O show

Texto de José de Souza Castro:

O teatro estava quase lotado. Era grande. Parecia um cinema de antigamente. Eu estava sentado quase no meio da platéia. Na frente da minha fileira havia uma passagem. Duas fileiras mais adiante, um homem se levantou. Estatura mediana, uns trinta anos de idade. Tinha um microfone sem fio na mão.

Achei que ia começar a cantar.

Mas outro homem de barba preta levantou-se, duas fileiras à frente, e começou a fazer barulho com um enorme bumbo. O homem do microfone ficou irritado. Logo se impacientou. Pisando sem se desculpar nos pés dos espectadores, saiu da fileira de cadeiras e se dirigiu ao homem da barba preta, quase correndo. Diante do importuno, ameaçou-o com socos, como se fosse boxeador.

O homem parou de tocar e se sentou. O outro se apressou para voltar à sua poltrona. Enquanto caminhava, vi que pelas costas não passava de um gordinho de braços finos. E um tanto confuso. Em vez de entrar na sua fileira, entrou uma antes. Quando percebeu o engano, pulou com agilidade imprevista sobre o ombro de duas pessoas.

Ele vai cantar agora, pensei, quando o gordinho finalmente chegou ao seu lugar e não se sentou. Porém, os dois que estavam de cada lado do homem do microfone se levantaram. E os cinco, em fila indiana, saíram pela direita, atropelando os que continuavam sentados, deram a volta por trás e voltaram ao mesmo lugar, pelo outro lado, desajeitadamente. Enquanto caminhavam, faziam ruídos que pareciam o coaxar de sapos. Quando se sentaram, começou um novo barulho, ali perto, mais à direita.

Era um homem batendo ritmadamente na barriga de uma imensa imitação de sapo, como se fosse um tambor. E então foram surgindo enormes sapos, do tamanho de um homem, e correram ameaçadores para aquele que, sem piedade, tirava uma espécie de música da barriga do sapo. Fez-se silêncio, até que se ouvisse um grito: “Filho da puta!”

Voltei-me em busca da fonte do grito: era um homem grandalhão, sentado três fileiras atrás da minha. O xingamento pareceu ter ofendido um dos homens sentados ao lado daquele do microfone. Ele se levantou e, pulando as fileiras, se acercou do grandalhão. E sentou-se tranquilamente, na cadeira ao lado.

Agora as risadas se tornaram mais altas. Sem dúvida, tudo aquilo fazia parte do show.

E o show ia começar de verdade. O homem do microfone se dirigiu apressado para o palco, seguido pelos que estavam ao seu lado. Havia lá um piano, quase encostado à parede. Ele foi se sentar na banqueta, mas ela caiu e ele desabou no chão. Tentou de novo. Mais um tombo sonoro. E risadas da platéia. Encostou-se então na parede, puxou a banqueta e sentou finalmente, com os pés apoiados no piano. E começou a produzir música com os pés calçados. Uma música maravilhosa!

Vi então que a música não saía apenas por obra dos pés do homem do microfone. De cada lado, havia dois outros pianistas que completavam os acordes, com as mãos ágeis. O som foi aumentando, aumentando, e se transformou numa insistente buzina. Tocada na rua por um mal-educado, às três da madrugada, cinco andares abaixo.

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