O que responderam os leitores: Médico particular ou plantonista? Parto normal, natural ou cesárea?

Astaffolani/ Wikimedia Common

Astaffolani/ Wikimedia Common

Há exatamente uma semana, fiz uma enquete aqui no blog. Comecei expondo minha grande dúvida sobre se deveria pagar para ter o acompanhamento da minha médica do pré-natal na hora do parto ou se seria melhor ter o atendimento de uma equipe de plantonistas, seja de hospital público ou privado. E terminei pedindo para as mães e pais compartilharem suas experiências, que poderiam ajudar a mim e também a outras grávidas de primeira viagem que possam estar com a mesma dúvida.

Como prometido, separei algumas das respostas que recebi aqui no blog e nas redes sociais e compartilho com todos. Muitos acabaram abordando a questão de ser parto normal ou cesárea também, vejam só:


MÉDICO PARTICULAR

1) Silvana – “A natureza é sábia e os partos normais, são normais… meu marido nasceu em casa, 1967, uma vizinha da roça fez o parto. Minha mãe teve dois partos normais em hospital público, 1969 e 1970, estamos bem. Naquela época não existiam livros e redes sociais, os partos eram normais 🙂 Meu médico era empregado de um hospital, se o parto fosse por esse hospital não haveria custo, como optei por outro hospital onde ele era cadastrado mas não empregado paguei a diferença. Achei justo e me senti confortável, pois ele me acompanhou o tempo todo. Por isso, algumas mamães optam primeiro pelo hospital e depois veem quais os médicos que atendem por ele. Meu médico foi muito sincero na primeira consulta, trabalho e atendo aqui, se você optar por outro hospital existe um custo. Sei que não ajudei muito, mas se você está em dúvida e com receio, siga o seu coração e veja qual a opção que lhe agrada mais, você está no comando. A pior coisa na vida da gente é o “e se…”. Paguei R$ 300,00 numa vacina de pneumonia que para o meu filho que é eficaz em 80% dos casos, ele nunca teve pneumonia e muitos amiguinhos tiveram, e se eu não tivesse dado essa vacina? Como me sentiria se ele tivesse pneumonia? Siga seu coração :)”

2) Fabrício – “Davi nasceu de parto normal. Chegamos à maternidade meia-noite daquele dia, a bolsa tinha acabado de romper, e, em menos de uma hora desde a chegada, fomos pro centro, Davi nasceu fortão e tudo correu muitíssimo bem. O parto normal é fantástico, pelo menos no nosso caso. (…) Ao optarmos pelo obstetra oficial, pagamos uma quantia boa pelo serviço num dia atípico. Valeu pelo conforto de saber que viria uma pessoa antenada com toda a gestação, de confiança, e isso tranquiliza. Ao tempo que foi tão rápido, tão tranquilo, que cheguei a pensar, confesso: “Poxa vida, ele nasceria sozinho rsrs, e eu economizaria muito, rs”. Mas foi fantástico e quem puder, acho que vale a pena sim, pela sensação de segurança mesmo. O principal detalhe que acho que tem que ser analisado é: A gravidez é uma gravidez tranquila? Tem algum probleminha do tipo pressão elevada ou baixa demais, essas peculiaridades todas. Caso tenha, um médico por dentro de tudo seria melhor, acho. Caso não, caso esteja tudo em ordem, vale a torcida para chegar a hora em uma hora que o obstetra oficial esteja no hospital haha, e segue a vida, estando ou não, a gravidez tranquila é praticamente garantida. Deus quem fez.”

3) Bruna – “Eu compartilho do seu drama entre pagar o parto particular e optar pelos plantonistas do convênio. No meu caso optei por pagar pelo médico particular para garantir o tipo de parto que eu quero (pelo menos tentar) com o mínimo de intervenções possíveis. No caso de um plantonista o atendimento varia muito, você pode pegar um médico ótimo e mais humanizado ou um bem cesarista. Tenho dois planos de saúde e estou tentando minimizar o prejuízo olhando qual faz um reembolso melhor do parto. Boa sorte na sua escolha.”

