Com Dilma falando, sigilo pra quê?

Texto de José de Souza Castro:

“Tanta coisa acontecendo… Você não vai escrever sobre a Dilma?” Escuto o grilo falante, a voz da consciência. É preciso sair dessa letargia, desse estado de catatonia cívica, dessa descrença de tudo o que cheire a política. Romper o ceticismo. A incompreensão.

Preciso entender essa questão do sigilo nas obras da Copa do Mundo, por exemplo. Por que não recorrer à fonte limpa, se a própria presidenta se animou a dar uma entrevista coletiva, em Ribeirão Preto, para esclarecer tudo? Nem preciso escutar a gravação e correr o risco de recair no estado catatônico. Na Internet, há uma transcrição fiel (bota fiel nisso!) da entrevista. Debruço-me sobre o texto:

“Trata-se do seguinte. É inclusive integrante das melhores práticas do OCDE e da União Europeia. Pra evitar que a pessoa que está, o licitante, né, quem está fazendo a oferta, utilize a prática de elevação dos preços e de formação de cartel, qual é a técnica que se usa? Você não mostra pra ele qual o seu orçamento. Mas o, quem te fiscaliza sabe direitinho qual é o valor. Aí cê faz a licitação. Aí quiqui acontece? Ele não vai saber qual é o preço que cê acha que pode pagar. Isso significa que ele vai dar um preço menor. E se der fora de orçamento, o órgão de controle sabe que deu fora do orçamento. E além disso ocê explicita o orçamento na sequência. Eu lamento a má interpretação que se deram a esse ponto.”

[E eu que achava que o presidente Lula é que falava mal o português!] Mas Dilma Rousseff, o fruto bendito de uma brasileira com um búlgaro, uma simbiose linguística ímpar de mineirês com o gauchês, não desanima diante da cara de bobo dos repórteres. Ela é didática:

“Em momento algum se esconde o valor do órgão de controle, tanto interno quanto externo”, garante a presidenta. “Segundo: quem não sabe o valor é quem está dando o lance. Puqui que ele não sabe? Porque se ele souber que eu dou, vamos supor, vamos fazer uma hipótese, vamos supor que ele ache que é cem, um número cem, vamos supor que no orçamento do governo teja, esteja, 120. A hora que ele vê que é 120 o valor mínimo, ele vai pra 120. Este foi um recurso que nós usamos pra diminuir os preços das obras da Copa. Não há da parte do governo nenhum interesse em ocultá. Pelo contrário, de quem que não se oculta? Não se oculta da sociedade, depois que ocorreu o lance, e não se oculta, antes do lance, dos órgãos de controle.”

Ah, bom… Vamos ver se entendi: nas licitações do governo brasileiro, o preço ficou 20 reais maior, a cada 100 reais pagos, e a partir de agora ficará em 100, não mais em 120? Se o governo soubesse disso há mais tempo, a dívida pública interna não teria ultrapassado os R$ 1,6 trilhão… Ou não é nada disso, o problema são os juros altíssimos sobre a dívida astronômica? Como saber? É esse tipo de incompreensão dos pagadores de impostos que parece indignar nossa presidenta, que acrescenta na célebre entrevista:

“Eu sinto muito essa, essa má interpretação daquele artigo. E acredito que nada, é, que pode ser corrigido, porque as pessoas conversando elas esclarecem e cada uma vai explicar do que que entendeu, aonde que tá o problema, aonde que tá, porque também tem limite, não é possível chamar o governo de que está garantindo roubalheira ou qualquer coisa assim. Isso foi negociado com o TCU”.

Desisto. Não sei qual o pior, o sigilo ou o discurso da Dilma. Suponho que o Brasil vai agüentar a roubalheira: a dívida é ainda inferior ao PIB anual. Sediar a Copa do Mundo compensa o sacrifício (sonhei isso, ou ouvi na Globo?).

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