O dia nacional do maior sofredor do Brasil

Ilustração de Robert Crumb, que saiu no "Estado de S. Paulo" em 21.6.1986: http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19860621-34143-nac-0047-cd2-1-not

Ilustração de Robert Crumb, que saiu no “Estado de S. Paulo” em 21.6.1986: http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19860621-34143-nac-0047-cd2-1-not

Anteontem foi comemorado o dia do ser que mais sofre no Brasil: o consumidor.

No Brasil é assim: você é atendido com a maior competência por um vendedor bem treinado e cordial, compra, leva o produto ou serviço e, quando esse produto ou serviço apresenta algum defeito ou problema (o que acontece com bastante frequência), você é empurrado para um atendimento obscuro, labiríntico, kafkaniano, com portas fechadas, jogo de empurra e falta de respeito, além de atendentes despreparados e mal treinados. Em suma, o investimento em pós-venda parece ser nulo. Daí você recorre ao agente regulador (Anatel, Banco Central, ANS, Anac etc), ao Procon ou à Justiça para tentar ver aquele problema finalmente resolvido e, só então, as empresas se desesperam para reparar a falha e não ficarem feias na fita. No meio do caminho, você perde tempo, dinheiro e saúde, se estressa e promete que nunca mais vai consumir naquele lugar — mas, no caso de telefonia, por exemplo, não encontra substituto que seja melhor, e acaba indo parar no mesmo labirinto de novo e de novo e de novo.

E o interessante é que esse purgatório é comum a qualquer um, de qualquer camada social ou poder aquisitivo. Tenho a impressão que os ricaços sofrem bem menos no atendimento bancário, por exemplo, mas certamente também enfrentam dor de cabeça com a operadora do celular. O purgatório do consumidor é democrático como uma caneta Bic.

Enfim, o consumidor, que é quase todo mundo, merece mesmo um dia para, ao menos, ser lembrado. Como este blog já abordou o desrespeito aos direitos do consumidor diversas vezes, vou dedicar este post a esses brasileiros sofredores — que sofrem, mas não se esquecem.

Não nos esqueçamos mesmo:

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Desenhos musicais

Estão vendo este livro aí? É sensacional.

Robert Crumb é um dos melhores desenhistas que tem por aí. O sujeito consegue fazer detalhes de expressões faciais, contrastes e sombras só com o preto e branco, sem nenhuma gradaçãozinha de cinza pra ajudar. Consegue fazer tanto o retrato perfeito de uma figura quanto a caricatura mais infantilizada de alguém. É ótimo no traço, enfim.

Pra melhorar, o cara é um pesquisador. Fuça em livros, em notícias e mergulha nos assuntos que lhe interessa como um verdadeiro historiador. Isso se traduz na redação das histórias.

Pra melhorar mais ainda, seu tema de paixão é o blues. Ele simplesmente adora aquela música negra dos anos 30 pra antes. O blues elétrico não serve, tem que ser aquele rural, acústico, só na base do violão e da gaitinha e da voz ritmada de algum negão do sul dos Estados Unidos, ou de Chicago.

E o resultado é esse livro maravilhoso, que ganhei de presente da turminha de amigos que fiz aqui em São Paulo que eu intitulo como “turma do blues”, reproduzindo o nome que dava ao grupo de Beagá que serviu de ponte para conhecer o grupo daqui, num festival de gaita de Campinas, em 2008.

Se você gosta de blues e de desenhos, sirva-se com gosto. Ao som do Charley Patton.

Por falar nele, terminemos esta segunda-feira braba assim:

(O desenho que aparece no vídeo é o retrato perfeito de Patton, feito pelo Crumb.)