4) Ludmila – “Eu paguei para garantir a presença da obstetra que me acompanhava. Com isso fiquei mais tranquila e tive meu direito a um parto normal respeitado. Mas não evitei a violência obstétrica que quando tive a Teresa nem sabia que era violência, só depois de ter que conviver com as consequências que me informei e descobri. Então eu acho que depende muito do grau de informação que vc tem e que pretende priorizar. E em termos de ética médica, a cobrança da taxa ‘por fora’ é a ponta de um iceberg. É uma conversa longa que dificilmente vai se resumir a um faça x ou faça y.”

5) Tatiana – “Eu optei por fazer o parto com a minha médica mesmo. No fim das contas descobri que foi a melhor coisa que eu fiz. Porque liguei pra ela no sábado falando que a Taís estava mexendo pouco. No domingo ela me encontrou para fazer uma série de exames e detectou que o líquido estava diminuindo muito e era arriscado para o bebê. Daí tive que fazer o parto no dia seguinte e não tive nem um centímetro de dilatação. Ao longo da gravidez fiz pilates, caminhada, tratei de engordar pouco, tudo pensando no parto normal. E tive que fazer cesárea no fim das contas. Me senti mais segura com ela, uma vez que conhecia todo meu quadro e acompanhou minha gravidez. Um plantonista certamente não teria feito meu parto naquele dia porque eu estava mto bem. Mas qdo abriu minha barriga a médica viu que eu estava com muito pouco líquido e que de fato estava entrando em uma fase perigosa para o bebê. E eu já estava com 41 semanas. Em outra situação daria para esperar até a 42. Mas minha médica soube avaliar bem. Mas tbm sei casos de partos bem sucedidos com plantonista. O problema de não ser sua médica ao meu ver é que fica muito loteria. Ou seja, se der sorte, cai em um médico ótimo. Mas ficamos mto sensíveis na gravidez. Vc ter a segurança que a qualquer hora que entrar em trabalho de parto seu médico vai te ajudar é ótimo. No fim das contas achei que valeu a pena o dinheiro investido. Não passei por nenhum constrangimento ou violência obstétrica. O bom é q com seu médico vc pode dizer antes o q não quer. Tipo eu não queria usar fórceps e sei que ainda é muito usado. Penso que tudo o que puder fazer pela tranquilidade vale. Se for fazer com plantonista, escolha de maternidade e não hospitais que tbm fazem parto.”

6) Cynthia – “O Rafa teve que nascer um tiquim mais cedo… Meu médico me acompanhou na semana e quando vimos que ele devia nascer, tive confiança e o parto foi excelente. O pós também foi muito bom e o Rafa, apesar de pequeno, nasceu saudável 🙂 No próximo eu espero conseguir o parto normal. E provavelmente vou ter com o meu médico de novo.”

7) Clarissa – “Meu parto foi feito pela médica que me acompanhou toda gravidez, custeado pelo convênio médico da empresa que trabalhava. Foi ótimo, deu super certo e eu me senti muito bem por estar com quem confiava. Foi cesárea.”

8) Alexandre – “Qualquer atendimento de plantonista em emergência será menos individualizado. Afinal ele está ali não só para resolver o seu problema mas de todos que estão passando pelo plantão. Sem dúvida, fazer com o médico que acompanhou minha esposa durante toda a sua gravidez a foi muito melhor. Os dois partos foram muito tranquilos. Porém se tivesse que fazer com um plantonista ou um médico que nunca vi, acho que o stress seria grande….”

