Que tal enfrentar esse apagão estrutural do Brasil?

Charge do Duke em 22/1/2015 (O Tempo)

Charge do Duke em 22/1/2015 (O Tempo)

 

Dia desses escrevi aqui que a crise econômica no Brasil ainda não é tão avassaladora como dizem por aí e mostrei alguns sinais disso. Mas outra crise, já abordada diversas vezes pelo blog, agora parece ter chegado ao seu auge: a crise hídrica. Se são Pedro tem culpa no cartório por ter nos proporcionado o verão mais seco dos últimos tempos no Sudeste, os governos — federal, estaduais e municipais — contribuíram e muito com a situação de calamidade em que nos encontramos hoje.

Em todos esses anos de crise de abastecimento batendo às portas, a inação desses governos foi patente. E não só de Alckmin (PSDB), que tem apanhado mais, mas também da presidente Dilma Rousseff (PT) e de seus antecessores Lula (PT) e FHC (PSDB).

A verdade é que nossos governantes sempre contaram com a abundância de água no verão para suprir a demanda do ano inteiro, e foram pegos de calças curtas com este janeiro atípico. Resultado: mais de cem cidades mineiras estão em estado de emergência por causa da seca (mais de 1.200 no país), várias cidades já estão adotando o racionamento de água — inclusive é o que deve ser anunciado para Belo Horizonte hoje — e muitos Carnavais já foram cancelados por isso. Como nossa matriz energética depende basicamente das hidrelétricas, a situação da energia no Brasil também é preocupante. Segundo ótima reportagem de Ana Paula Pedrosa no jornal “O Tempo” desta quinta-feira, a água armazenada em todos os reservatórios do país hoje é suficiente para gerar energia e abastecer o Brasil só por um mês. UM MÊS!

Ou seja, a crise que vivemos é de infraestrutura como um todo. Um apagão antigo, mas que não foi melhorado pelos governos atuais. Se faltar água no Brasil e, consequentemente, faltar energia, não haverá mais como segurar a crise econômica.

Sim, hoje acordei pessimista. Porque venho batendo nesse problema de falta de água há séculos. Como escrevi em setembro, os governos evitaram falar em racionamento quando deveriam ter falado — naquele mês — por causa das eleições. É o cúmulo! Ficaram rezando para que chovesse no verão, não choveu, e agora a situação beira ao desespero. Ou então fizeram um racionamento às escondidas, como parece ter ocorrido em São Paulo, e depois o governador ficou na saia-justa, tendo que admitir, negar, admitir, negar. Enquanto isso, na esfera federal, Dilma desapareceu. Está há um mês sem dar nenhuma entrevista a jornalistas. ‘Tomou posse e sumiu‘, como bem reparou o jornalista Ricardo Kotscho, amigo pessoal de Lula. Quem parece ter assumido a presidência foi esse ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Se nada for feito de forma mais radical, mesmo que por meio de medidas impopulares, a coisa pode ficar mais grave. Que tal lançar uma mega campanha nacional e local de conscientização contra o desperdício de água? Que tal incentivar as grandes indústrias, que são as maiores consumidoras, a fazerem programas de racionamento de água e energia? Que tal proibir a existência de aberrações como minerodutos, que desperdiçam milhões de litros de água por hora, só para transportar minérios? Água potável, de nascentes lindas, virando lama inútil. Que tal incentivar, inclusive barateando, cortando impostos, a instalação de usinas de microgeração de energia solar nas casas e prédios residenciais? (Vejam AQUI como elas são FANTÁSTICAS, autorizadas pela Aneel, capazes de gerar bastante energia, suficiente pra abastecer algumas casas e ainda jogar o resto na rede da Cemig! Mas são caras.) Que tal fazer programas sérios de recuperação dos nossos mananciais?

