Pensei em escrever sobre a proposta trazida a público pela empresária Paula Lavigne (esta que perdeu a razão tão fácil), que virou uma baita polêmica, debatida até mesmo na Feira de Frankfurt (e aqui). Mas me bateu muita preguiça de ver gente que nada entende de como é produzida uma biografia (que é material de jornalismo investigativo dos mais trabalhosos que existem) e que nada entende de como é difícil até sobreviver como escritor no Brasil vir defender a privacidade de figuras públicas sobre as quais elas adoram ler. Me bate preguiça ainda maior ver gente inteligente defendendo que exigir autorização prévia para publicação de um livro (o que subentende a possibilidade de desautorização, de autorização parcial, de autorização apenas após leitura, edição e cortes a bel-prazer das figuras públicas perfiladas em questão) não é censura. A defesa da livre publicação de retratos de personagens que ajudam a compor a história do nosso país (seja na cultura, na política ou no esporte, por exemplo) é um pilar tão básico e sagrado da minha profissão — e tão previsto em nossa Constituição — que chega a me abater ter que entrar nesse tipo de discussão. Assim como me abate ver tanto anacronismo em nossas leis, tanta contradição de códigos com os princípios básicos da democracia, que já estão previstos em nossa jovem Carta de 25 anos de idade.
Por isso, não vou aprofundar num debate que, para mim, nem deveria existir em uma democracia (e não existe, em outros países). Prefiro listar abaixo alguns textos que li, de gente muito mais inteligente e mais paciente do que eu:
- A carta aberta de Benjamin Moser a Caetano Veloso
- O excelente relato pessoal de Mario Magalhães, que fez a biografia de Carlos Marighella e, embora ela tenha sido um estrondoso sucesso para os padrões brasileiros, praticamente o deixou falido, como costuma acontecer aos jornalistas que encaram largar uma Redação para se dedicarem a este trabalho ainda mais suado.
- Manifesto contra a censura às biografias, assinado por várias pessoas que admiro muito no jornalismo e na literatura
- O exercício proposto por Helio Schwartsman
- Ruy Castro defende liberdade de biografias
- Laurentino Gomes também
- Ministro da Justiça concorda que é censura
- Pedro Alexandre Sanches faz uma reflexão-resumo da coisa toda
- Caetano sai da toca e, no meio de sua coluna, confirma que já defendeu liberdade de biografar
- André Barcinski critica a coluna de Caetano
- Suzana Singer procura todos os músicos contra biografias livres, mas eles se calam
- Outros músicos se posicionam a favor das biografias livres
- Meu pai faz sua reflexão
- Ana Paula Pedrosa faz sua reflexão
- Piauí Herald faz sua brincadeira: “Jesus exige autorização prévia para liberar Novo Testamento”
- Mais uma brincadeira: Leãozinho exige autorização para ser citado por Caetano
- Outra para nosso bom humor: página do Facebook cria biografia coletiva e livre de Caetano
Eu só digo uma coisa mais, para encerrar a questão: assisti ao show de Caetano, babando, extasiada de admiração. Desde que me inteirei de sua posição a respeito da censura prévia às biografias, não consigo nem mesmo ouvir uma música inteira dele tocando na rádio. Estou tomada por antipatia e ainda na esperança de que o grande músico e artista assuma a sabedoria de voltar atrás como pensador, voltar justamente àquela época em que ele bem defendeu a livre-prática do jornalismo, a livre-expressão e a real democracia neste país tão afeito a coisas escondidas e obscuras.







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