Dos dois tipos de seres humanos que existem

Sobe no tamborete e tem vertigem de altura…

Parei o carro num posto de gasolina perto da saída da cidade, para ouvir as pessoas que iam enfrentar o congestionamento em busca de um descanso distante durante o feriado. Abordei os motoristas educadamente, sempre me apresentando como repórter e perguntando se eles queriam dar entrevista. A maioria (se não todos) foi muito solícita, riu quando eu falei o teor da reportagem, deu de ombros ao dizer que gastou mais de uma hora pra cruzar a cidade e ao prever que ainda gastaria mais de 4h até o litoral.

Tudo ia bem, numa pauta mais que corriqueira, até que uma mulher uniformizada se aproximou:

— Quem te deu autorização para abordar as pessoas no posto?

— Uai, eu pergunto às próprias pessoas se elas querem falar.

— Não, não é assim. Tem que chegar e pedir autorização ao responsável pelo posto… Blablablablablablabla (e saiu desfiando todo um rosário de babaquices, do jeito mais sem educação do planeta).

Surpresa, já que eu nunca tinha recebido tantas patadas gratuitas durante uma pauta tão inocente, resignei-me:

— Quem é o responsável por este posto, para eu pedir autorização?

Ela sorriu, vitoriosa:

— Sou eu mesma.

Inacreditável.

— Você me autoriza a continuar meu trabalho, então?, perguntei.

— Pode. (Ainda sorrindo, dona do mundo.)

Fico com dó dessas pessoas. Devem ter a autoestima tão prejudicada, que precisam mostrar, a qualquer oportunidade, que são elas-quem-mandam-ali.  São da mesma laia daqueles que arrotam para um guarda de trânsito: “Sabe com quem você está falando?” O prazer maior delas é mostrar que têm autoridade, mesmo que seja uma autoridade tão imbecil como deixar uma repórter conversar com motoristas enquanto eles esperam o tanque do carro encher.

Eu costumo dizer que há dois grupos de seres humanos no universo: os que viram chefes e continuam como sempre foram e os que, só por virarem chefes de algo, mesmo que de uma equipe de dois estagiários, transformam-se em supremos babacas.

Tive sorte com a maioria dos chefes da minha vida. O mesmo não podem dizer aqueles pobres frentistas do posto.

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