Com gabinete de homens brancos, Temer lança o Brasil nos braços dos EUA

Charge do Bennet publicada pela "Folha de S.Paulo" em 13.5.2016

Charge do Bennet publicada pela “Folha de S.Paulo” em 13.5.2016

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

O novo ministério nomeado por Temer, com 23 homens, todos brancos, é um retorno à era de Ernesto Geisel (1974-1979), o último governante do país — um ditador — a escolher apenas ministros homens. Depois dele, até Figueiredo nomeou uma ministra, Esther de Figueiredo Ferraz, que ocupou a pasta da Educação.

Eu diria que a maior novidade na opção machista de gênero feita por Michel Temer é que ela ocorre quando, pela segunda vez, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil é uma mulher, Liliana Ayalde, e outra, Hillary Clinton, pode vir a ser no ano que vem a presidente norte-americana. Hillary era secretária de Estado e veio à posse de Dilma Rousseff, em janeiro de 2010.

No entanto, o desprestígio das mulheres no Gabinete Temer não deverá ofuscar seu prestígio junto à Casa Branca. No mesmo dia em que o Senado afastou a primeira mulher na presidência da República, Dilma Rousseff, o presidente norte-americano, Barack Obama – o primeiro negro a assumir o cargo na história dos Estados Unidos – declarou que o processo de impeachment foi legal.

Obama foi tão ágil em reconhecer o belo trabalho feito por sua embaixadora no Brasil quanto o presidente Lyndon B. Johnson, em 1964, ao declarar a legitimidade do governo nascido do golpe militar que teve ajuda inestimável do então embaixador Lincoln Gordon.

É verdade que Ayalde, que antes havia preparado um golpe semelhante no Paraguai, ensinando como é possível afastar governos indesejáveis aos Estados Unidos sem recorrer às armas, agiu bem mais discretamente que Gordon (que havia solicitado a presença da 4ª Frota na costa brasileira para agir em caso de necessidade, antes de 31 de março de 1964, e era presença constante na imprensa, na época), mas tão ou mais eficiente que o embaixador.

Antes dela, a primeira embaixadora americana, Danna Hrinak, que ocupou o cargo em Brasília nos primeiros quatro anos deste século e hoje é presidente da Boeing no Brasil, também exerceu papel discreto, mas eficiente, durante a transição do governo de Fernando Henrique Cardoso para Lula.

Essas mulheres são excelentes diplomatas e leais ao seu país – o que não se pode dizer, infelizmente, de muitos brasileiros em altos postos. Por exemplo, Michel Temer e seu ministro das Relações Exteriores, José Serra. Ambos, atentos à Petrobras e ao pré-sal, para grande tranquilidade das grandes petroleiras norte-americanas.

MICHEL TEMER, INFORMANTE DOS EUA

A colaboração de Michel Temer com os Estados Unidos começou não sei quando. Mas, na última sexta-feira, soube – AQUI e, na íntegra, em inglês, AQUI – que o novo presidente (interino) brasileiro foi informante da embaixada dos Estados Unidos, conforme correspondência vazada pelo Wikileaks, em pelo menos duas ocasiões: janeiro e junho de 2006.

Na ocasião, ele era presidente nacional do PMDB, que desde janeiro de 2004 tinha um pé no governo Lula. Naquele distante janeiro, José Sarney emplacou um correligionário, Silas Rondeau, como presidente da Eletrobrás. Em julho de 2005, com a saída de José Dirceu da Casa Civil, por causa do Mensalão, Lula nomeou Dilma Rousseff para o lugar de Dirceu, e Rondeau, ainda por indicação de Sarney – a figura mais poderosa do PMDB na ocasião – foi promovido a ministro das Minas e Energia, no lugar de Dilma. E ali ficou até ser demitido por Lula após revelação de tráfico de influência e participação em esquema de fraudes em licitações, descobertos pela Operação Navalha da Polícia Federal.