9) Tacy – “Eu não paguei extra para ter minhas filhas. As duas nascidas de parto normal, as duas com diferentes médicas, as duas médicas que me acompanharam desde o início da gestão. Como isso é possível? Meu plano de saúde – que não é nenhum desses grandões que dizem que não, mas fazem vista grossa para a cobrança por fora – simplesmente descredencia quem cobra por fora. E uma assistente social do plano de saúde me ligava todo mês para saber se a médica havia mencionado, sugerido, dado a entender, que cobraria para fazer o parto. Mas deixava claro que a médica tinha o direito de não querer fazer o parto. Minhas médicas – tive que trocar de uma para a outra por que a primeira se acidentou e deixou de fazer partos normais 😦 – nunca me cobraram. Nunca ameaçaram não aparecer na hora do parto. Pelo contrário. A minha segunda médica não pegou o pré-natal de uma amiga que teria bebê três meses depois de mim porque a DPP dessa amiga dava nas férias da médica. Uma médica mais atenciosa impossível. O que eu vou falar aqui vai soar extremamente radical. Se um médico cobra para fazer parto normal, me parece que os interesses dele estão em outro lugar. Acho justo ele dizer que não tem condições de se dispor a atender o parto normal em função de seus compromissos profissionais. Mas se ele poderia estar disposto em troca de uns tantos dinheiros… bem, não é pra mim. Mas a história que você perguntou não foi essa. Foi sobre ter ou não com o plantonista. Bom. Isso depende de uma série de fatores. É um plantonista de uma Maternidade que faz jus ao nome? Porque há maternidades em BH e RMBH que estão com índices acima de 90% de cesarianas. São as maternidades que vendem “kits maternidade”, que levam a grávida para um tour pelas suas instalações destacando o conforto da hotelaria e oferecendo a sala de parto que tem uma pequena arquibancada para os demais familiares assistirem aquele momento. Mas avisam: essa sala de parto apenas para cesarianas, pois é necessário programar. Nessas maternidades, é altíssima a chance de o plantonista nunca ter feito um parto normal. Eu não faria ou meu. Mas se estamos falando de Maternidades com taxas melhores de partos normais (não são taxas boas, porque isso não existe o Brasil, infelizmente), aí eu me entregava num parto com platonista. Tive várias colegas que fizeram isso, porque seus médicos pagavam a parte. E deu tudo certo. Hoje, passados dois partos… No primeiro, aconteceu o que minha médica morria de medo que acontecesse. Eu e a outra parturiente entramos em trabalho juntas. Ela duas horas antes de mim. Resultado: minha médica estava lá, mas não estava comigo. Quem era meu companheiro, quem me acalmava, me dava força, era meu marido. E, claro, minha filha não esperou na fila bonitinha. Acabei indo para o parto… com o plantonista. Minha médica chegou na hora que a criaturinha tava, literalmente, pulando pra fora…”

10) Alice – “Minhas duas gestações foram acompanhadas pelo mesmo médico do início até a hora do parto e foi por meio de plano de saúde Unimed, cobriu tudo. No primeiro parto fiquei em trabalho de parto durante 24 horas aguardando para que fosse parto normal, havia contração, dilatação chegou até um certo ponto que não evoluía mais bolsa rota e bebê bradicardíaco, não dava pra esperar mais e a opção foi cesárea. Tudo correu bem, filhão nasceu super saudável, foi amamentado logo em seguida. Recuperação de cesárea que é mais complicada para a mãe. Na segunda gestação, a mesma coisa, tudo correu bem, trabalho de parto longo, bolsa rota, e bradicardia do bebê. Cesárea novamente. Em ambos os casos tudo foi planejado para o parto normal, mas devido aos bebês estarem com o cordão umbilical enrolado no pescoço, fez com que fosse necessária a cesárea.
Claro que gerou muita insegurança e medo quando tive que ir para o centro cirúrgico sabendo que algo não ia bem, mas tudo deu certo e a tempo. Cesárea é pra quando se necessita realmente. Desejava normal, mas não deu, antes de mais nada a saúde e bem estar dos meus filhos!”

