
Memória é um trem engraçado.
A minha lembra direitinho, como se fosse ontem, meu pai relatando que, naquele dia, há vários anos, ele estava dirigindo por uma rua da Savassi, bairro movimentado (de carros e de pedestres) em Beagá, quando viu uma faixa de pedestres sem semáforo.
Viu também que havia trocentos pedestres à espera de uma brechinha para atravessar, mas nenhum carro parava.
Seguindo o que já está previsto no Código de Trânsito Brasileiro desde sempre (o de 1998 só atualizou uma norma de bom senso eterno), ele freou.
Os pedestres atravessaram, felizes e saltitantes — como as duas patetas da foto acima (eu e uma amiga que não sabe que está sendo exposta no meu blog) — e os carros de trás, que formaram uma fila, começaram um buzinaço.
Mas a recompensa que meu pai ganhou e dividiu conosco em seu relato que me marca até hoje superou em muito a aflição dos carros impacientes atrás: todos os pedestres do entorno, que eram muitos, começaram a aplaudir.
Achei muito inusitado que uma pessoa que cumpre uma norma velha e banal do código de trânsito tenha que ser recebida com urros de motoristas e aplausos de pedestres.
Deveria ser algo tão natural quanto saber que é preciso parar no sinal vermelho e avançar no verde. Ou, desde mais recentemente, que é preciso usar cinto de segurança (pelo menos é natural aos passageiros dianteiros).
Acontece que não é. Nunca foi. Vivemos numa sociedade que vangloria os carros e não está nem aí para os pedestres (e ciclistas e motociclistas e skatistas e whatever além dos carros). Achamos natural ver passarelas pela cidade? E as faixas de pedestre, quantas vocês veem em bairros mais periféricos (onde há mais atropelamentos, diga-se)? O semáforo do pedestre demora quantos por cento do tempo do semáforo de carros, mesmo nas ruas mais movimentadas? E assim seguem as perguntas retóricas inúteis.
São Paulo está em sua terceira semana de multa aos motoristas que não fazem como meu pai fez, depois de mais de três meses de campanha (não diria maciça, porque não foi à TV ainda). E ainda é raro ver um carro parando pra gente passar.
Como mensurar a raridade da coisa? Basta ver se a surpresa ainda perdura, se ainda sentimos vontade de aplaudir ou fazer uma pequena reverência ao simpático motorista cumpridor das normas do trânsito, ainda maior caso ele esteja fazendo de livre e espontânea vontade (sem a livre e espontânea pressão do agente de trânsito postado em local visível).
Hoje pararam pra eu atravessar e, inconscientemente, fiz um jóia para ele, agradecendo. Outro dia um carro parou em pleno sinal verde (o que é desnecessário), o que mostra o desconhecimento que ainda existe sobre o que manda a lei. Mas os pedestres fizeram o jóia pra ele, o carro atrás não buzinou e me senti no País das Maravilhas.





Deixe uma resposta