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2021 teve um lado bom? Breves reflexões graças a um bolo de chocolate

Escrevi o texto abaixo para o dia 31 de dezembro do ano passado, 2020. Mas, depois que terminei de escrever, me senti mal por publicá-lo, porque ele trazia, no fim, uma esperança e um otimismo que eu não estava sentindo de jeito nenhum há um ano atrás, ainda sem vacina no braço, com vários parentes de amigos internados ou morrendo de Covid-19, com meu filho ainda sem aulas e sem qualquer perspectiva de me reunir com os amigos nas festas de fim de ano.

Mas um ano se passou, e dá para ver que muita coisa melhorou nesse período, especialmente graças à imunização. Mesmo com a ômicron nos assombrando e a volta dos casos de Covid-19 pelo mundo e a piora dos indicadores da pandemia na minha cidade, ainda estamos bem longe, mas bem longe mesmo, do pânico que passamos em 2020 e no primeiro semestre deste ano, com escolas fechadas – tudo fechado –, filas nos leitos de UTI, falta de oxigênio nos hospitais, recordes de sepultamentos, onda roxa e o escambau.

Quer dizer, a passagem dos últimos 365 dias só fez reforçar o sentimento que eu quis transpor no texto abaixo, mas que me pareceu precoce naquele momento. Hoje, acho de coração que ele pode ser compartilhado, porque estamos caminhando para um 2022 de mais esperança. Um 2022 com todos vacinados e protegidos – inclusive as crianças –, perto de ficarmos livres deste Bolsonaro e sua trupe de fascistas e, se tudo der certo, vivendo num mundo mais saudável, menos tóxico, menos cheio de ódio, mais consciente… enfim, não custa sonhar, né? Não há data mais propícia para os sonhos que as viradas de ano, afinal.

Por isso, hoje compartilho com vocês este texto abaixo, que foi escrito há um ano. Muita coisa mudou de lá pra cá, pra pior e pra melhor, mas a mensagem permanece válida. Boa leitura!

 


Texto escrito em 31 de dezembro de 2020:

Não, não foi este bolo… Você vai conhecer o verdadeiro bolo de chocolate mais adiante. Foto deste: Phinehas Adams / Unsplash

 

Se todo fim de ano é época de fazer um balanço dos últimos 365 dias, neste 2020 este exercício de reflexão é ainda mais necessário. O ano que será eternamente conhecido como o “ano da pandemia“, que nos obrigou a mudar radicalmente nossas rotinas e e rever muitos dos nossos conceitos, trouxe mais reflexões que qualquer outro ano antes, e possivelmente qualquer outro que virá depois.

Tenho lido muitos textos de pessoas destacando o que viram de positivo em meio à pandemia. Teve gente falando que o positivo foi que o mundo se tornou mais consciente. Será? Que a família ficou mais unida. Que pôde passar mais tempo em casa, com os filhos. Que o consumismo arrefeceu. Que os pequenos empreendedores afloraram. Que as tecnologias foram usadas para construir laços e pontes de afeto. E por aí vai.

Confesso que tive e sigo tendo grande dificuldade em enxergar coisas boas e positivas nesta pandemia. Sigo achando deprimente ficar em casa não por querer, mas por não haver outra opção possível. Sigo sentindo falta da liberdade de ir e vir, de zanzar por aí, passear, “bater perna”, juntar os amigos e parentes, fazer grandes rodas de conversa, com os sorrisos à mostra, abraçar as pessoas, poder tocá-las. Sigo achando triste, por mais necessário que seja, ver as escolas fechadas e as crianças trancadas em casa, sem outras crianças, mais tempo diante de telas. Sigo com aperto no coração por todas as mortes, algumas muito precocemente, e por tantas pessoas doentes, algumas muito gravemente. Sigo achando tenso ficar preocupada o tempo todo, temendo me contaminar ou, pior, levar o vírus para outras pessoas. Duas palavras estiveram presentes no meu ano mais do que outras: trabalho e tensão. Levando a uma terceira: exaustão. Em vários momentos.