11) Ana Paula – “Na minha primeira gravidez eu tinha muito medo de parto normal. Muito mesmo. A médica não teria a menor dificuldade em me convencer a fazer uma cesariana, mas ela é uma médica do tipo parto normal futebol clube, uma raridade na rede particular, ainda mais há sete anos, quando o assunto não era a bola da vez. Ao longo da gestação ela foi me convencendo de que era possível, até que eu aceitei tentar. E foi um parto ótimo. Fui para uma consulta, com 38 semanas e 5 dias, e já estava com cinco centímetros de dilatação. Ela achou que era hora de ir para a maternidade e foi também. Era por volta de 17h. A bolsa estourou às 18h45. Foi aí que eu comecei a sentir dor. Muita, mas rápida. Beatriz nasceu às 19h30. Com a Helena foi mais ou menos a mesma coisa. Como a médica já conhecia meu histórico, passei a ir às consultas de dois em dois dias desde a 37ª semana para monitorar a dilatação. Na consulta de 38 semanas e dois dias eu também estava com dilatação de 5 centímetros e fui para a maternidade. Cheguei às 14h30, a bolsa estourou às 17h e Helena nasceu às 17h25. Nas duas gestações eu paguei para fazer o parto com a minha médica e isso foi muito importante para mim. Tenho certeza de que sem minha médica minha história teria sido outra e eu estaria na estatística da maioria, das cesáreas agendadas. A confiança que eu tenho nela foi fundamental para enfrentar meus medos, principalmente na primeira gravidez.”


PLANTONISTA

1) Ivona (minha mamãe!) – “Minha experiência diz o seguinte: dos meus quatro partos, três foram com plantonistas. Não vi diferença entre eles e o particular, que foi quando vc nasceu. Gostei tanto dos médicos que me atenderam que acabei adotando-os como meu obstetra no parto seguinte.”

2) Taby – “Eu tive meu filho com plantonista mesmo. Não tinha condições de pagar minha medica e ela me indicou ir a cada 2 dias na maternidade aonde o bebe nasceria pra fazer acompanhamento depois que fizesse 39 semanas (ela ficou comigo até então). Não tenho o que reclamar. Fiquei 2 semanas indo no plantão e fui muito bem atendida por todos os médicos. Meu parto foi maravilhoso e eu pude ficar com meu filho na sala de cirurgia e no pós operatório! Posso dizer que nessa escolha fui feliz.”

3) Graciele – “Tive meu parto com os plantonistas do hospital público, mesmo tendo feito pré natal pelo convênio, fui muito bem tratada. Minha filha saiu com todos os exames de lá, inclusive rx da coluna e eletrocardiograma.”

4) Hanna – “Meu parto foi normal e por uma plantonista. Foi perfeito. Acho que, se vc tem uma saúde boa e confiança em si mesmo, vale.”

5) Relato da Paola AQUI.


PARTO NATURAL

Você quer ter um parto natural, sem qualquer tipo de intervenção (como anestesia, por exemplo)? Leia AQUI o depoimento de uma mãe que decidiu que seu segundo filho nascesse dessa forma (o primeiro foi por cesárea), e fez todo um planejamento para que tudo corresse como ela sonhava. O relato é bastante detalhado e acho que pode ajudar as outras mães que queiram seguir o mesmo caminho.


CONTE SUA EXPERIÊNCIA! 😀

Você também é mãe ou pai e quer compartilhar sua experiência? Será muito bem-vinda. À medida que mais relatos forem chegando ao blog, vou acrescentando todos eles neste post. Você pode comentar aí no campo de comentários ou enviar para meu email.

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Enquete para as mães: como foi o parto de vocês?

Astaffolani/ Wikimedia Common

Astaffolani/ Wikimedia Common

Dia desses li um post que a Paola Carvalho, de quem falei ontem, escreveu em seu blog. Lá ela contava como foi seu parto normal e a opção que fez pela equipe plantonista do hospital Mater Dei, em Belo Horizonte.

Esse post aguçou uma dúvida que venho carregando desde os primeiros meses de gestação: é fundamental eu contar com a presença da minha médica obstetra, que me acompanhou durante todo o pré-natal, na hora do parto?

A princípio, acho que esta é a vontade de toda grávida: ter alguém que já conhece, em quem confia e que supõe-se que também conhece bem seu histórico médico, para garantir o parto mais seguro possível para a mãe e o nascimento mais tranquilo possível para o bebê. Acontece que 99% dos médicos cobram uma taxa extra para garantir essa disponibilidade na hora do parto, fora o que já pagamos pelos planos de saúde — taxa esta que é alvo de polêmica há décadas, tem parecer favorável do Conselho Federal de Medicina, mas é considerada ilegal pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, por órgãos de defesa do consumidor e pelo Ministério Público Federal.

