No quarto dia de paralisação dos caminhões, Temer viveu na Fiemg o seu momento de glória

Michel Temer na Fiemg, em foto de Humberto Trajano (G1)

Texto escrito por José de Souza Castro:

Enquanto o Brasil enfrentava o quarto dia de paralisação nas rodovias, Michel Temer viveu um momento de glória na Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), na noite de quinta-feira passada. Ele foi ovacionado de pé por empresários e industriais depois de anunciar o fim da greve dos caminhoneiros.

Antes dele, discursou na mesma solenidade de transmissão da presidência da principal entidade empresarial mineira (de Olavo Machado Júnior para Flávio Roscoe), o governador Fernando Pimentel, do PT, que teve o dissabor, primeiro, de assistir a um início de vaias, e em seguida, de ouvir Temer anunciar que o acordo com os grevistas previa a redução do ICMS sobre os combustíveis.

“Uma das principais fontes deste acordo está na redução do PIS/Cofins, da Cide, e amanhã nós convidamos os secretários da Fazenda porque a incidência maior do tributo é estadual. É o ICMS e nós queremos que, amanhã, que nós possamos tirar uma parcela do ICMS porque isso reduz o tributo”, disse Temer, conforme destacou o repórter Humberto Trajano.

Dois dias depois, Pimentel – que em seu discurso havia criticado a política de preços da Petrobras e acusado Pedro Parente de desrespeitar a hierarquia e a lógica econômica – foi um dos sete governadores da área da Sudene a assinar documento descartando a proposta de redução do ICMS sobre o diesel.

“O governo federal tenta fugir às suas responsabilidades convocando os governos estaduais, já tão sacrificados pela injusta concentração de recursos na União, a renunciar às suas receitas do ICMS, supostamente para atender demandas dos representantes dos transportadores participantes da paralisação”, diz o documento.

Não foi a primeira vez que Michel Temer prestigiou a Fiemg. Por exemplo, esteve lá no dia 24 de maio de 2000, quando presidia a Câmara dos Deputados e aceitou de Stefan Salej o convite para participar da primeira passeata de empresários já vista no Brasil. Era uma manifestação organizada pela Fiemg, então presidida por Salej, e com apoio de líderes empresariais da maioria dos Estados, para exigir redução dos impostos cobrados pelo governo tucano de Fernando Henrique Cardoso.

A passeata parou na Praça Tiradentes, para discursos, e foi entregue ali a Michel Temer o Manifesto do Movimento dos Empresários pelas Reformas Tributária e Trabalhista, que ressaltava: “Somente um sistema tributário simplificado, transparente e justo e uma legislação trabalhista não intervencionista podem gerar crescimento, mais emprego, melhoria de renda, correção das desigualdades sociais e econômicas e maior competitividade da empresa nacional”.

Claro, não deu em nada. A exemplo de tantas outras manifestações apoiadas por Temer ao longo de sua carreira política, muitas delas à espera da História e, quem sabe, da Justiça. A passeata teve grande repercussão na imprensa, mas quem se lembra?

Stefan Salej, empresário e cientista político sobre o qual escrevi um livro em que ele critica empresários que o precederam e o sucederam na presidência da Fiemg, é neste momento crítico ao governo e à solução que Temer pretende dar à paralisação dos caminhões que está mais para locaute de empresários do que para greve de trabalhadores.

Em seu blog, Salej afirma e eu transcrevo sem comentar:

“O outro lado da moeda, ou seja, do caos provocado pela alta dos combustíveis, que gerara  a revolta dos caminhoneiros, é que descobrimos o erro de todos os governos até agora na área de transporte: deram a preferência aos transportes por caminhões ao invés de hidrovias e estradas de ferro. Deram preferência ao diesel poluidor, ao invés do etanol e carros elétricos. E ficamos reféns da poluição e de um modelo nefasto de transporte.

Ainda nesse capítulo, o caos instalado mostrou uma incrível fragilidade da nossa economia. Ruiu o castelo de cartas. Os dados de realidade econômica, com previsões modestas de crescimento, mas firmes nas previsões de inflação baixa, juros baixos, excelente desempenho externo com superávit da balança comercial, caíram em uma semana de país parado. Desgovernado pelos governos central e estaduais que foram surpreendidos. Como surpreendidos, se os próprios caminhoneiros avisaram que a situação era insustentável e demonstraram isso com manifestações esporádicas varias vezes? Surpreendidos depois que o real desvalorizou em 60 dias 14%, o petróleo subiu 19% no mercado internacional e o preço dos combustíveis na refinaria da Petrobras subiu 48%?

