Como me conheci melhor por meio de um teste genético

DNA, genética, gene, teste genético. Foto: Ashraful Islam / Unsplash
Imagem: Ashraful Islam / Unsplash

Alguns procuram se conhecer melhor por meio da terapia, outros pela religião. Eu resolvi fazer um teste genético 😀

Brincadeiras à parte, aproveitei uma promoção que vi quando fui fazer um exame de sangue de rotina (que eu faço uma vez por ano pra ver se o colesterol e outros indicadores estão bem), e fiz um teste desses. O resultado saiu no fim de junho e, efetivamente, me permitiu saber um pouquinho mais sobre quem eu sou.

Pra começar, a questão da ancestralidade. Descobri que sou uma autêntica vira-latas: embora 44% do meu DNA tenha origem lá na Península Ibérica (Portugal e Espanha), também tenho porções vindas

  • da Alemanha, França e Holanda (9%),
  • África – principalmente da Costa da Mina, que hoje engloba Nigéria, Gana, Togo e Benim (8%),
  • Itália (5%),
  • Balcãs (4%)
  • e Américas, especificamente da Amazônia (3%).

Além disso, tenho 9% dos genes de judeus asquenazes, que fugiram para o Brasil principalmente vindos da Polônia invadida pelos nazistas, e 6% de judeus sefarditas, que vieram junto com os primeiros colonizadores.

(Sempre percebi que tenho alguns traços dos judeus – pelo menos desde que descobri que Margot Frank, irmã da Anne Frank, era quase minha sósia 🙂 )

Duas fotos de Margot Frank. Assim como sua irmã Anne, ela sucumbiu ao tifo maculoso em fevereiro de 1945, dois meses antes da libertação do campo de concentração nazista pelos soldados britânicos.
Duas fotos de Margot Frank. Assim como sua irmã Anne Frank, ela sucumbiu ao tifo maculoso em fevereiro de 1945, dois meses antes da libertação do campo de concentração nazista pelos soldados britânicos.

Para tornar ainda mais complexo o quebra-cabeça que forma meu DNA, tenho 7% dos genes de árabes da região do Magrebe, no noroeste da África, que hoje inclui territórios do Marrocos, Tunísia, Argélia, parte de Mali, Líbia e Mauritânia. Sim, judeus e árabes convivem pacificamente dentro de mim

E ainda recebi uma pitadinha de povos da Sardenha (3%), do povo basco (3%) e até do Leste Europeu (2%).

Perceber essa mistureba (ou miscigenação) da qual somos formados enquanto seres humanos só me faz ter ainda mais convicção do quanto o racismo é estúpido e sem sentido.

Se todos chegassem à mesma conclusão, talvez metade das guerras nem aconteceriam. Mas, infelizmente, os discursos de ódio seguem a pleno vapor.

Minha raiz materna no coração da África

Outro ponto que achei absolutamente fenomenal desse mapa genético que eu fiz foi descobrir que minha linhagem materna começou lá na África Central, “provavelmente próximo ao delta do rio Congo, na região que hoje faz fronteira entre a Angola e a República Democrática do Congo”. Ali, ó:

Minhas ancestrais surgiram no coração da África.
Minhas ancestrais surgiram no coração da África.

Linhagem Materna é um recurso que indica a rota percorrida pelas minhas ancestrais matrilineares ao longo do tempo, ou seja, minha mãe, minha avó materna, minha bisavó materna, minha trisavó materna, e assim por diante, até mais de 100 mil anos atrás.

Esse halogrupo de onde minhas ancestrais surgiram foi trazido para o Brasil como mulheres escravizadas, a partir da colonização portuguesa. Talvez isso explique por que esse tema da consciência negra me toca tão fundo, como os leitores deste blog já devem ter reparado.

Está, literalmente, no meu sangue ❤

Cartaz com os dizeres "Black lives matter", ou "vidas pretas importam", slogan que se fortaleceu nos protestos contra a morte de George Floyd e a violência contra os negros, de modo geral. Foto: Zeynep Sümer / Unsplash
Cartaz com os dizeres “Black lives matter”, ou “vidas pretas importam”, slogan que se fortaleceu nos protestos contra a morte de George Floyd e a violência contra os negros, de modo geral. Foto: Zeynep Sümer / Unsplash

Medo do Alzheimer dá lugar a outras sete doenças. Será?