As entidades médicas argumentam que todo hospital conta com uma equipe plantonista para assegurar o direito de ter o parto realizado pelo plano, conforme manda a cobertura. Mas que, para ter o parto acompanhado pelo médico específico, os pais deveriam pagar honorários à parte a esse profissional, que não são ilegais ou antiéticos. Os órgãos reguladores e fiscalizadores dizem que a cobrança extra é proibida por lei e que, se o médico atende naquele plano de saúde, ele tem que estar disponível de toda forma.

Enfim, sem entrar no mérito de haver ou não corrupção nessa cobrança, já que isso ainda é polêmico, o fato é que passei os últimos oito meses pensando se é melhor pagar para tentar garantir o melhor parto possível ou não. O que nos leva a outra questão: ter o parto com uma equipe plantonista (seja de hospital público ou particular) é pior? É menos seguro? Corre-se o risco de cairmos nas mãos de um médico muito inexperiente, por exemplo? Eu já tive que ir a um pronto socorro de maternidade duas vezes durante esta gestação: na primeira, fui atendida por uma médica excelente, na segunda, por um médico que nem sequer fez os exames básicos e achei muito relapso, o que reforçou minha dúvida.

Por isso, eu queria ouvir das mães que me leem neste blog como foi a opção delas e se acharam que valeu a pena. Pagaram pelo parto para que ele fosse feito pelo médico do pré-natal ou preferiram fazer o parto com um plantonista? Quais foram os prós e contras dessas decisões?

Depois que eu receber a ajuda de vocês, que vai ser muito útil para que eu possa me decidir, vou também compartilhar essas experiências em um novo post, na esperança de ajudar outras grávidas que estejam na mesma sinuca que eu 🙂

Por isso, agradeço desde já se você topar dividir sua experiência comigo! 😀

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A jangada em nossas camas

Para pegar na locadora: MINHA VIDA SEM MIM (My Life Without Me)

Nota 9 – crítica escrita em 24/07/2004

“Não existem pessoas normais”. Realmente, é difícil conceituar o normal. Cada pessoa reage diferentemente a algum acontecimento da vida, e é isso que nos torna tão humanos. Talvez a normalidade exista não nas pessoas, mas na própria vida que está aí para ser vivida por todos nós.

Minha vida sem mim mostra que o normal é viver a vida. Que ficar parada sentindo as gotas de chuva molhando a pele através da blusa é normal. Que apaixonar por alguém que baba enquanto dorme numa lavanderia é normal. Que não ter coragem de olhar nos olhos de alguém e dizer que ele tem dois meses de vida é normal.

A única coisa que não é normal é viver uma vida sem sonhos.

Ann (Sarah Polley) é uma mulher de 23 anos que descobre estar prestes a morrer de câncer. E, mais que isso, descobre que pode ser possível viver uma vida sem perspectiva de sonhos para si própria, desde que ela seja capaz de realizar os sonhos daqueles que são importantes para ela. É assim que ela faz uma lista das dez coisas que precisa fazer antes de morrer (fazer alguém se apaixonar por ela, beber e fumar à vontade, arranjar outra mulher para seu marido e colocar unhas postiças estão entre essas coisas). E aos poucos, mesmo sem querer, vai realizando uma a uma, transformando sua experiência de vida num estado de Presente pleno, de sonho fundido na normalidade da vida real. Pois ninguém sabe que ela está prestes a morrer – e assim Ann planeja como será sua vida sem sua presença.

Descobrir que o normal é a vida, ou viver sua essência, é como despertar de um sonho pela primeira vez. Polley encarna com perfeição a apatia de Ann pela mediocridade da vida e sua súbita consciência do que é controlar os próprios atos com o objetivo sincero de não abalar esta estrutura normal da vida de todos que a cercam. E assim ela descobre os sofrimentos dos outros por uma perspectiva muito mais completa – o que torna o filme menos dramático e mais triste, friamente triste, inevitavelmente previsível.

