
Sentir é pensar com os poros, prazer muito maior que o de meros neurônios
Chuva, sol, vento, a natureza se expande em maneiras diversas. O melhor que há é fechar os olhos e abrir os poros, sentir cada manifestação da natureza como se fosse deus ocupando nossa alma por inteiro.
Deitar na grama fresca só para destacar o calor do Sol. Respirar o ar tangível que impregna as narinas com calor nauseante. Sentir a roupa ir colando aos pouquinhos na pele. Como se fosse um couro protetor, onde se marca a ferro quente. Os cabelos molhados, a testa pingando, derretendo, aquele calor de tostar a ponta das orelhas e arder o sentido dos olhos.
Andar na rua escura sem enxergar nada além do vulto. O quarteirão às lamas, o barulho dos trovões. A chuva forte tilintando seus sinos invisíveis, as árvores farfalhando num carnaval de seiva. Abrir as narinas e respirar a terra, mais gostosa que a fumaça encardida da poluição. Terra e água, compondo perfume primaveril. Abrir os braços, em vez de guarda-chuvas, jogar ambos ao alto e vê-los dançando para a pneumonia. Um tombo feliz, um banho de lama, lavado pelo chuveiro ao alto. Lavagem de alma, de estado de espírito, de poeira, calor, trabalho, dor, mágoas. Lavar aquele semblante seco e enxurrá-lo para bem longe. Acidez natural da chuva acaba de corroer pensamentos maus e deixa só a estátua fina e imutável da criança – esqueleto indirimível -, feliz por se ver livre para sentir a chuva em toda sua plenitude.
O melhor é o vento. Andar pela rua – não de ouro, mas de fotografia – com os braços completamente abertos, cabeça levemente inclinada para o céu, olhos fechados – um quase êxtase religioso para atingir o deus natureza. É impossível não sorrir. A brisa levanta o cabelo, balança o tecido leve, refresca como um cubo de gelo derretendo-se na língua. Levanta o balão de hélio e a pipa que ficava presa no poste da Praça Nova Iorque. Parece que levanta também os pés, levita o menos esbelto, aquele deprimido pelo regime de doces. O vento dissipa o sangue das veias, oxigena o corpo por inteiro, ativa o cérebro enferrujado e entope o coração do gás menos denso da natureza. É entorpecente, alucinante, lisérgico: mas droga não tóxica.
Quem sabe senti-lo, aproveita todo instante de dádiva, na esquina da padaria, na rua dos sonhos ou no alto de uma montanha. Não precisa pensar em nada, nem no que os pesados pensam, ao ver as aves com suas asas abertas prontas para dar seu vôo. Vento na janela do carro veloz não dá espaço, mas a sensação é a mesma. O ideal é alçar vôo no dia mais vulgar dos dias, pegar impulso no alto de um morro, esquecer-se até das trivialidades e afogar em pleno céu, protegido apenas pelo deus Liberdade!
(20.10.2002)





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