O teste genético também trouxe várias informações relacionadas a saúde. Por exemplo, a Escala de Risco Genético, que analisa como a combinação de algumas informações genéticas contribui para o risco de eu desenvolver uma determinada doença.

Aí tive algumas boas e más notícias. Entre as boas, eu esperava que o risco de eu ter Alzheimer e câncer de mama fossem altíssimos, já que tive muitos casos das duas doenças na minha família. Mas não: nos dois, recebi só um “risco padrão”, que está na média da população brasileira.

E tive risco especialmente reduzido para doenças como câncer de ovário e colorretal e doença celíaca.

Por outro lado, tive risco aumentado para sete doenças. SETE! =O

Doenças com risco aumentado, segundo meu DNA.
Doenças com risco aumentado, segundo meu DNA.

Talvez eu devesse me preocupar, mas sou muito otimista para perder tempo com isso.

Já o painel de Doenças Genéticas me mostrou se tenho riscos de desenvolver 22 doenças genéticas, incluindo Parkinson, por exemplo. Boa notícia: nenhum risco detectado em nenhuma delas \o/

Ainda no campo da saúde, o teste mostrou como meu corpo reage a determinados medicamentos. Descobri, por exemplo, que Aspirina pode me dar urticária, que não tenho boa resposta a opióides e que não devo ter trombose por usar anticoncepcionais.

Hábito e força de vontade às vezes superam a genética

Tem todo um outro painel relacionado a bem-estar, que traz informações, por exemplo, sobre nutrição, exercícios físicos, pele e envelhecimento. Aqui, o que mais me chamou a atenção é que às vezes podemos vencer nossa predisposição genética com disciplina, hábito e força de vontade.

É o caso do danado do gene GCKR, que está lá no cromossomo 2. Os cientistas encontraram o alelo C no marcador rs780094 desse meu gene. Sabem o que isso significa? Que eu tenho menor predisposição para aderir à prática de atividades físicas.

Mal sabem eles que eu pratico exercícios regularmente desde a adolescência e hoje nado três dias por semana e faço academia nos outros quatro 😉 Olha eu aí embaixo dando um tapa na cara do meu DNA:

Não bastasse o tal do gene GCKR, eu ainda tenho problemas com o gene PPARGC1A, que apareceu com o alelo T no marcador rs8192678, o que significa que tenho “predisposição menos favorável para habilidade esportiva em comparação às pessoas que não possuem cópias desse alelo”. E eu já fui até atleta da equipe de natação, viu?

Mas essa informação não deixa de fazer sentido, porque nunca fui aquela pessoa com ultra facilidade, sempre tive que me esforçar muuuuuito mais que os colegas de raias.

Por outro lado, venho sendo ajudada pelos genes NFIA-AS2, IGF2-AS, ADRB2 e CHRM2, que, respectivamente, me deram maior predisposição para captação de oxigênio e resistência física, maior força muscular, maior capacidade cardiorrespiratória e recuperação mais rápida da frequência cardíaca após a prática de exercício físico.

Obrigada, amiguinhos! Sem vocês talvez eu não conseguisse seguir em frente só com minha teimosia 😉

Sem rugas, bem velhinha, mas em guerra com a balança

Agora vejam que curioso: meu gene FTO, lá no cromossomo 16, está com uma porcaria de um alelo A que me faz ter predisposição para IMC elevado, com 1,3 vezes mais chances de desenvolver obesidade.

Por outro lado, fiquei livre do alelo rs1861868-T, que ia garantir de vez meu risco pra obesidade. Sem ele, tenho “menor predisposição para IMC elevado”. É quase uma briga com a balança imprimida no meu DNA.

Registro fotográfico que minha nutricionista pediu para fazer nesses seis meses, mostrando como a mudança de hábitos foi mudando meu corpo. As fotos da esquerda são de janeiro de 2023, quando eu estava com 79 kg e 96 cm de cintura. As da direita são de julho, com 70,5 kg e 82 cm de cintura.

