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Primeiras memórias – parte 1 (filosófica, depressiva, angustiante e instigadora)

A última edição do caderno Equilíbrio, da Folha, abordou um assunto que sempre me intrigou: onde vão parar nossas memórias de quando temos cinco anos pra baixo? Por que não podemos simplesmente registrá-las, como fazemos em qualquer época da vida?

Todos os pesquisadores, embora tenham explicações diferentes para o fenômeno, são unânimes ao concordar que ele existe e tem nome: amnésia infantil.

Um dos entrevistados da matéria disse um negócio que me deixou em depressão: “Pode-se dizer que perdemos parte da nossa infância.”

E é verdade, né? É como se tivessem nos tirado quatro anos de vida, do nada, pelo simples fato de que, como diz o “rótulo” do meu blog, lá no alto (já repararam nele?), a gente só existe enquanto se lembra disso. Esqueceu, morreu (pra quem é desmemoriada como eu, a agenda e o blog e os emails semanais para os amigos estão aí justamente para me lembrar constantemente de que estou viva).

O que me deu mais depressão foi pensar, logo em seguida, que minha sobrinha-afilhada, que hoje tem pouco menos de três anos, logo logo terá se esquecido de absolutamente TUDO o que já viveu até aqui. COMO ASSIM?! É como se ela fosse, agora, um fantasminha, para nossa curtição e usufruto, que jamais será capaz de se lembrar das consquinhas que a sufocaram de risadas no último natal, da visita ao zoológico que fizemos há uns meses ou do primeiro show que ela viu do pai.

Tudo bem, sempre haverá as fotos e vídeos para lembrá-la de tudo, além dos relatos dos mais velhos — que eram a única opção até há bem poucas gerações atrás. Mas, e a vida? E o desfrute da memória? E o prazer de reviver algo através da lembrança?

Outro trecho da matéria me arrepiou os pelinhos da nuca: “Depois de recordar algumas vezes acontecimentos distantes, é quase impossível separar a verdade do mito. (…)
É a mentira que não é mentira. Para a psicanálise, não importa. ‘Tudo é interpretação. Toda memória é uma leitura sem contato direto com a realidade'”.

Sim, é aquela velha história de que a realidade, pura e simples, não existe, não nos é acessível além da interpretação, do mito, da memória. É o que tentamos aprender nas aulas de semiótica da faculdade. Mas é uma filosofia distante que, se sempre nos ocorresse, nos deixaria loucos. Vivemos na mentira de memórias disformes e, pior de tudo, com vários dos nossos anos de vida simplesmente roubados de nós pela competição do excesso de informações incomportável em nosso cérebro.

Dito tudo isso, só posso concluir com uma coisa: Laurinha, desfrute bem do seu presente enquanto ele ainda lhe existe!

E a todos nós: só temos esta vida e ela vai nos escorrendo a cada minuto que passa, inclusive em nossa capacidade de perceber o quanto já vivemos. Portanto, desfrutemos bem do nosso presente, antes que ele nunca mais seja lembrado de novo, e se perca, para sempre, nos buracos negros da nossa alma!

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

12 comentários em “Primeiras memórias – parte 1 (filosófica, depressiva, angustiante e instigadora) Deixe um comentário

  1. pense que seus pais sempre saberão um pouquinho a mais sobre vc do que vc mesma 😉

    acho que é por isso que eles querem tanto serem avós!

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  2. É verdade, e o pior é que não é só da infância que ando me esquecendo. O tempo tem passado tão rápido, que eu levo duas horas pra chegar ao meu trabalho, mas quando estou nele não me lembro direito como fui parar ali, e a semana passa tão rápido que não me lembro de uma conversa que tive com alguém, ou de rostos que vi, ou de momentos que vivi…
    Mas existem coisas da infância que marcam, e nunca serão esquecidas, uma coisa que nunca esqueço é que eu brincava de Bon Jovi com meus irmãos, e também não esqueço das graças do meu cachorro…
    Tentar lembrar da vida é como tentar segurar água entre os dedos…

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  3. Cris, acho que memória é sempre uma recriação da mente. Cada um vai construindo a sua, independentemente da realidade e do que os outros contam sobre a gente. Pais, irmãos e tios têm muito a contar (ou tiveram, enquanto viveram e não perderam a memória que eles mesmos recriaram da gente) sobre nossos primeiros anos de vida. Graças a eles, durante muito tempo imaginei que me lembrava do que acontecera comigo no primeiro ou segundo ano de vida. Só caí na realidade quando tentei escrever um livro sobre as sucursais mineiras dos grandes jornais. Quando conferi minha memória de um fato com as narrativas escritas na época em que o fato se deu. Percebi então que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