Espero que este post, como TUDO desde o ano passado, não se dilua em discussões rasteiras meramente político-partidárias. TODOS os políticos, de todos os partidos, todas as esferas e há muitos anos estão com culpa no cartório. Todos eles foram ineficazes e não agiram contra esta questão estrutural. Todos empurraram com a barriga o problema, que exige medidas impopulares que nenhum deles queria fazer. E agora eu só espero que Dilma Rousseff (PT) e seus ministros, os governadores Fernando Pimentel (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Tião Viana (PT), Renan Filho (PMDB), José Melo (PROS), Waldez (PDT), Rui Costa (PT), Rollemberg (PSB), Camilo (PT), Paulo Hartung (PMDB), Marconi Perillo (PSDB), Flávio Dino (PCdoB), Azambuja (PSDB), Pedro Taques (PDT), Simão Jatene (PSDB), Paulo Câmara (PSB), Wellington Dias (PT), Ricardo Coutinho (PSB), Beto Richa (PSDB), Pezão (PMDB), Robinson Faria (PSD), Confúcio Moura (PMDB), Suely Campos (PP), Ivo Sartori (PMDB), Raimundo (PSD), Jackson Barreto (PMDB), Marcelo Miranda (PMDB), todos os prefeitos e os congressistas tomem atitudes urgentes para resolver esse apagão estrutural do Brasil.

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Estética sem conteúdo

Assista se tiver tempo sobrando: O GRANDE HOTEL BUDAPESTE
(The Grand Budapest Hotel)
Nota 6

budapeste

Eu estava ansiosa para assistir ao filme “O Grande Hotel Budapeste”. Afinal, com nove indicações ao Oscar, empatado com “Birdman” como o melhor do ano, deveria ser bem bom.

Por isso, tenho que dizer que fiquei decepcionada.

Se bem que, analisando as categorias a que o filme concorre, muito está explicado. Fotografia, figurino, edição, maquiagem e direção de arte são prêmios que valorizam a estética. E a estética desse filme é, realmente, impressionante. O filme é bonito de se ver. Colorido, vivo, intenso, com uma fotografia sempre enquadrada de modo impecável (geralmente privilegiando o centro da tela, como você pode ver AQUI). Além disso, é um amontoado de bizarrices e personagens esquisitos que lembra um pouco Amélie Poulain, filmes do Tim Burton e outros tantos que existem por aí, nessa linha, inclusive do próprio diretor Wes Anderson (“Os Excêntricos Tenenbaums”).

E, puxa, o que não faltam são atores incríveis. É um elenco até um pouco desperdiçado, porque os atores Ralph Fiennes e Tony Revolori ficam com quase tudo, enquanto monstros do cinema, quase todos indicados ou premiados pelo Oscar, como Willem Dafoe, Jude Law, Edward Norton, Murray AbrahamTom Wilkinson, Adrien Brody, Mathieu Amalric, Bill MurrayOwen Wilson e Tilda Swinton fazem só pontinhas, são praticamente figurantes. Mas isso também é legal: ajudam a dar vida a pequenos coadjuvantes que compõem a excentricidade geral. Nenhum deles concorre ao Oscar, diga-se de passagem.

O que faltou para que eu gostasse do filme, então? História.

Geralmente não ligo se um filme for feio e nem mesmo se tiver atores “marromenos”, desde que a história seja sensacional. Tanto que vários filmes independentes, baratíssimos, conquistam meu coração por terem um roteiro bem-amarrado. O contrário, no entanto, me parece imperdoável. E, no caso de “O Grande Hotel Budapeste”, mesmo sendo baseado em livro, mesmo sendo contado em tom de fábula, com direito a capítulos (fórmula que costuma dar certo), mesmo se passando em uma república fictícia, o que também dá mais espaço à imaginação — com tudo isso, enfim, ainda é um filme sem história. Se me perguntar do que se trata, o famoso “o que acontece?”, eu resumo em duas linhas. The end.

Por isso, vá lá que ganhe todos aqueles prêmios estéticos do Oscar, mas espero que não fique com o melhor roteiro original e, muito menos, com o grande prêmio de melhor filme, porque não é o caso. O cômico e o excêntrico são legais, mas precisam de conteúdo para se justificarem. Wes Anderson tem que aprender mais com seu colega francês Jean-Pierre Jeunet.

Veja o trailer:

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