Meio inútil, se a gente for parar pra pensar. Assim como quando descobri que tenho predisposição pra ter espinhas. Hoje tenho 41 anos e minha pele é lisinha, mas, meu amigo, eu já passei pela adolescência, viu? Lembro direitinho como era minha testa coalhada de manchas vermelhas horríveis, parecendo uma paciente com varíola. Não precisava do teste genético pra me avisar =P

Por outro lado, achei útil descobrir que tenho baixa predisposição para as rugas. Até porque costumo dizer que, se algum dia eu fizer botox, os parentes podem se preocupar que eu possa ter sofrido um derrame (ou abdução). Nem filtro nas fotos eu uso!

Mas as rugas são o de menos: será que vou envelhecer bem? É essencial saber disso, já que tenho predisposição para expectativa de vida mais longa, em média, de mais de 90 anos de idade.

Descobri que não devo ter tremores, nem osteoporose, mas tenho predisposição para osteoartrite de quadril e joelho e uma coisa horrível chamada “degeneração macular relacionada à idade”, que afeta os olhos e leva à perda progressiva da visão: “Afeta indivíduos acima dos 75 anos de idade, sendo a terceira maior causa de cegueira em idosos.”

O jeito é seguir otimista. Até porque talvez o que importe mesmo seja envelhecer com a cabeça boa e com bom humor.

Afinal de contas, quem sou eu?

O último painel do teste chama “You”, que eles dizem ser uma forma de nos conhecermos melhor a partir do nosso DNA.

Fiquei sabendo, por exemplo, que tenho predisposição para desenvolver dependência de nicotina. Ainda bem que nunca pus um cigarro na boca, porque, pelo visto, eu nunca mais ia tirar =P

Por outro lado, não tenho para o alcoolismo (o que eu também já sabia, porque hoje em dia quase não bebo mais).

Nem para a miopia – embora os óculos na minha cara desde os 15 anos de idade discordem disso.

Um dado que achei bem inútil neste painel é o que diz que tenho predisposição a ter olhos castanhos. Sim, eu sei, né, dã. Deviam ter colocado no lugar a informação de que não consigo enrolar a língua, que aprendi lá nas aulas de biologia que era uma capacidade definida pela genética. Nunca consegui, mas se o teste falasse que consigo, eu ia seguir tentando mais um pouco. Já a cor dos olhos, só posso mudar com lente ou filtro mesmo…

Por outro lado, achei revelador descobrir que tenho o alelo rs1726866-A e que ele me faz sentir a maioria dos tipos de gosto amargo. Isso explica, segundo o exame, por que eu acho muitas comidas pouco saborosas.

Sempre me defini como alguém de “paladar infantil”, sem muita vontade de experimentar iguarias bizarras que outros comem de olhos brilhando. Para não me julgarem, até inventei que tenho alergia a peixes e outros frutos do mar. Não gosto mesmo, nem do cheiro. Jiló? Eca! Agora tenho uma desculpa melhor: é minha genética, me deixem em paz 😉

Este painel também disse que tenho predisposição a maior sensibilidade à dor, menor duração do sono, a preferir horários diurnos e a ter cera de ouvido molhada em vez da seca (ahn, ok, e daí?).

Por fim, disse que não sou muito impulsiva, me dou bem com a matemática e tenho o gene guerreiro, ou “warrior” – ou seja, apresento melhor desempenho quando preciso agir sob pressão, em ambientes estressantes. Isso com certeza explica eu ter sobrevivido às redações de jornais durante tantos anos, ainda mais em portais de notícias e em cargos de chefia. Tinha estresse à vontade ali pro meu gene guerreiro se deleitar! =P

A alternativa seria o chamado gene preocupado, ou “worrier”, que funciona melhor em ambientes complexos, envolvendo a realização de tarefas relacionadas à memória e à atenção. E, como viram até aqui, não sou muito dada a me pré-ocupar com as coisas 😉

De toda essa barafunda de informações obtidas a partir do meu sequenciamento genético, algumas aparentemente meio dispensáveis, acho que o que mais fica, para mim, é meu coração africano, minha força de vontade contra os genes da preguiça, minha desculpa nova para não comer de tudo e esta característica tão inata de achar a preocupação inútil.

Foi bom te conhecer melhor, guerreira 😀 ❤

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista desde 2007 (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), dona da empresa Kikacastro Comunicação desde 2022, blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

2 comments

  1. Bom saber que seu DNA não me surpreendeu nem um pouco. Pela tradição oral de minha família, sempre soube de nossa ascendência africana e indígena, entre tantas outras. Bem divertido seu post.

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