As formiguinhas

formigas

Antes era até normal. Deixava um pedaço de doce na pia, e as formiguinhas logo apareciam para devorá-lo. Depois de um tempo, não se contentavam mais só com as migalhas esquecidas: começaram a se organizar em batalhões para invadir sacos de pão em lugares remotos. Tínhamos que colocar tudo na geladeira, ou então, bye-bye.

E eu que achava que fossem herbívoras! Sempre enxerguei a cena das formigas carregando folhinhas nas costas para o inverno, como na fábula. Mas que nada. Descubro na prática que elas são onívoras: atacam de tudo. Bem humanazinhas. Se fazemos carne na panela-churrasqueira, logo elas formam uma de suas filas quilométricas e vão se deliciar com a gordura da banha, que fica grudada no fundo. A panela deve ser seu rio de chocolate no paraíso de Willy Wonka.

É guerra? Então assim será! Chegou um ponto em que nos equipamos pra valer. Compramos um veneno que é aplicado por um tubinho, bem dentro do formigueiro mesmo. E começamos a caçar as formiguinhas. Se víamos uma fila imensa desses insetinhos petulantes, íamos seguindo seu trajeto, até perceber onde ficava a entrada para seu centro de operações. Geralmente era o lugar onde víamos três ou quatro formiguinhas entrando e saindo, sempre do mesmo microburaquinho. E dá-lhe veneno borrifado lá dentro!

Logo elas vinham por outro buraco. E assim fomos caçando, de borrifadas em borrifadas, seguindo as filas novas, sem perder as esperanças.

Um dia, cometemos um erro amador. Saímos de viagem no fim de semana e deixamos um pão de mel meio aberto em cima do gaveteiro da cozinha. Quando voltamos, o gaveteiro inteiro, que é branco, estava preto, povoado por aqueles pontinhos sobre patas. Furiosos, pegamos o veneno e atacamos geral. Parecia que a parede inteira tinha buraquinhos de onde elas saíam, não tinha mais como descobrir qual era o centro de operações. Elas pareciam ter vencido a guerra.

Nãããão! Pegamos martelos e até o extintor de incêndio e começamos a bater na velha parede da cozinha, abrindo buracos. Vocês não vencerão!!!! Quando as camadas de tinta começaram a cair, levando pedaços de gesso, percebemos que a parede estava oca. Dentro dela, horrorizados, vimos milhares — milhões! — de formiguinhas vorazes, caminhando por túneis minúsculos. Uma cidade inteira atrás da parede, agora derrubada, de nossa casa. O frasco de veneno, obviamente, já era. Éramos só dois humanos, cercados por muito pó, tinta, gesso, e por um número infinito de insetos, que agora nos olhava — com fome.


 

(Até o quarto parágrafo, é crônica; depois vira conto de ficção. Será que algum leitor teria uma fórmula mágica para combater as formiguinhas e evitar que os dois últimos parágrafos um dia venham a acontecer? 🙂 )

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