    Mas, em relação ao que você escreveu, essa perda de memória dos primeiros quatro anos da nossa vida é muito interessante. Parece ser uma autodefesa, pois nada na vida, a partir dali, será tão bom, e se conservássemos aquela memória, viveríamos numa eterna frustração, não é mesmo? Felizmente, isso não ocorre conosco, eternos otimistas…

    Nesse embate entre a memória recriada e a realidade, é muito interessante o que ocorreu com um colega nosso. Sobre isso, escreveu Carlos Brickmann no Observatório da Imprensa (http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/e-ou-nao-e). Cito um trecho:

    “Pois não é que um dos sequestradores do casal de estudantes uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz teve a ousadia de processar o autor da reportagem (e, posteriormente, do livro) que narrou o caso? João Augusto da Rosa, codinome Irno, ficou irritadíssimo com o jornalista gaúcho Luiz Cláudio Cunha, que atrapalhou seu trabalho macabro de enviar de presente aos ditadores uruguaios os jovens que os combatiam. Na reportagem, Cunha revelou uma série de nomes, contou a história do sequestro e deu as bases para a revelação de que as ditaduras sul-americanas cooperavam extra-oficialmente (e ilegalmente) na Operação Condor, para prender e matar os adversários políticos que haviam se refugiado em outros países.

    Mas, como dizia o mestre Frederico Branco, tem coisa que pode, tem coisa que não pode. A ousadia de Irno não pode: o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul sepultou sua tese de que quem revela um crime deve ser processado. Volte para suas memórias de agente da ditadura, Irno. Não devem ser boas, mas é do que você pode lembrar.”

    Pois é, Cris. Tem algumas memórias piores que outras.

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  4. Essa garotada de hoje não terá problemas de memória, pois tudo ficará armazenado em um Ipad… 😛

    Muito interessantes essas considerações sobre a amnésia infantil. Eu consigo lembrar de poucas coisas antes dos 5 anos de idade. E é curioso que eu consiga me lembrar do nome de 90% dos meus professores desde a 1.a série até o antigo colegial. E de muitos fatos a partir da idade dos 6, 7 anos. Memória seletiva? Não sei. Segundo Piaget, o período que vai de 2 a 7 anos ( se não me engano) é o pré-operatório, ou seja, um período em que a criança começa a desenvolver representações simbólicas e assimilam apenas aqueles aspectos que chamam a sua atenção em determinado momento, passando para outros rapidamente. Para a criança as ações não podem ser mudadas (reversas) e isso só começa a ficar claro para ela a partir dos 7 anos. Provavelmente a memória tenha a ver com essa questão da reversabilidade, quando o pensamento ainda não adquiriu toda a mobilidade que desenvolvemos depois.

    Mas os aromas da infância, desde a mais tenra idade, ah, desses não esquecemos tão fácil…! 🙂

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    • Uma das teorias apresentadas na matéria é de que a memória começa a ser gravada de forma mais consistente exatamente a partir do momento em que a criança é alfabetizada. Não seria coincidência, portanto, que a nossa memória fique mais nítida a partir dos 5 ou 6 anos de idade. A alfabetização torna a fixação da memória mais forte. Mas não sei até que ponto isso faz sentido sozinho, já que há analfabetos adultos e, ao que me consta, eles se lembram das coisas como o resto dos adultos.

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  5. Minha cara Cristina,

    Lembro-me de muitos fatos anteriores aos 4 anos. Por exemplo lembro-me quando meu irmão tinha 6 meses e ele é mais novo do que eu só 1 ano e 4 meses. Lembro-me de vários outros fatos inclusive do nascimento da minha irmã que é 3 anos e meio mais nova do que eu. Tenho atualmente 63 anos e as lembranças continuam vívidas.

    Um abraço

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    • Que bom isso! Espero chegar aos 63 com belas lembranças da infância também. Dizem que elas vão se tornando mais vívidas à medida que envelhecemos. Desde que postei este texto, no sábado, já consegui me lembrar de sete coisas novas! 😀
      abraços

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