Reflexão a partir de conversa na mesa do bar

O símbolo da liberdade dá as boas vindas no meu apê, em tapete que eu mandei fazer. (Foto: CMC)

Ninguém é feliz sem amor*.

Ninguém é feliz sem liberdade.

Mas ninguém é livre com amor.

Logo: a felicidade plena é impossível,

todos os que são livres são um pouco infelizes,

e todos os que amam nunca conseguem desfrutar a felicidade de ser livre.

 

*”Felicidade só é real quando compartilhada” (do maravilhoso filme “Na Natureza Selvagem“).
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Equação do amor

(Atendendo ao pedido da Natalie :))

Casal que vi num carnaval em Tiradentes: eles pegaram no sono durante o beijo... (Foto: CMC)

Fico pensando o que é amor.

Como se fosse algo definível.

Façamos uma equação, uma fórmula:

amor é isso mais isso mais isso.

E, provavelmente, menos um milhão de aquilos.

Amor é mensurável em quilos.

Amor é bebido em litros.

Amor é vendido em liras.

É cantado em versos líricos.

 

Mas eu queria despi-lo de todo o idealismo

de toda a magia que os poetas

– sempre culpados! – construíram.

Queria ser capaz de pensá-lo

e senti-lo

com a praticidade e a realidade

dos velhos ou de novelas tolstoianas.

 

Negando o poema, eu queria amar.

Render-me à escravidão dos meus medos

(ou meus medos da escravidão)

e sentir por um instante a certeza

(absoluta, plena, sublime)

de que todo o meu organismo

a corrente sangüínea, as trocas de gases,

os ácidos gástricos, as sínteses protéicas

formando memórias

alimenta-se de um combustível

quase sobrenatural

e inegavelmente perene

que pode ter muitos nomes

fundidos em si, despersonalizando-o,

mas que nomeia-se, respeitosamente,

Amor.

 

Eu queria ter essa certeza

(suspendam-se as certezas!),

para ter a tranqüilidade

acima de todos os tempos verbais.

 

No entanto (é bom dizer),

talvez a dúvida seja

mais próxima do que seria o amor

se ele existisse.

Porque enche-o de vida.

Porque dizer eu-te-amo é banal,

é vazio – é o que todos fazem,

Poetas ou não.

Amar com a sinceridade da dúvida

com a dor da incompreensão

e com a ambigüidade do ceticismo

é muito mais real.

Mais próximo de todos os deuses.

(25.03.2005)