Pelo direito de não levantar bandeira nenhuma

bandeira

Acho muito legal que as pessoas tenham bandeiras para levantar. Ou seja, uma causa em que acreditam e que defendem com unhas e dentes. Pode ser a luta contra o racismo, o casamento gay, a criminalização da homofobia, a legalização da maconha, os direitos dos animais, o feminismo, a liberação do aborto, a redução do número de cesarianas, os direitos dos guaranis-caiovás etc. Pode ser professores de melhor qualidade na escola do filho, a criação de um novo parque na cidade, o cumprimento de uma norma específica na universidade, o direito de usar biquíni na praça do bairro. Pode ser a redução da maioridade penal, o direito ao porte de arma e outras coisas assim. Pode ser o direito de os artistas de rua atuarem livremente, o direito de os jornalistas expressarem suas opiniões sem censura, a obrigatoriedade de diploma para exercer algumas profissões, o direito de os garçons receberem os 10% da gorjeta ou de os taxistas não terem a competição dos motoristas de Uber.

As pessoas devem poder ter suas convicções pessoais e argumentar para que elas sejam cumpridas, respeitadas, implementadas ou amplificadas. O ideal é que façam isso de maneira respeitosa, por meio de debates, audiências públicas, artigos, abaixo-assinados, petições ou projetos de lei. E, claro, por meio de protestos, manifestações, passeatas e afins. Com muitas bandeiras — de cores, símbolos e tamanhos diversos — empunhadas pelo grupo em questão.

duke2006

Existem causas mais consolidadas, que a maioria já entende como imprescindíveis, que são quase consensuais. As grandes causas dos direitos humanos caminham para esse rumo, lenta mas inexoravelmente. Outras causas são mais regionais, locais, específicas. Há ainda aquelas bandeiras que interessam principalmente a uma classe profissional, por exemplo. E há as bandeiras dos partidos políticos e das religiões (duas que nunca empunhei). Nem sempre a bandeira do vizinho vai coincidir com a sua.

Concordo com algumas, entendo outras, tolero outras, discordo de um tanto e já balancei umas poucas bandeiras. Aliás, já troquei de bandeiras ao longo da vida também. Em algum momento, defendi com mais afinco uma ideia, que hoje pode nem ser tão importante assim para mim. Em alguns casos, empunho de forma cautelosa minha bandeira, com medo de estar usurpando uma causa que é de outra pessoa. Por exemplo, apesar de ser descendente de negros e ter vários traços dos negros — sou morena, de cabelos cacheados etc –, não me considero negra e sei que não é como a população em geral me vê. Então, embora eu defenda veementemente a criminalização do racismo e o respeito às pessoas de todas as cores e etnias, eu tomo cuidado para não parecer que entendo completamente o que é ser vítima de preconceito racial — porque só posso imaginar a humilhação e sofrimento que esse comportamento pode causar à vítima. O mesmo em relação aos homossexuais: apoio a causa deles, apoio a criminalização da homofobia e os direitos civis iguais, mas não fico empunhando a bandeira como se eu pudesse imaginar o que eles passam, todos os dias, como vítimas de preconceito generalizado.

Por outro lado, é bem mais fácil eu me identificar, por exemplo, com a causa feminista. Sei que as mulheres sofrem determinados tipos de preconceito, mais ou menos graves, porque já os vivi (e relatei algumas vezes aqui no blog). No entanto, também é uma bandeira que empunho com cautela, porque gostaria que o mundo banisse os sexismos, todos eles, em vez de apenas trocar o machismo pelo feminismo.

Acho que minha bandeira favorita é pelo direito da livre expressão e da livre imprensa. Mas mesmo esta bandeira não é ilimitada: se o discurso propaga o ódio ou incentiva um crime, como defendê-lo? Defendo o direito de uma Raquel Sheherazade da vida (ela ainda existe?) poder emitir suas opiniões na TV, mas verei com preocupação se o argumento dela defender o linchamento de pessoas suspeitas de terem cometido um crime, já que linchamento é crime (muitas vezes mais grave que o cometido pelo suspeito em questão). Mesmo assim, defendo que ela possa dizê-lo. Se, ao expôr sua opinião, ela cometer um crime, terá de pagar por ele também, mas depois. Antes, vira censura. De qualquer forma, é difícil delimitar o que é censura e o que é uma proteção necessária (por exemplo, as imagens de adolescentes que cometeram um delito são preservadas por força do Estatuto da Criança e do Adolescente, e não acho que deixar de mostrá-las seja uma censura).