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Passei o ano inteiro, desde março, sem fazer reuniões na minha casa, coisa que sempre gostei. Agora em dezembro, decidi fazer um bolinho de parabéns pelos 5 anos do Luiz. Para não gerar aglomeração e reduzir os riscos na pandemia, viriam só duas avós, um avô, dois tios e seus dois filhos. Contando com a gente, portanto, sete adultos e três crianças. Mas adoecemos todos na véspera do bolo e, com medo de ser Covid-19 (depois descobrimos que não era), tivemos que cancelar tudo em cima da hora. Uma frustração muito grande para o aniversariante de 5 anos e para todos nós.

O bolo prestes a desmoronar (e isso já foi depois que consertamos um pouquinho). Foto: CMC

Duas semanas depois, todos já devidamente testados (negativamente), fiz o parabéns. Segundo o Luiz “foi o melhor aniversário da galáxia”. Mas teve uma coisa que marcou a festa: o bolo que eu encomendei chegou todo deformado, parecia prestes a desmoronar a qualquer segundo. Tivemos que inverter a ordem da festa e cantar o parabéns bem no início, para ver se a vela pelo menos parava em pé para as fotos. Depois é que comemos os salgadinhos.

Mas esse bolo “desconstruído” me fez pensar bastante sobre várias coisas e acho que cheguei às danadas das reflexões de fim de ano que não me vinham de jeito nenhum até então.

Lembrei que eu já fui a dezenas de cachoeiras, todas muito lindas e agradáveis, mas foi a história da tromba d’água que quase me matou na Serra do Cipó que eu mais contei para todo mundo.

Segundos depois que saímos da pedra, ela estava inundada por água. Mais alguns minutos, e nem a pedra seria vista.
Segundos depois que saímos da pedra, ela estava inundada por água. Mais alguns minutos, e nem a pedra seria vista.

Lembrei que já trabalhei em seis empresas, das mais variadas e com seus problemas específicos, mas foi aquela em que levei um calote gigantesco e onde trabalhávamos fritando numa sala sem ar condicionado que me proporcionou as histórias mais inacreditáveis e me calejou para exercer cargos de liderança na profissão.

Lembrei que já fiz milhares de quilômetros rodados no meu carro, peguei diversas estradas, e nunca bati meu veículo nem deixei ele ser batido em meus 17 anos de carteira de motorista, mas foi aquela viagem em que o GPS nos deixou rodando em círculos igual idiotas e o caminhoneiro não nos enxergou na chuva e quase passou por cima do meu antigo Clio a que mais nos marcou.

Enfim, muitos foram os bolos perfeitos de aniversário, mas o de 5 anos do Luiz foi o único que parecia uma montanha pré-histórica prestes a desabar sobre placas tectônicas ensandecidas, e ele certamente será lembrado por muitos e muitos outros anos.

Se o seu forte não é interpretação de texto, pode ter chegado até aqui pensando que estou vendo algo positivo em todas as quase 200 mil mortes no Brasil, e mais de 1,6 milhão de óbitos causados pela Covid-19 em todo o planeta [Comentário em 2021: hoje já estamos com 619 mil mortes no Brasil e 5,41 milhões no planeta]. Mas eu te garanto: não é disso o que estou falando aqui.

2020 terá um impacto absurdo sobre nossa memória, individual e coletiva. Foto: Fredy Jacob / Unsplash

O que quero dizer é que, por trás de tudo o que é trágico, triste, desastroso, perigoso, perverso ou letal pelo que passamos na vida, há marcas profundas que são deixadas em nossa memória, em nosso caráter e em nossa história depois. Algumas dessas dificuldades serão lembradas com alívio, outras viram piada, outras ainda nos trazem sentimentos ruins ou dão um frio na barriga pelo susto vivido. Mas todas, todas são lembradas. Já o perfeito, o certinho, o correto, o esperado, o previsível e muitas vezes o confortável, alegre e corriqueiro quase sempre é apagado.

Isso se chama superação. E superar é viver. Ou seria o contrário? Viver é, entre outras coisas, superar alguns percalços e frustrações pelos quais ninguém queria ter que passar, mas passa o tempo todo. O Luiz queria ter tido o parabéns dele em 29 de novembro, e foi só depois de muita frustração, ansiedade, dúvida e tensão que ele teve a “melhor festa da galáxia”, muitos dias depois.

A gente se frustra, como o Luiz naquele dia, para depois sentir aquela coisa que todo mundo tenta definir de um jeito simples e fácil, mas que é difícil pra danar de pôr em palavras: a tal da felicidade. O negócio é como superamos a dificuldade. Como passamos por ela até chegar ao alívio posterior. Com tranquilidade? Ou desespero? Com resignação? Ou depressão?

