A jangada em nossas camas

Para pegar na locadora: MINHA VIDA SEM MIM (My Life Without Me)

Nota 9 – crítica escrita em 24/07/2004

“Não existem pessoas normais”. Realmente, é difícil conceituar o normal. Cada pessoa reage diferentemente a algum acontecimento da vida, e é isso que nos torna tão humanos. Talvez a normalidade exista não nas pessoas, mas na própria vida que está aí para ser vivida por todos nós.

Minha vida sem mim mostra que o normal é viver a vida. Que ficar parada sentindo as gotas de chuva molhando a pele através da blusa é normal. Que apaixonar por alguém que baba enquanto dorme numa lavanderia é normal. Que não ter coragem de olhar nos olhos de alguém e dizer que ele tem dois meses de vida é normal.

A única coisa que não é normal é viver uma vida sem sonhos.

Ann (Sarah Polley) é uma mulher de 23 anos que descobre estar prestes a morrer de câncer. E, mais que isso, descobre que pode ser possível viver uma vida sem perspectiva de sonhos para si própria, desde que ela seja capaz de realizar os sonhos daqueles que são importantes para ela. É assim que ela faz uma lista das dez coisas que precisa fazer antes de morrer (fazer alguém se apaixonar por ela, beber e fumar à vontade, arranjar outra mulher para seu marido e colocar unhas postiças estão entre essas coisas). E aos poucos, mesmo sem querer, vai realizando uma a uma, transformando sua experiência de vida num estado de Presente pleno, de sonho fundido na normalidade da vida real. Pois ninguém sabe que ela está prestes a morrer – e assim Ann planeja como será sua vida sem sua presença.

Descobrir que o normal é a vida, ou viver sua essência, é como despertar de um sonho pela primeira vez. Polley encarna com perfeição a apatia de Ann pela mediocridade da vida e sua súbita consciência do que é controlar os próprios atos com o objetivo sincero de não abalar esta estrutura normal da vida de todos que a cercam. E assim ela descobre os sofrimentos dos outros por uma perspectiva muito mais completa – o que torna o filme menos dramático e mais triste, friamente triste, inevitavelmente previsível.

Isso tudo só foi possível graças às atuações perfeitas de uma equipe competente em cada particularidade. A “Blondie” Deborah Harry interpretando a amargurada mãe de Ann, Scott Speedman fazendo o marido companheiro e confiante, Mark Ruffalo (do desprezível Voando Alto) numa atuação apaixonada e sensível, Leonor Watling (de Fale com Ela) e a própria Polley, com seus olhos tristonhos e tão conscientes do mundo ao redor. Todos tão humanos!

Nossa vida pode ser medíocre por vinte e três anos e intensa por dois meses. Essa intensidade basta para que ela tenha valido a pena.

Essa é a mensagem que Ann nos passa. Não é difícil ser feliz, nem isso requer uma “normalidade” em nenhum de nós. Basta viver e deixar viver – e lembrar aos outros, sem precisar mesmo de cafonice alguma, o quanto eles são indispensáveis em nossas vidas.

Dizer a quem a gente ama: “God only knows what I´d be without you“…

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3 comentários sobre “A jangada em nossas camas

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