Enfim, hoje em dia ando tão ponderada que está difícil alguém me ver balançando uma bandeira qualquer — mesmo a do jornalismo, que anda me desanimando a cada dia mais. Eu me posiciono, eu apoio umas ideias e condeno outras, eu raramente fico em cima do muro, mas a veemência anda em falta por aqui. Talvez minha bandeirinha mais convicta seja a do bom-humor. “Por mais senso de humor no mundo!”, já escrevi por aqui. Mas o que é humor e o que é ofensa? Talvez fosse mais fácil eu balançar por mais bom senso no mundo…

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Por isso, embora eu admire os colegas e amigos que saem por aí carregando suas bandeiras, fico irritada quando eles me cobram que eu carregue as bandeiras deles. Já discuti com uma amiga que queria que eu virasse vegetariana de qualquer jeito, porque ela virou: “Adoro um bife”, encerrei. Já cortei logo outra amiga que queria que eu virasse mãe-ativista depois que engravidei, lutando pelo parto humanizado e coisa e tal. Pode ser que um dia eu vire, eu tenho procurado me informar e tudo o mais, mas hoje esta causa simplesmente não me comove. Eu adoro cachorrinhos, mas ainda gosto mais dos humanos e não me vejo adotando todo vira-lata que encontro na rua para evitar que ele passe frio ou fome. Mas respeito pacas quem faz disso tudo sua missão.

Enfim, esta longa divagação é para defender que as pessoas possam carregar as bandeiras que melhor lhes aprouver — mas que também tenhamos o direito de simplesmente não carregar bandeira alguma, se não quisermos. Sem olho torto, sem julgamento, sem pé no saco. Que tal esta bandeira nova que inventei? 😉

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10 comentários sobre “Pelo direito de não levantar bandeira nenhuma

  1. Poxa, Cris, eu também ando muito ponderado e sem levantar bandeiras – no máximo uma ou outra opinião em 140 caracteres no twitter e evitando polêmicas maiores, principalmente com algumas pessoas que eu gosto e que têm pensamentos diferentes aos meus. ( fiquei muito assustado e impressionado com o que eu vi nas últimas eleições) Até mesmo uma conversa informal com pessoas radicais torna-se algo desgastante.

    Uma bandeira que talvez eu ainda sustente é a Educação, mas faço minha “revolução interna”: perdi a fé em sindicatos ( se tornaram instituições político-partidárias, e não classistas), longas greves (exemplos da BA, SP e PR deixam claro que não resolve mais) e tantas outras coisas. Então invisto na minha mudança de atitudes, metodologias, práticas e outra visão de mundo para realizar a mudança externa, com meus alunos. Há quem diga que isso talvez seja uma atitude egoísta ( tanto quanto não levantar bandeira nenhuma), mas eu acredito no poder das pequenas intervenções cotidianas. E muita coisa bacana tem acontecido.

    Vou carregar com você a bandeira dos sem bandeiras. rs 🙂

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  2. Eu levanto a bandeira solitária de um transito mais humano. Faço a minha parte e rezo intimamente pra pessoa “beneficiada” pela minha gentileza a perceba e faça o mesmo a outro.

    Outra bandeira: mais noticias do bebê Luiz!!!

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  3. Como vc tocou numa bandeira importante pra mim, me senti no direito de dar uma esclarecida: feminismo não é o oposto de machismo. Machismo é a opressão das mulheres por um sistema que privilegia os homens de várias formas. Feminismo é a busca por igualdade de direitos entre homens e mulheres. Então não existe “trocar machismo por feminismo”. Ou melhor, a ideia é essa, trocar um sistema opressor por um igualitário.

    É claro que existem feministas que exageram, que tão com sangue nos olhos, que querem punição para todos os homens. Mas a base do feminismo, de 90% das autoras importantes e o consenso entre as feministas é de que essa ideologia é a busca por igualdade. Alguns chamam o preconceito inverso aos homens de misandria ou “femismo”, mas iiso são outros 500.

    Em toda discussão temos MUITA dificuldade em fazer as pessoas entenderem esses conceitos, então achei que seria adequado esclarecer aqui.

    No mais, suporto seu direito à não-bandeira. Ou à bandeira da felicidade, ou à branca, preta, seja o que for. Continuando a a pessoa bacana que você é, tá tudo bem. =)

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