sonho, praticamente me agarrou, me chamando de Maria.

Mas na maioria das vezes as pessoas são normais: sentam-se, te dando boa noite, ocupam seu próprio espaço, dão um tchau no dia seguinte e fim.

Aprendi a conviver com outros seres humanos 😉


* No caso dos ônibus para Beagá. De São Paulo para o Rio, descobri que emprestam travesseiro e cobertor até em ônibus executivos!
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