Eu certamente mesclei muita depressão e desespero nesses nove meses de pandemia até aqui, mas tentando intercalar com a resignação, o trabalho (para tentar levar informação, tão essencial, às pessoas), o esforço de entreter e ensinar ao Luiz nesses meses sem aulas, e alguns raros momentos de paz de espírito.

Não foi fácil. Ou não está sendo fácil, já que a pandemia não acabou e nem tem data pra acabar. Mas, se chegamos até aqui, se estou escrevendo este texto e você o está lendo, já podemos nos considerar realmente aliviados: sobrevivemos!

O que vamos contar das nossas experiências de 2020 no futuro? Foto: Harli Marten / Unsplash

Somos sobreviventes de 2020, o ano da pandemia, com uma dificuldade nunca antes vivida por nenhum de nós, nem pela Ciência. E quero crer que, em 2021, as pessoas começarão a ser vacinadas. E, quem sabe, daqui a uns dois anos, grande parte do planeta já tenha sido imunizado e a vida possa voltar a algo próximo do que amávamos viver antes. E aí, meus caros, depois disso é que virá a melhor parte: já estaremos devidamente marcados para sempre por esta experiência que vivemos, e vamos compartilhá-la com nossos filhos, netos e bisnetos dando a devida importância para o exercício de superação que ela significou. Sairemos mais fortes, mais vividos, mais evoluídos disso tudo, pelo simples fato de termos passado por isso. Como aquela tromba d’água de anos atrás (mas muito pior e universal).

Por falar em universal, até a arte vai mudar, porque o drama humano é um dos principais combustíveis pra arte. Se as duas guerras mundiais, com todo o sofrimento que infligiram a milhares de pessoas, já renderam alguns dos maiores e mais importantes livros e filmes que conhecemos hoje, o que virá desta grande pandemia, que inflige sofrimento e dúvida a sete bilhões de humanos?

Será que um dia ainda vamos rir de algo vivido em 2020? Foto: Priscilla Du Preez / Unsplash

Daqui a alguns anos, se tivermos sorte (use máscara, evite aglomerações e lave bem as mãozinhas para chegar até lá, viu?), nós seremos esses sobreviventes e teremos essa experiência insubstituível para moldar nossa vida daqui por diante. “Na época da pandemia, a gente tinha que fazer isso…”. “Quando houve aquela pandemia e ainda não existia essa vacina que hoje é acessível a todos,  passamos por aquilo outro”. O tom da história que contaremos – se será de alívio, de dor, de piada ou de sabedoria, caberá a cada um de nós e às histórias que escrevemos e ainda estamos escrevendo.

Quando recebi o bolo de aniversário do Luiz, depois de todas as complicações que já tinham acontecido até a festinha finalmente poder ser feita, minha primeira reação foi chorar. Mas pouco depois ele já virou piada. A pandemia, com todas as mortes que causou, e toda a dor que gerou no mundo, nunca poderá ser uma piada para mim (tem gente que vê como piada mesmo, fazer o quê?). Mas ainda haverá espaço para as microexperiências ao longo deste 2020 (aquele dia em que a colega fez bola de chiclete antes de lembrar de tirar a máscara), que tornaram tudo mais suportável e leve. E essas histórias, todas elas – as péssimas e também a do bolo de chocolate – serão devidamente lembradas no futuro e para todo o sempre.

Agora, pra encerrar o texto, vamos ao que interessa: para 2021, eu só desejo, de coração, uma única coisa: vacina eficaz contra o coronavírus para todos! Um brinde a isso! 😉

 

Que venha a vacina para todos! Foto: CDC

 

 

P.S., de volta a 2021: o brinde do ano passado surtiu efeito! A vacina chegou para muitos de nós! Mas sigo brindando a uma vacina para TODOS, todos mesmo, em 2022. Crianças, negacionistas, países pobres que não tiveram ainda acesso à imunização. Que todo o planeta possa ser agraciado com esta medida tão eficaz que a ciência (e a lógica, que vimos palpável no último ano) provou surtir efeito contra as doenças mais graves que já atingiram a humanidade: sarampo, caxumba, hepatite, poliomelite, tuberculose, rubéola, difteria, tétano, febre amarela, influenza… e agora a Covid-19. Tim-tim!

 

 


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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