Pequenas coisas como estas, de Claire Keegan: leia minha resenha do livro

Cillian Murphy faz o papel de Bill Furlong, protagonista do livro e do filme "Pequenas Coisas como Estas".
Cillian Murphy faz o papel de Bill Furlong, protagonista do livro e do filme "Pequenas Coisas como Estas".

Em março do ano passado, fui ao cinema assistir ao filme “Pequenas Coisas como Estas“. Eu estava esperando um filme excepcional, tanto pelo trailer, quanto pela atuação do vencedor do Oscar Cillian Murphy (de Oppenheimer). Mas lembro que saí da sessão desapontada, dando no máximo uma nota 7.

Eu nem sabia que ele era uma adaptação do livro de mesmo nome publicado pela escritora irlandesa Claire Keegan em 2021, finalista do International Booker Prize no ano seguinte, vencedor do Orwell Prize e ainda incluído na lista dos 100 melhores livros do século 21 do New York Times.

Também não sabia nada sobre esta escritora, que já tinha chegado ao Brasil, em 2023, por meio do lindíssimo filme “A Menina Silenciosa” (indicado ao Oscar naquele ano), baseado em seu livro “Foster“.

Tampouco li “Foster”, mas deu pra ver que o filme captou muito bem a poesia da escrita de Claire Keegan, diferentemente do filme mais recente.

Ah, como eu queria ter lido “Pequenas Coisas Como Estas” antes de ter visto o filme…! Teria me maravilhado ainda mais com o jeito de seu protagonista, Bill Furlong, pensar sobre a vida. Com o jeito de ele enfrentar os próprios dilemas morais e ir construindo argumentações lógicas para agir como agiu ao fim do livro, inspirado em sua própria vivência desde a infância.

Enquanto eu lia esse livreto curto e encantador, me ocorreu que aquela narrativa, que se passa em 1985, me lembrava autores muito mais antigos. Ao ver agora a sinopse publicada no site da editora, percebi a referência: ninguém menos que Charles Dickens.

Talvez pela mescla de Natal com neve com carvão… Como já li “Conto de Natal” umas mil vezes (mais precisamente, quatro vezes), a sombra desse clássico pode ter passado pela minha cabeça algumas vezes.

Foi o mesmo paralelo que construiu o New York Times, como mostra a citação copiada naquela sinopse:

“Nenhuma palavra é desperdiçada na pequena e polida joia de romance de Keegan, uma espécie de miniatura dickensiana centrada no filho de uma mãe solteira que cresceu e se tornou um respeitável comerciante de carvão e madeira com uma família própria na Irlanda de 1985.”

Por outro lado, o livro retrata uma situação que não parece se passar nem em 1985 nem na era de Dickens, mas muito antes, na Idade Média. Como continuou o jornal:

“Moralmente, porém, poderia muito bem ser a Idade Média enquanto ele se depara com os crimes contínuos da Igreja Católica e as tragédias cotidianas causadas pela repressão, medo e hipocrisia grosseira.”

Acho que não gostei tanto do filme por ter deixado esses crimes muito explícitos. No livro, a narração “sugere muito mais do que explicita” e “nega muito mais do que afirma”, como diz o texto da professora e pesquisadora Maria Rita Drumond Viana, na orelha da publicação.

Vemos o personagem se debater entre a vontade de agir conforme sua consciência ou se submeter ao silêncio conivente da comunidade altamente católica ao seu redor.

Em trechos como estes:

“Em pouco tempo, ele voltou a si e concluiu que nada se repetia; cada um recebia dias e oportunidades que não voltariam.”

*

“As pessoas podem ser boas, Furlong lembrou a si mesmo enquanto dirigia de volta para a cidade; era uma questão de aprender a administrar e equilibrar o dar-e-receber de maneira que te permitisse ficar bem com os outros e também com os seus. Mas assim que o pensamento lhe ocorreu, ele se deu conta de que o próprio pensamento era privilegiado (…). O Natal sempre trazia à tona o melhor e o pior das pessoas.”

*

“(…) ele se viu perguntando a si mesmo se fazia sentido estarem vivos sem ajudarem uns aos outros. Seria possível seguir em frente pelos anos, décadas, por uma vida inteira, sem ter por uma única vez coragem suficiente para ir contra o que estava lá e ainda se chamar de cristão e se olhar no espelho?”

*

“Pensou na sra. Wilson, em suas gentilezas diárias, em como ela o corrigira e encorajara, nas pequenas coisas que ela dissera e fizera e se recusara a fazer e dizer e o que ela devia saber, as coisas que, quando somadas, equivaliam a uma vida.

*

Não sei se me fiz entender, mas este livro é, realmente, uma pequena preciosidade. Um livro com mais silêncios que palavras, assim como naquele “A Menina Silenciosa”, e que consegue abordar um problema gravíssimo, um crime reiterado da Igreja Católica, de um jeito simples, prático e poético ao mesmo tempo.

É como se a autora estivesse nos lembrando que todos nós, seres humanos comuns, temos o poder de tomar providência sempre que vemos algo errado à nossa frente. Não precisamos ficar sempre esperando por uma entidade superior para resolver alguma desgraça – o Estado, a Justiça, qualquer outra instância de Poder –, podemos nós mesmos ir lá e dar a mão a alguém, e fazer a diferença na vida dessa pessoa.

Não precisamos de uma solução definitiva e grandiosa: pequenas coisas como estas, pequenos gestos, também são capazes de ajudar.

No caso específico desse livro, a desgraça abordada são as chamadas “lavanderias de Madalena”, instituições que existiram na Irlanda por décadas, até 1996, financiadas pela Igreja Católica em conjunto com o Estado irlandês.

Estima-se que 30 mil meninas e mulheres tenham sido “escondidas, encarceradas e forçadas a trabalhar” nesses lugares, como diz uma nota, também sucinta, que a autora colocou no final de seu livro. Milhares de bebês dessas mulheres acabaram morrendo ou foram adotados sem conhecimento ou permissão de suas mães (como retratado em outro excelente filme, Philomena, baseado em fatos reais). Elas próprias, em muitos dos casos, não sobreviveram.

Mas a questão abordada por este livro é mais universal do que particular, como acontece com os bons clássicos (inclusive os de Dickens). Porque nos leva a refletir sobre como qualquer um de nós poderia eventualmente agir como Bill Furlong. Se não diante de uma crueldade já extinta, talvez diante de tantas outras, que permanecem em nosso mundo e em nosso tempo, infelizmente firmes e fortes, porque ninguém faz nada para detê-las.

“Se você quer progredir nesta vida, há coisas que deve ignorar”, diz uma personagem. Mas será que isso é o CERTO a se fazer?

Não deixem de ler “Pequenas Coisas como Estas”. É um livrinho pequeno, curto, conciso e preciso, mas que já nasceu grande.

 

Pequenas coisas como estas, de Claire Keegan“Pequenas Coisas como Estas”
Claire Keegan
Editora Relicário
125 páginas
R$ 40,73 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)

***

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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