Os conselhos de Dilma em Itajubá

Texto escrito por José de Souza Castro:

Festa mineira em Itajubá. A presidente Dilma Rousseff, o governador Antonio Anastasia e o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, compareceram na última segunda-feira a essa cidade do Sul de Minas, sede da Universidade Federal de Itajubá, para a inauguração de uma fábrica de transformadores elétricos de uma empresa controlada pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, também presente à festa.

Engenheiro mecânico formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, o presidente da CNI e do Grupo Orteng sabe do grande potencial de Itajubá para fazer com que a Balteau Produtos Elétricos, cuja fábrica foi inaugurada por Dilma, se transforme numa competidora das multinacionais no fornecimento ao mercado brasileiro de transformadores de até 550 kV. Essa empresa já existia em Itajubá desde meados da década de 1970. Em 2006, foi comprada por Robson Andrade. Sua nova fábrica se localiza numa área de 42 mil m² do Distrito Industrial. Foram investidos R$ 50 milhões, dos quais R$ 30 milhões financiados pelo BDMG e R$ 5 milhões pela Agência Brasileira de Inovação (Finep).

Desde 1913, Itajubá tem uma escola de engenharia, fundada por belgas. Um de seus alunos foi Aureliano Chaves. Em 1952, o futuro vice-presidente da República era presidente do Diretório Acadêmico do Instituto de Engenharia de Itajubá (IEI) e viajou ao Rio, com 42 colegas, para pedir a Getúlio Vargas a federalização do IEI e assim evitar seu fechamento. Vargas encaminhou o projeto de lei ao Congresso Nacional e três anos depois Aureliano foi nomeado professor da escola que deu origem à universidade, criada em 2002.

Em terra de políticos espertos, Dilma não quis falar sobre a eleição de 2014, na qual terá Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, entre os competidores. O governador Anastasia pode ser candidato ao senado, com apoio de Aécio, que vai lançar um candidato ao governo de Minas, pelo PSDB – provavelmente, o ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga –, para concorrer com o ministro Fernando Pimentel. Dilma está bem na pesquisa Datafolha divulgada no último fim de semana, e não quer ser vista como uma candidata de “salto alto”.

Em agosto, Dilma esteve em Varginha, para a inauguração do campus avançado da Universidade Federal de Alfenas. Mesmo viajando muito – só em Minas, foram quatro visitas neste ano –, ela garantiu que se dedica apenas a governar o país. Mas aconselhou as pessoas que querem concorrer ao cargo de presidente da República:  têm de se preparar, estudar muito, ver quais são os problemas do Brasil – e apresentar propostas.

Esse aí não é um mau conselho.

Pena que ninguém aconselhou Dilma Rousseff a não gastar seu prestígio inaugurando uma fábrica de Robson Andrade em Varginha. Desde que ele assumiu a presidência da Federação das Indústrias (Fiemg), no começo de 2002, sua empresa deu um salto extraordinário. No ranking das 400 maiores empresas de Minas em 2000, publicado no dia 20 de setembro de 2001 pelo jornal “O Tempo”, a Orteng aparecia em 156º lugar, com receita líquida de R$ 35,389 milhões e patrimônio líquido de R$ 11,4 milhões. O lucro líquido era de R$ 1,875 milhão.

Hoje o grupo é formado por seis empresas que devem faturar neste ano R$ 588 milhões e lucrar R$ 83 milhões, com previsão de elevar o faturamento a R$ 1,5 bilhão em 2016.

A Orteng não parou de crescer quando Robson foi eleito presidente da CNI. O impulso veio de empréstimos de bancos oficiais e de órgãos como a Finep.

Robson Andrade conseguiu muito, porque não criticava o governo. Com o governador Aécio Neves, fez uma espécie de parceria. Conseguiu livrar a Fiemg do Programa Estrada Real, criado pelo antecessor, Stefan Salej, para incentivar o turismo com recursos privados. Foi transformado em Programa do Governo de Minas e até patrocinou o carnaval carioca, em determinado ano.

Uma das empresas compradas pelo grupo empresarial de Robson foi a Balteau, uma empresa belga que chegou a Itajubá na década de 1970, atraída por incentivos do governo de Minas e pela tradição do município no ensino de engenharia elétrica. Antes de a Balteau ser comprada em 2006 por Robson, ela havia sido vendida para o grupo francês Alstom.

Para impulsionar a fábrica de Itajubá, em agosto do ano passado o governador Antonio Anastasia e o presidente da Fiemg, Olavo Machado Júnior, assinaram um protocolo de intenções para o desenvolvimento de implantação pelo Senai, em parceria com a CNI, de um laboratório de testes de alta tensão e alta potência, em Itajubá.

Investimentos previstos de R$ 128,5 milhões. Declarou na época o governador, que nesta semana esteve com Dilma e Robson Andrade:

“Essa parceria é fundamental. Teremos um laboratório de altíssima tecnologia que irá, a partir de 2016, quando ele estiver pronto, servir a Minas e ao Brasil. Em Itajubá, estamos concluindo o parque tecnológico, também com o objetivo de agregar conhecimento, que vem da universidade para passá-lo para o setor privado. Já temos parques em Viçosa e Belo Horizonte e, brevemente, em Lavras”.

Com padrinhos fortes (além de Dilma, Aécio e Anastasia, não se pode esquecer de Pimentel, que foi consultor da Fiemg depois de deixar a prefeitura de Belo Horizonte, numa história ainda nebulosa), Robson Andrade talvez não tenha o mesmo destino de Eike Batista, que também cresceu muito rapidamente usando recursos públicos. Seu endividamento, em julho passado, era de R$ 300 milhões. Naquele mês, no dia 8, o jornal “Valor Econômico” publicou esta notícia:

“Os donos da Orteng, empresa mineira de sistemas de engenharia e automação, que concorre com a catarinense WEG e com multinacionais como a Siemens e Alstom, querem vender parte da companhia para um sócio estratégico ou para um fundo.

Os contatos com potenciais investidores já começaram a ser feitos por meio de um banco estrangeiro. A decisão dos acionistas é manter o controle da companhia. “A participação de um sócio estratégico ou de um fundo certamente fará com que a empresa alcance mais rapidamente esse crescimento que nós planejamos, tanto do ponto de vista do faturamento quanto do ponto de vista de novas tecnologias”, disse ao ‘Valor’ Robson Andrade, um dos donos do grupo e também presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Além da busca por um investidor, os acionistas preparam outro movimento: um aumento de capital que será aportado entre agosto e novembro. O valor ainda não está fechado, mas, segundo Andrade, será entre R$ 85 milhões e R$ 100 milhões. Parte desses recursos servirá para abater financiamentos com custos mais elevados — a dívida total está na casa dos R$ 300 milhões, o que representa 2,9 vezes o Ebitda — e parte para dar gás ao desenvolvimento de novas tecnologias de produtos e serviços.”

Pois é. O impulso para que os planos anunciados dê certo pode ter sido dado nesta semana, em Itajubá. Discretamente, como preferem os políticos e empresários mineiros de sucesso.

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