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Reflexões sobre a curiosidade insaciável das crianças e as respostas cada vez mais rápidas

Foto: Ramin Talebi / Unsplash

 

Outro dia, colocando o Luiz para dormir, ele disparou quatro perguntas de uma tacada só:

– Como surgiram as penas?

– Como que faz o pufe?

– O que é couro?

– O que tem dentro do colchão?

Antes eu achava que era exagero das mães quando falavam que as crianças perguntam coisas difíceis o tempo todo. Mas não é, não. Chegou essa fase iluminada também para o meu Luiz.

E digo iluminada em todos os sentidos. Porque é muito mágico perceber como aquela cacholinha está fervendo por dentro, tentando entender tudo do mundo. E pergunta pra mim, crente que eu saberei saciar todas as curiosidades. Quem me dera! Recorremos juntos aos livros ou ao Google com frequência.

Normalmente a pergunta vem precedida desta introdução: “Mamãe, posso te perguntar uma pergunta?” Acho bonitinho demais, e vou logo me preparando para ouvir as dúvidas mais inesperadas. Podem ir da formação do mundo a alguma minúcia a alguma coisa sobre comportamento humano, e assim por diante.

Isso tudo me faz pensar em como vamos crescendo e perdendo o interesse pelas coisas extraordinárias da vida, né? Claro que muitas das perguntas que tínhamos fervendo em nossas cabeças com quase 6 anos de idade foram sendo respondidas nas aulas de Ciências, nas conversas com nossos pais, nas observações e nas descobertas que nós mesmos fomos fazendo com nossos experiências. Mas muitas também foram sendo simplesmente colocadas de lado, deixadas para lá, em meio à correria da vida. Outras tantas foram saciadas com o Google em três segundos de buscas, e pouco absorvidas: pesquisamos, aprendemos e descartamos, esquecemos quase de imediato aquilo que aprendemos na internet.

Foto: Bermix Studio / Unsplash

Isso me leva a outra reflexão: sobre como, na minha infância, um trabalho escolar levava tempo para ser pesquisado, na Barsa, nos livros, na ida à Biblioteca Pública, nos xerox, nas ilustrações, na régua e lápis. Esse processo era lento, mas também nos fazia fixar melhor aquilo em que estávamos trabalhando. Hoje tudo é rápido, clique-clique, tap-tap-tap, ctrl+c, ctrl+v, enter, tab, imprime ou faz PDF, envia e pronto. Feito e esquecido em poucos minutos.

Claro, posso estar sendo cruel com a tecnologia, posso estar sendo ultrapassada e nostálgica em excesso. Mas, como alguém que lida com a informação todos os dias, inclusive no trabalho, tenho ficado com a impressão de que, ao mesmo tempo em que o acesso à informação aumentou exponencialmente – ou por isso mesmo –, nosso aprendizado do mundo se superficializou demais. A gente sabe um milhão de coisas mais que há 30 anos, mas sabe muito menos sobre todas essas coisas. A gente pergunta, responde de imediato, e esquece em seguida. A gente navega por todos esses bits de informação como quem nada 100 metros de borboleta, chega resfolegando do outro lado da piscina, e não guarda nenhuma gota do percurso veloz.

Mas a curiosidade da criança de 6 anos de hoje é a mesma de 30 anos atrás. Quer sabe como a pena foi criada, o que botam dentro dum colchão pra ele ser confortável e duro ao mesmo tempo. O que mudou foi a forma como respondemos, e o que passamos a absorver nos anos seguintes. E muito ainda vai mudar.

Torço para que, seja qual for o processo criado para responder a essas perguntas no meio-tempo, a gente nunca perca de vista a importância de continuarmos sempre abertos ao aprendizado e ao extraordinário do mundo ao nosso redor.

Foto: Phil Hearing / Unsplash

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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