‘Nasce uma Estrela’: Cinderela do universo pop musical

Assista se tiver tempo: NASCE UMA ESTRELA (A Star is Born)
Nota 6

No dia 6 de janeiro saberemos se Bradley Cooper conquistará seu primeiro Globo de Ouro como diretor em seu filme de estreia nessa função, “Nasce uma estrela”. O baita ator também concorre por seu papel na pele do músico Jack. E a cantora Lady Gaga concorre por sua atuação como Ally. Eles mereceriam uma das maiores premiações do cinema? De certa forma, sim. O problema de “Nasce uma estrela” não é a atuação dos dois ou a direção estreante de Cooper. É a história em si, que, apesar disso, tem tanto apelo que já está em sua quarta versão no cinema (a primeira, de 1937, que levou o Oscar de melhor roteiro; a segunda, de 1954, que teve Judy Garland como protagonista e seis indicações ao Oscar; e a terceira, de 1976, com Barbra Streisand no papel principal e Oscar de melhor canção original). Não sabemos ainda se esta versão de “Nasce Uma Estrela” será indicada ao Oscar, mas imagino que ao menos uma das várias canções originais compostas pela dupla Cooper-Gaga seja nomeada.

Mas, como eu ia dizendo, o problema deste filme, que me levou à mediana nota 6, não é nem a atuação nem a direção, mas a história em si. Digamos que a primeira metade do filme é tão enjoativa que a sensação não foi de dejá-vù com um filme, mas de já ter visto aquilo antes em dezenas de outras produções. Pra citar duas bem clássicas: Cinderela e Uma Linda Mulher. É aquela empoeirada história do homem bacanudo que meio que salva a donzela empacada em uma vida difícil. No caso, um super astro de rock dando um baita empurrãozinho na carreira de uma cantora de boteco drag, que não conseguia ir além.

Nesta metade do filme, somos bombardeados com frases de efeito, como as cenas de pessoas dizendo que Ally tem algo a dizer, que as pessoas querem ouvir a mensagem que ela quer passar etc. Tudo com músicas pop que considero apenas medianas, para meu gosto pessoal (e que vão piorando à medida que Ally-Gaga vai ficando mais famosa, coincidência ou não). Não é como, digamos, em “La La Land“, que tem premissa parecida, mas lindas canções.

Mas a nota ao mesmo tempo acima da média se deve à segunda metade do filme, que trabalha com sensibilidade um tema árduo como o alcoolismo, drama presente também em muitos outros filmes, e que fez parte da vida pessoal de Bradley Cooper. O filme deixa de ser um conto de fadas para se tornar uma tragédia da vida moderna.

No fim das contas, provavelmente será mais um filme com estatuetas de prêmios importantes na prateleira, tanto por seus méritos quanto por seus defeitos.

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

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Homenagearam demais

Assista se tiver tempo sobrando: SNIPER AMERICANO (American Sniper)
Nota 5

sniper

É, não tem jeito. Os filmes que concorrem ao Oscar deste ano estão realmente bem mais fracos que os do ano passado. Até agora, com a exceção de “Boyhood” dentre os mais indicados, ainda não vi nenhum “Ela“, nenhum “Nebraska“, nenhum “Clube de Compras Dallas“, nenhum “Lobo de Wall Street” e aquelas outras belezuras de 2014. Mas tudo bem, sei que ainda tenho muito a que assistir para cumprir meu desafio.

“Sniper Americano” concorre a seis prêmios importantes, incluindo de melhor filme, melhor roteiro e melhor ator. Ok, Bradley Cooper merece concorrer ao prêmio de melhor ator. Ele já tinha mostrado seu talento em filmes como “O Lado Bom da Vida” e, desta vez, fazendo o papel de uma lenda da guerra, baseado na autobiografia de um personagem real, o franco-atirador Chris Kyle, ele também convence muito. Até engordou 18 kg, de puro músculo, para se agigantar como o militar e, quando chegou ao figurino final, com barba crescida e corte de cabelo da marinha, dizem que ele ficou tão parecido com o original que os amigos e parentes os confundiam.

