Famiglia Mancini: nesta rua, nesta rua tem um restaurante italiano fartíssimo

Foi logo que me mudei para São Paulo, há quase cinco anos, que descobri essa rua toda colorida, luzinhas penduradas como em festa junina, asfalto pintado de vermelho e muitas árvores pelas calçadas. Eu estava numa pauta e o motorista do jornal entrou naquela rua e minha primeira reação foi pensar “não pode entrar aí, moço. É um calçadão. Não é permitido a nossos carros transitar por um lugar tão bonito e diferente no centro de São Paulo”. Mas, opa: o semáforo funcionava, outros carros vieram atrás. Aprendi o nome na placa: Avanhandava.

Demorei um pouco mais pra aprender por que aquela rua era daquele jeito. O que ela tinha de especial que outras ruas não pudessem ter também? O que justificava o preconceito? Descobri, então, que ali funcionava um restaurante, o Famiglia Mancini, que sempre ganha os prêmios de “melhor comida italiana” da cidade. E olha que o que não falta em São Paulo é cantina com a bela gastronomia dos italianos. Mas não sabia muito mais que isso. Devia ser caro. Eu não tenho grana. Então, passava sem parar.

(Nesse meio-tempo, conheci o Bixiga, também na Bela Vista, não muito longe da Avanhandava. Bixiga da Vai-Vai, que adotei como escola de samba, já que nunca tive uma (um dia escreverei sobre isso). Bixiga de cantinas muito divertidas, com tiozinhos batendo panelas, cantando músicas italianas banhados de suor, rosto vermelho, do calor e do vinho “da casa”. Bixiga de cantinas muito espremidas, geralmente muito quentes, portanto ideais para o inverno. Adorei o Bixiga, moraria fácil ali. Descobri a Capuano, a cantina mais antiga em funcionamento em São Paulo, e a adotei para ser o lugar de levar os amigos que viessem me visitar e quisessem conhecer o Bixiga. Nem sempre ela é boa como foi no dia em que a conheci, mas ainda mora no meu coração.

Avanhandava nem me passava pela cabeça, mesmo sendo a Capuano também geralmente cara.)

Assim foi, até que nesta semana, uma das minhas últimas como moradora da Terra Cinza (calma, leitores mais fiéis, vocês logo serão postos a par disso, num post em breve), fui finalmente conhecer a Famiglia Mancini, acompanhado de dois queridos amigos que vieram me visitar.

Diz-se que o tempo de espera, a qualquer dia e horário e condição climática, varia de 30 minutos a uma hora. Demos nossa primeira sorte: esperamos menos de dois minutos até que uma mesa para seis pessoas vagasse.

Entramos. E logo nos fartamos de ver mil imagens, badulaques e enfeites de toda ordem, nas paredes, nos tetos, forrando a casa do chão ao telhado. É uma inundação visual, quase poluição, não fosse tão italiana. Ambientação imediata.

O atendimento é bom, o garçom logo sugere um vinho — R$ 59, tinto, seco, leve e o mais barato da carta, onde há até um vinho de mais de R$ 1.000 –, logo traz o cardápio e a cesta de pães quentinhos. Em vez de virem com os antepastos tradicionais, dois patês e uma manteiga e tal, somos informados sobre toda uma mesa self-service com mil opções de queijos, frios, patês e outras delícias, pesadas à parte. Comemos loucamente, à espera dos amigos que ainda chegariam.

Quando chegam, pedimos um penne à siciliana (com iscas de filé, alcaparras e manjericão, bom pra danar), mas mal consigo comer, de tão cheia que já estou. O casal de amigos pede também nhoque e filé à parmegiana. Os pratos são fartos como a decoração, servidos em travessas, suficientes para duas a três pessoas (ou quatro, caso já estejam lotadas de antepasto).

No fim das contas, todos já devidamente inchados de tanto comer e beber, horas e horas de conversa em voz alta, a conta que chega não é a mais cara do mundo, ainda mais considerando os excessos cometidos (quatro garrafas daquele vinho). Daria uns R$ 85 pra cada, se tivéssemos dividido igualmente por pessoa. Caro, OK, mas para o tanto consumido, para aquele ambiente e comparando-se com esses D.O.M. da vida, em que a conta sai a uns R$ 1.000 por casal por bem menos, está bom demais. Para ocasiões especiais, para estar com os amigos e com a “famiglia” num almoço de sábado, com certeza.

Saio de São Paulo com uma lembrança a mais pra guardar. E esta recomendação. Vá você com seus amigos falantes, com sua câmera fotográfica e com seu estômago bem vazio. E farte-se!

***** (ótimo)

$$$$ (de R$ 75 a R$ 100 por pessoa)

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