Isso tudo só foi possível graças às atuações perfeitas de uma equipe competente em cada particularidade. A “Blondie” Deborah Harry interpretando a amargurada mãe de Ann, Scott Speedman fazendo o marido companheiro e confiante, Mark Ruffalo (do desprezível Voando Alto) numa atuação apaixonada e sensível, Leonor Watling (de Fale com Ela) e a própria Polley, com seus olhos tristonhos e tão conscientes do mundo ao redor. Todos tão humanos!

Nossa vida pode ser medíocre por vinte e três anos e intensa por dois meses. Essa intensidade basta para que ela tenha valido a pena.

Essa é a mensagem que Ann nos passa. Não é difícil ser feliz, nem isso requer uma “normalidade” em nenhum de nós. Basta viver e deixar viver – e lembrar aos outros, sem precisar mesmo de cafonice alguma, o quanto eles são indispensáveis em nossas vidas.

Dizer a quem a gente ama: “God only knows what I´d be without you“…

O caminho para a Felicidade é o erro

Para pegar na locadora: BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS (Eternal Sunshine of the spotless mind)
Nota 9 – crítica escrita em 06/08/2004

Imagine-se na seguinte situação: você tem um namorado e é muito feliz com ele. A relação vai-se desgastando aos poucos e, decepcionados, vocês brigam e se separam. O que você gostaria de fazer logo depois disso? Nove entre dez pessoas diria que excelente seria esquecer completamente o amor frustrado, simplesmente apagá-lo da memória e partir para outro, sem dores ou mágoas na memória.

Brilho Eterno de uma mente sem lembranças traz este assunto – tão batido, de certa forma – de uma maneira absolutamente original, tanto em seu formato, como no desenvolver da história.

Clementine (muito bem interpretada por Kate Winslet) é uma daquelas mulheres impulsivas, que seguem ao pé da letra a filosofia do Carpe Diem. Quer mais é ser feliz e não se incomoda em tomar alguma atitude precipitada se isso for lhe trazer a almejada felicidade. Conhece Joel (Jim Carrey, sempre ótimo ator, e numa escolha acertada). Gosta dele. Investe nele. E pronto.

Mas um dia, como é normal de acontecer em qualquer relacionamento amoroso, os dois se cansam um do outro. E ela, impulsiva e a fim de seguir em frente, toma mais uma atitude drástica: apaga a existência de Joel da memória, com a técnica avançada do doutor Howard (Tom Wilkinson). E é o que Joel decide fazer, depois de se ver solitário e abandonado até mesmo das lembranças da ex-namorada.

A partir desse ponto, Brilho Eterno… explora a história de amor dos dois em vários desenlances, de acordo com a linearidade do pensamento de Joel. E como memória é a coisa mais ilógica e pouco linear que existe, ainda mais se controlada pela aventura sentimental do cérebro pensante, o roteiro dá saltos no tempo, transfigura rostos, faz trocadilhos e repete passagens sem a menor cerimônia.

É através desse formato inusitado que Kaufman (de Adaptação) nos faz refletir sobre a importância das experiências para a formação do nosso caráter e, principalmente, para nosso desenvolvimento e amadurecimento como seres humanos. Disfarçado em historinha de amor, o filme discute a ética da ciência sobre a verdade da experiência, além de explorar a inevitabilidade de um “destino” (não o destino místico, mas a fatalidade de nos apaixonarmos por uma pessoa sempre pelo mesmo motivo e de isso não fugir à nossa percepção, mesmo sem a prova física de uma lembrança).

A mente sem lembranças tem um brilho eterno, tem aquele frescor de novidade sem remorsos e de futuro límpido pela frente. Mas carece de marcas que só a experiência propicia e que são as únicas responsáveis por uma felicidade completa. Afinal, a vida não é o ponto final de uma jornada, mas a jornada em si, e todos os erros e acertos que enfrentamos no meio do caminho. Ser feliz é curtir esses momentos, tendo a certeza do registro nostálgico que fica perene na memória.

Joel e Clementine erraram ao se conhecerem? Pode ser. Mas acertaram ao permanerem no erro.