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A surpresa dos patetas na faixa de pedestres (e o futuro no País das Maravilhas?)

Duas patetas atravessando uma das faixas de pedestre imensas do Viaduto do Chá, em SP (2008).

Memória é um trem engraçado.

A minha lembra direitinho, como se fosse ontem, meu pai relatando que, naquele dia, há vários anos, ele estava dirigindo por uma rua da Savassi, bairro movimentado (de carros e de pedestres) em Beagá, quando viu uma faixa de pedestres sem semáforo.

Viu também que havia trocentos pedestres à espera de uma brechinha para atravessar, mas nenhum carro parava.

Seguindo o que já está previsto no Código de Trânsito Brasileiro desde sempre (o de 1998 só atualizou uma norma de bom senso eterno), ele freou.

Os pedestres atravessaram, felizes e saltitantes — como as duas patetas da foto acima (eu e uma amiga que não sabe que está sendo exposta no meu blog) — e os carros de trás, que formaram uma fila, começaram um buzinaço.

Mas a recompensa que meu pai ganhou e dividiu conosco em seu relato que me marca até hoje superou em muito a aflição dos carros impacientes atrás: todos os pedestres do entorno, que eram muitos, começaram a aplaudir.

Achei muito inusitado que uma pessoa que cumpre uma norma velha e banal do código de trânsito tenha que ser recebida com urros de motoristas e aplausos de pedestres.

Deveria ser algo tão natural quanto saber que é preciso parar no sinal vermelho e avançar no verde. Ou, desde mais recentemente, que é preciso usar cinto de segurança (pelo menos é natural aos passageiros dianteiros).

Acontece que não é. Nunca foi. Vivemos numa sociedade que vangloria os carros e não está nem aí para os pedestres (e ciclistas e motociclistas e skatistas e whatever além dos carros). Achamos natural ver passarelas pela cidade? E as faixas de pedestre, quantas vocês veem em bairros mais periféricos (onde há mais atropelamentos, diga-se)? O semáforo do pedestre demora quantos por cento do tempo do semáforo de carros, mesmo nas ruas mais movimentadas? E assim seguem as perguntas retóricas inúteis.

São Paulo está em sua terceira semana de multa aos motoristas que não fazem como meu pai fez, depois de mais de três meses de campanha (não diria maciça, porque não foi à TV ainda). E ainda é raro ver um carro parando pra gente passar.

Como mensurar a raridade da coisa? Basta ver se a surpresa ainda perdura, se ainda sentimos vontade de aplaudir ou fazer uma pequena reverência ao simpático motorista cumpridor das normas do trânsito, ainda maior caso ele esteja fazendo de livre e espontânea vontade (sem a livre e espontânea pressão do agente de trânsito postado em local visível).

Hoje pararam pra eu atravessar e, inconscientemente, fiz um jóia para ele, agradecendo. Outro dia um carro parou em pleno sinal verde (o que é desnecessário), o que mostra o desconhecimento que ainda existe sobre o que manda a lei. Mas os pedestres fizeram o jóia pra ele, o carro atrás não buzinou e me senti no País das Maravilhas.

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

14 comentários em “A surpresa dos patetas na faixa de pedestres (e o futuro no País das Maravilhas?) Deixe um comentário

  1. Como motorista, tenho parado sempre que necessário, mesmo quando não há marronzinhos por perto, o que parece ser regra para o pessoal parar. Ainda não ouvi gente cantando pneus ou buzinando atrás de mim, mas imagino que seja questão de tempo. Como pedestre, tenho sido até mais consciente. Se há sinal de pedestres, eu espero ficar verde (na maioria das vezes). Se não há, tento fazer valer o meu direito. Se não há marronzinhos por perto, é mais difícil. Mas no mínimo um motorista já foi multado por não me deixar passar. Não deve ter visto o agente na esquina. Outro dia encontrei um marronzinho e tirei algumas dúvidas com ele, porque li em mais de um lugar que mesmo com semáforo de pedestres estes teriam preferencial sempre, o que parecia — e é — uma incongruência. Eu queria ter certeza que eles sabiam disso. E sabem. Ou ao menos aquele sabe.

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    • Pelo que aprendi quando fiz curso de legislação de trânsito, o pedestre sempre tem preferência, depois o ciclista, depois o mototciclista, depois o carro, depois ônibus e caminhão – seguindo o tamanho dos veículos, o risco que oferecem e o bom senso.
      Mas o carro que não parar para o pedestre se houver semáforo (de pedestre) no local, não será multado. O pedestre tem que obedecer seu semáforo próprio. Se for uma faixa só com semáforo de carro, sem o de pedestre (comum em conversões), aí o carro é obrigado a parar, ou pode levar multa. Se não houver qualquer tipo de semáforo, idem. E mesmo se for uma via sem faixa nenhuma e sem semáforo nenhum, o carro tem que parar para o pedestre passar e pode ser multado caso não pare (ruas de bairro, não vias expressas).

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    • Aí você lê em sites e jornais que tem de dar preferência até quando o sinal está vermelho para pedestres e passa a questionar tudo o que aprendeu. Outra situação que o pessoal não deixa clara: faixas do outro lado do cruzamento com sinal para os carros. Há gente parando ali, o que não se deve fazer. Já na conversão, no mesmo cruzamento, aí, sim. Mas não quem vai seguir em frente.

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      • Sim, o pessoal está muito confuso. Como isso nunca foi cobrado, nem em exame do Detran, nem pelos multadores da cidade, as lições de legislação passavam batido. É como o cara que vi parando com o sinal verde pra ele, na situação mais surreal. Mas acredito que as pessoas aos poucos vão se educando e aprendendo. A prefeitura, pelo menos, está com a faca e o queijo na mão. Tem que martelar as regras na TV, no rádio, em todos os lugares. Não adianta só fazer uma campanha de 3 meses, multar e depois desperdiçar todos os esforços pra não dar em nada.

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  2. Também já passei pela mesma situação que passou seu pai; fui xingado pelos motoristas de trás. A ordem de preferência que você listou está correta, e a razão também. O que os motoristas precisam entender, como em outros lugares já entendem, é que a faixa do pedrestre é uma extensão da calçada, que poderá ser utilizada pelos veículos, quando não estão sendo utilizadas pelos pedestres. Simples assim.
    Abraços, Cristina.

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      • Na verdade não seria necessário qualquer agradecimento, como sinalizar com o joinha, porque é um direito do pedestre e uma obrigação do motorista (lembre-se que o carro é conduzido por um pedestre que está motorista), mas, é uma boa menifestação de reconhecimento ao seguidor das normas e contribui muito para apaziguar o ânimo no trânsito. É um bela atitude de boa vizinhança.

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  3. Eu sempre faço o joinha! Gostaria de não precisar fazer, mas realmente me sinto agradecido quando um carro me “deixa” passar. E nunca tinha parado pra pensar que isso é algo “estranho”. Gostei mto do post!

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  4. Não tem tanto a ver assim com o post, mas enfim…. achei muito interessante a parte em que vc menciona o “espanto” com “obrigações” das pessoas. É a mesma coisa quando alguém devolve um dinheiro que achou. Eu acho muito triste isso ser visto como ato heróico e que até vira notícia, já que a pessoa só cumpriu com um dever. Infelizmente, as coisas estão assim em várias esferas.

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