Já dizer que “Sniper Americano” tem um dos melhores roteiros do ano é rir da nossa cara. O filme tem pouco mais de duas horas e parece ter bem mais, de tão arrastado. E olha que estamos falando de um filme de guerra e sobre um sniper: ou seja, com tiros pra todos os lados, fugas, cenas de ação. Poderia ter tido um roteiro mais interessante se a parte dramática da guerra fosse melhor explorada, se o trauma do personagem tivesse aparecido com mais destaque, se a vida familiar se entremeasse melhor às quatro participações e mais de mil dias na Guerra do Iraque. Mas não houve nada disso. Pelo contrário: o filme é tão nacionalista, que mesmo os momentos de fraqueza e agressividade do “herói” (que, em dado momento, mais parecia um psicopata, quase sem freio para cometer seus mais de cem assassinatos) passam voando, são logo “curados”, e ele volta a virar herói rapidinho. Enfim, é um típico filme-homenagem, a um personagem ultracondecorado e que morreu muito recentemente, então cai naquele erro de anular defeitos e construir a imagem de lenda a qualquer custo, mesmo ao custo da razoabilidade.

Depois li que o pai de Chris Kyle disse pessoalmente a Bradley Cooper e ao diretor Clint Eastwood que ele faria um escarcéu se a memória de seu filho fosse desrespeitada no filme, mas que o ator e o diretor eram “homens em quem ele podia confiar”. Enfim, já viram o naipe do texano, né?

Só não dou uma nota mais baixa porque, mesmo sem gostar muito de filmes de guerra, achei muito boas as cenas bélicas de “Sniper Americano”. Muito realistas, muito interessante ver tudo do ponto de vista de um sniper, com imagens aéreas marcantes e uma sensação de estar mesmo dentro do campo de batalha. Inclusive, uma das melhores cenas do filme ocorre dentro de uma tempestade de areia, que parece também nos cegar e sufocar.

E, no fim das contas, chega a ser um filme assistível, se você deixar de lado todo o seu senso crítico em relação à Guerra do Iraque e considerar como os norte-americano são, na maior parte das vezes, patriotas demais. Melhor sermos condescendentes e levarmos a sério a ameaça do Kyle pai, né? Afinal, foi ele que ensinou o filho a atirar…

Veja o trailer:

Leia também:

Mais pelo disco que pelo filme

Para ver no cinema: TRAPAÇA (American Hustle)

Nota 7

trapacaO que torna este filme legal, merecedor de sua nota 7, são esses dois atores aí em cima, que formam um casal atípico de trapaceiros (ou fraudadores, pra falar em bom Português). Sydney e Irving, interpretados respectivamente por Amy Adams (“Na Estrada“) e Christian Bale (“Psicopata Americano“), dão um show. São personagens sensacionais em sua falta de escrúpulos, daqueles que a gente simpatiza com facilidade, mesmo sendo bandidos. A recriação impecável dos charmosos anos 70 e a trilha sonora deliciosa — que inclui Duke Ellington, Frank Sinatra, Thelonious Monk, Ella Fitzgerald, Temptations, Elton John, Santana, David Bowie e Paul McCartney — são um espetáculo à parte.

Os dois, Adams e Bale, concorrem ao Oscar como melhores atores principais — merecidamente, embora acho que tenham chances nulas de levar a estatueta. E os dois atores coadjuvantes — a dupla já famosa Bradley Cooper e Jennifer Lawrence — também estão concorrendo em suas categorias. Aqui vai o parêntesis: apesar de eu adorar o trabalho de Lawrence e ter dito até que ela merecia muitos prêmios por sua atuação em “O Lado Bom da Vida” (em que ela contracena com Cooper e atua de novo sob a direção de David O. Russell), aqui, neste filme, ela está sendo, definitivamente, supervalorizada. Seu papel e sua atuação são caricatos e inverossímeis demais, o que fica óbvio na cena em que ela canta o clássico “Live and Let Die”. Vejam e tirem suas próprias conclusões 😉