Qual é o gênio do governo que acha que essa conta fecha para o cidadão? Com o aumento de preços dos combustíveis salvaram os especuladores com ações da Petrobras, entre eles o próprio governo. A Petrobras atingiu o seu maior valor histórico, com lucros mirabolantes. E a conta foi paga, incluindo as indenizações bilionárias aos acionistas americanos, por 210 milhões de brasileiros. Aliás, nesse capítulo ainda há aumento de energia elétrica, de água, de gás, de previdência privada, e tudo mais, e o governo dizendo que a inflação está em 4%. E tudo isso aprovado pelo governo. Há um bando de analistas e economistas que estão enganando todos nós, os trouxas de plantão, permanentemente, e ganhando dinheiro grosso com a especulação. Vide o caso da Petrobras e Eletrobrás, entre outros. E, aliás, alguém previu esse caos?

E isso é só o inicio. Lamentavelmente, este episódio dos caminhoneiros está acordando o país para uma realidade do colapso do modelo político e econômico que nos foi imposto pelo curso da história. Acabou. E estamos em tempos de ruptura porque os candidatos para a presidência nada têm a dizer de novo. E os que estão no poder estão perplexos, cuidando de si em vez de cuidar da nação. Tempos de transição que não serão fáceis e são imprevisíveis no seu curso e suas consequências.”

 

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Um estranho no ninho do peleguismo empresarial brasileiro

Stefan Salej

Texto escrito por José de Souza Castro:

Depois de mais de dois anos sem o ver, reencontrei Stefan Salej no Palácio das Artes no dia 30 de junho de 2003. Tínhamos ido ao lançamento de “As Sete Portas da Comunicação Pública”, livro escrito pelo jornalista Maurício Lara, que fora meu colega na sucursal mineira do Jornal do Brasil e assessor de imprensa de Salej na presidência do Sebrae Minas.

Agora, primeiro ano do governo Lula, Mauricio era assessor da Secretaria de Comunicação do Governo e Gestão Estratégica da Presidência da República. Eu estava desempregado. Tinha sido demitido naquele mesmo mês da Rádio Alvorada, onde havia sido o coordenador de jornalismo desde 1995. Nas horas vagas, para complementar o salário, fazia frila. Assim, durante cinco anos, editei o jornal Indústria de Minas, da Fiemg.

Dois anos antes desse encontro, encerrei minha participação naquele jornal. No começo de 2003, Salej concluíra seus sete anos na presidência da Fiemg.

Foi olhando para o que Salej e eu tínhamos em mãos – o livro autografado de Maurício Lara – que tive a ideia: por que não escrever a biografia de Salej, com destaque para as mudanças que ele fez tanto no Sebrae como na Federação das Indústrias?

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Os conselhos de Dilma em Itajubá

Texto escrito por José de Souza Castro:

Festa mineira em Itajubá. A presidente Dilma Rousseff, o governador Antonio Anastasia e o ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, compareceram na última segunda-feira a essa cidade do Sul de Minas, sede da Universidade Federal de Itajubá, para a inauguração de uma fábrica de transformadores elétricos de uma empresa controlada pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, também presente à festa.

Engenheiro mecânico formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, o presidente da CNI e do Grupo Orteng sabe do grande potencial de Itajubá para fazer com que a Balteau Produtos Elétricos, cuja fábrica foi inaugurada por Dilma, se transforme numa competidora das multinacionais no fornecimento ao mercado brasileiro de transformadores de até 550 kV. Essa empresa já existia em Itajubá desde meados da década de 1970. Em 2006, foi comprada por Robson Andrade. Sua nova fábrica se localiza numa área de 42 mil m² do Distrito Industrial. Foram investidos R$ 50 milhões, dos quais R$ 30 milhões financiados pelo BDMG e R$ 5 milhões pela Agência Brasileira de Inovação (Finep).

Desde 1913, Itajubá tem uma escola de engenharia, fundada por belgas. Um de seus alunos foi Aureliano Chaves. Em 1952, o futuro vice-presidente da República era presidente do Diretório Acadêmico do Instituto de Engenharia de Itajubá (IEI) e viajou ao Rio, com 42 colegas, para pedir a Getúlio Vargas a federalização do IEI e assim evitar seu fechamento. Vargas encaminhou o projeto de lei ao Congresso Nacional e três anos depois Aureliano foi nomeado professor da escola que deu origem à universidade, criada em 2002.

Em terra de políticos espertos, Dilma não quis falar sobre a eleição de 2014, na qual terá Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, entre os competidores. O governador Anastasia pode ser candidato ao senado, com apoio de Aécio, que vai lançar um candidato ao governo de Minas, pelo PSDB – provavelmente, o ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga –, para concorrer com o ministro Fernando Pimentel. Dilma está bem na pesquisa Datafolha divulgada no último fim de semana, e não quer ser vista como uma candidata de “salto alto”.