Em 2006, Lula iria concorrer à reeleição. O principal adversário era Geraldo Alckmin, do PSDB. O primeiro telegrama da embaixada vazado pelo Wikileaks, de janeiro de 2006, diz o seguinte, em tradução livre:

“Michel Temer, Presidente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), acredita que o Presidente Lula fez um trabalho de mestre para dissociar-se dos escândalos de corrupção política que esmagaram alguns de seus principais assessores. Ele também expandiu efetivamente programas sociais para ganhar a lealdade e o apoio das classes sociais inferiores. Ao mesmo tempo, o oponente de Lula, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, sofre de uma ausência de carisma e não conseguiu deixar uma marca visível nos cinco anos à frente do mais importante estado do Brasil. Não obstante, Temer recusa-se a prever o que acontecerá nessa corrida, exceto dizer que haverá segundo turno, no qual “tudo pode acontecer”. Ele confirmou que seu próprio partido não apresentará candidato a presidente e não se aliará nem com o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula, nem com o oposicionista Partido Social Democrático Brasileiro (PSDB), pelo menos, não antes do segundo turno. Porém, o PMDB vencerá as corridas em no mínimo dez e possivelmente até em 15 estados, e de novo terá o maior bloco tanto no Senado como na Câmara dos Deputados, portanto, “qualquer que vença a eleição presidencial terá que vir a nós para conseguir fazer qualquer coisa”.

Na realidade, o PMDB não lançou candidato e nem apoiou formalmente qualquer candidato no segundo turno, apesar dos esforços de Lula para cooptar o partido de Temer. Mas obteve apoio informal de setores do PMDB. Que só elegeu sete governadores, e não os mais de 10 previstos pelo informante da embaixada norte-americana.

Erros à parte, ninguém duvide que os Estados Unidos participaram da derrubada de Dilma Rousseff. Sua expertise vem de longa data, como se lê num artigo de Elio Gaspari, de julho de 2008: “Um levantamento do professor John Coatsworth, da Universidade Columbia, ensina que, entre 1898 e 1994, os Estados Unidos ajudaram a derrubar 41 governos latino-americanos. Um a cada 28 meses. As intervenções militares diretas foram 17 e nessa conta não entraram a fracassada invasão de Cuba, de 1961, e a deposição do presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, em 1984.”

O colunista da “Folha de S. Paulo” destaca, no mesmo artigo: “O poderio naval americano já se meteu quatro vezes na vida brasileira, em 1864, 1893, 1941 e 1964”.

Quanto à participação de Temer no golpe, muito já se escreveu, e não vou insistir no assunto. Mas não posso ignorar essa discretíssima notícia publicada pelo Portal do Planalto em 11 de junho de 2013, com uma modificação (por que será?) em 4 de julho de 2014:

“Vice-presidente Michel Temer recebe visita do Senador John Mccain (Arizona/EUA), Senador John Barrasso (Wyoming/EUA) e Embaixador Thomas A Shannon Jr.”

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Foto: Aluízio Gomes – Ascom/VPR

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2 comentários sobre “Com gabinete de homens brancos, Temer lança o Brasil nos braços dos EUA

  1. Jorge Pontual, correspondente da Globo News nos Estados Unidos, foi meu contemporâneo no Jornal do Brasil e não esqueceu as lições de bom jornalismo que tivemos trabalhando lá. Como demonstra nesse comentário sobre a repercussão internacional do golpe:

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  2. O professor de história Ricardo Faria publica no seu blog (http://segundoblogdoricardo.blogspot.com.br/2016/05/golpe-diplomacia-cifrada-de-washington.html) um artigo de Mark Weisbrot comentando o encontro do senador tucano Aloysio Nunes com o terceiro mais importante dirigente do Departamento de Estado norte-americano, Thomas Shannon, que era embaixador no Brasil em 2012 por ocasião do golpe do Paraguai, precursor do que se vê hoje por aqui. Shannon é o responsável pela América Latina no Departamento de Estado e deve ter transmitido a Aloysio valiosas instruções para o definitivo afastamento de Dilma Rousseff. A conversa dos dois se deu um dia depois de o Senado ter aceito o processo iniciado na Câmara dos Deputados pelo digno presidente …(olha, que beleza, fugiu-me agora seu nome!)

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