Mas a nota minorada nem é por conta da mais nova queridinha da América. O que me irritou foi o final. Previsível, desses que a gente já viu em dúzias de roteiros de filmes do gênero. “Nove Rainhas“, pra ficar em um exemplo, daria um banho em “Trapaça” — mas passou longe de qualquer indicação ao Oscar, ainda mais de melhor filme. Mas, no fim das contas, é a melhor trilha sonora desde “Quase Famosos“, e agradeço os trapaceiros por me proporcionarem um clipe divertido para este fabuloso disco de jazz e rock.

A vida com direito a imperfeições

 

Para ver no cinema: O LADO BOM DA VIDA (Silver Linings Playbook)

Nota 9

ladobom

Ele ficou internado em um manicômio por vários meses e, sem o casamento, a casa e o emprego de antes, tem que recomeçar a vida após ser “libertado” pela sempre preocupada mãe. Sua obsessão, que guia cada um de seus passos, é recuperar o amor da esposa.

E aí mergulha em todos os livros que ela usou para ensinar na escola, começa a correr (envolto em um saco de lixo), para perder peso, quer se centrar, deixar o negativismo de lado etc.

Aos poucos vamos percebendo que esse discurso dele e toda a obsessão são parte de sua doença, diagnosticada tardiamente como transtorno bipolar.  A agressividade latente, a falta de freios na fala e o desespero quando não encontra a fita do casamento ou quando escuta uma música específica também são sintomas.

E esses pequenos sintomas dão um trabalho danado para os pais, interpretados pelos excelentes Robert De Niro e Jacki Weaver. Às vezes nos fazem pensar como eles dão conta do recado. Mas, aos poucos, vamos entendendo: é que ninguém é “normal”. E o Pat, com todos esses problemas, talvez seja tão “anormal” quanto todos os demais.

A atuação de Bradley Cooper (que faz o Pat), muito mais conhecido por filmes leves como “Se Beber, não Case”, está surpreendente, merecedora da indicação que levou. Ele convence como um “bipolar”, sem cair em excessos nem ficar caricatural, além de ser extremamente carismático. A de Jennifer Lawrence, que ganhou o Oscar de melhor atriz, está impecável (ela vai ser a Meryl Streep de sua geração). E todos os maravilhosos coadjuvantes, como os já citados que interpretam os pais de Pat e o sempre engraçado Chris Tucker, que faz o Danny, o mais “doidinho” dos amigos, ajudam a compor a história.

O filme tinha tudo para cair no simplismo de uma comédia romântica, mas vai muito além, ao abordar essa questão das doenças psicológicas. São citados, indiretamente, pelo menos os seguintes: TOC, depressão, ansiedade, consumismo, esquizofrenia e o transtorno bipolar. Os cérebros ao nosso redor são complicados, cheios de imperfeições. Mas é o fato de ninguém ser perfeito e a percepção que as pessoas vão ganhando disso que dá graça a esse filme. Os personagens mostram como o preconceito é burro e como é um imenso entrave para os relacionamentos de todos os tipos. No final, fica até fácil perdoar a tradução do nome para o português com o banal “O Lado Bom da Vida”. Realmente, o melhor lado da vida é este lado livre das amarras da perfeição.

***

Observação: Pela primeira vez, não ousei fazer as apostas do Oscar, como nos anos anteriores (aqui e aqui). É que neste ano não vi praticamente nenhum filme que concorria ao Oscar. Mas queria fazer alguns comentários sobre a premiação:
1) Não assisti a “Amor”, por exemplo, mas Jennifer Lawrence mereceu sua estatueta. Com apenas 22 aninhos, ela é a atriz mais promissora de Hollywood e ainda vamos ver muito seu nome por aí.
2) Argo é um filmaço, como já escrevi aqui, mas tenho dúvidas se mereceria o Oscar de melhor filme do ano.
3) Preciso urgentemente assistir a “As Aventuras de Pi”.