Em agosto, Dilma esteve em Varginha, para a inauguração do campus avançado da Universidade Federal de Alfenas. Mesmo viajando muito – só em Minas, foram quatro visitas neste ano –, ela garantiu que se dedica apenas a governar o país. Mas aconselhou as pessoas que querem concorrer ao cargo de presidente da República:  têm de se preparar, estudar muito, ver quais são os problemas do Brasil – e apresentar propostas.

Esse aí não é um mau conselho.

Pena que ninguém aconselhou Dilma Rousseff a não gastar seu prestígio inaugurando uma fábrica de Robson Andrade em Varginha. Desde que ele assumiu a presidência da Federação das Indústrias (Fiemg), no começo de 2002, sua empresa deu um salto extraordinário. No ranking das 400 maiores empresas de Minas em 2000, publicado no dia 20 de setembro de 2001 pelo jornal “O Tempo”, a Orteng aparecia em 156º lugar, com receita líquida de R$ 35,389 milhões e patrimônio líquido de R$ 11,4 milhões. O lucro líquido era de R$ 1,875 milhão.

Hoje o grupo é formado por seis empresas que devem faturar neste ano R$ 588 milhões e lucrar R$ 83 milhões, com previsão de elevar o faturamento a R$ 1,5 bilhão em 2016.

A Orteng não parou de crescer quando Robson foi eleito presidente da CNI. O impulso veio de empréstimos de bancos oficiais e de órgãos como a Finep.

Robson Andrade conseguiu muito, porque não criticava o governo. Com o governador Aécio Neves, fez uma espécie de parceria. Conseguiu livrar a Fiemg do Programa Estrada Real, criado pelo antecessor, Stefan Salej, para incentivar o turismo com recursos privados. Foi transformado em Programa do Governo de Minas e até patrocinou o carnaval carioca, em determinado ano.

Uma das empresas compradas pelo grupo empresarial de Robson foi a Balteau, uma empresa belga que chegou a Itajubá na década de 1970, atraída por incentivos do governo de Minas e pela tradição do município no ensino de engenharia elétrica. Antes de a Balteau ser comprada em 2006 por Robson, ela havia sido vendida para o grupo francês Alstom.

Para impulsionar a fábrica de Itajubá, em agosto do ano passado o governador Antonio Anastasia e o presidente da Fiemg, Olavo Machado Júnior, assinaram um protocolo de intenções para o desenvolvimento de implantação pelo Senai, em parceria com a CNI, de um laboratório de testes de alta tensão e alta potência, em Itajubá.

Investimentos previstos de R$ 128,5 milhões. Declarou na época o governador, que nesta semana esteve com Dilma e Robson Andrade:

“Essa parceria é fundamental. Teremos um laboratório de altíssima tecnologia que irá, a partir de 2016, quando ele estiver pronto, servir a Minas e ao Brasil. Em Itajubá, estamos concluindo o parque tecnológico, também com o objetivo de agregar conhecimento, que vem da universidade para passá-lo para o setor privado. Já temos parques em Viçosa e Belo Horizonte e, brevemente, em Lavras”.

Com padrinhos fortes (além de Dilma, Aécio e Anastasia, não se pode esquecer de Pimentel, que foi consultor da Fiemg depois de deixar a prefeitura de Belo Horizonte, numa história ainda nebulosa), Robson Andrade talvez não tenha o mesmo destino de Eike Batista, que também cresceu muito rapidamente usando recursos públicos. Seu endividamento, em julho passado, era de R$ 300 milhões. Naquele mês, no dia 8, o jornal “Valor Econômico” publicou esta notícia:

“Os donos da Orteng, empresa mineira de sistemas de engenharia e automação, que concorre com a catarinense WEG e com multinacionais como a Siemens e Alstom, querem vender parte da companhia para um sócio estratégico ou para um fundo.

Os contatos com potenciais investidores já começaram a ser feitos por meio de um banco estrangeiro. A decisão dos acionistas é manter o controle da companhia. “A participação de um sócio estratégico ou de um fundo certamente fará com que a empresa alcance mais rapidamente esse crescimento que nós planejamos, tanto do ponto de vista do faturamento quanto do ponto de vista de novas tecnologias”, disse ao ‘Valor’ Robson Andrade, um dos donos do grupo e também presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Além da busca por um investidor, os acionistas preparam outro movimento: um aumento de capital que será aportado entre agosto e novembro. O valor ainda não está fechado, mas, segundo Andrade, será entre R$ 85 milhões e R$ 100 milhões. Parte desses recursos servirá para abater financiamentos com custos mais elevados — a dívida total está na casa dos R$ 300 milhões, o que representa 2,9 vezes o Ebitda — e parte para dar gás ao desenvolvimento de novas tecnologias de produtos e serviços.”

Pois é. O impulso para que os planos anunciados dê certo pode ter sido dado nesta semana, em Itajubá. Discretamente, como preferem os políticos e empresários mineiros de sucesso.