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‘Belfast’: um filme lindo e cheio de memória afetiva

Vale a pena ver no cinema: BELFAST
Nota 10

 

“Belfast” não tem este nome à toa. Do início ao fim, da escolha dos atores à trilha sonora, o filme inteiro é uma homenagem, uma dedicatória, à capital da Irlanda do Norte. Não se trata apenas de um cenário. A cidade pulsa na vida de todos aqueles personagens – naqueles que ficaram, nos que se foram, nos que morreram no meio do caminho.

O diretor e roteirista Kenneth Branagh faz um filme de memória, da sua memória. Preto e branco como as memórias mais duras de nossas infâncias. Ele conta o que viu e viveu quando tinha 9 anos de idade, em plena guerra civil (se bem que o retratado no filme não é uma guerra, mas ataques covardes de grupos fanáticos de protestantes contra católicos).

“Claro, só existe uma resposta certa”, diz Buddy – Branagh quando criança – a seu avô. E este responde, sabido: “Se isso fosse verdade, as pessoas não estariam se explodindo por todo canto”. (Isso te lembra Rússia e Ucrânia? Judeus e palestinos? Escolha sua guerra de estimação e aplique esta frase).

Buddy e seus avós.

A estupidez típica das guerras – ainda mais estúpidas quando são motivadas pelo fanatismo religioso, penso eu – é amenizada pela memória afetiva adocicada da criança. Que sente a preocupação dos mais velhos, mas não entende tudo. E lembra com carinho dos presentes de natal, das idas ao cinema, das tardes com os avós, das brincadeiras nas ruas, a namoradinha na escola.

Quem interpreta o Buddy é o estreante Jude Hill. E não é que ele seja um ator sempre excepcional: o diretor é que foi esperto ao filmar o garoto muitas vezes em cenas espontâneas, sem saber que estava sendo filmado. E assim capturou aqueles olhinhos assustados, ou brilhantes, aqueles sorrisos e gritinhos que só as crianças sabem fazer.

Essa memória, esse tributo que Branagh presta a uma dureza vivida por tantos que ele ama também é sentida pelos demais atores do filme. Isso porque, assim como ele, Ciarán Hinds, que concorre ao Oscar de melhor ator coadjuvante, nasceu em Belfast. Jamie Dornan, que interpreta o pai de Buddy, também é de lá. Caitriona Balfe, que faz a mãe, é de Dublin. A veteraníssima e também indicada ao Oscar Judi Dench é inglesa, mas foi criada por um tempo na Irlanda e tem vários parentes ainda morando lá.

 

A família inteira vendo um filme no cinema, em 1969.

 

Talvez isso tenha contribuído para que todos encarnassem com tanta alma o dilema dos que precisam criar coragem para abandonar seus lares e mudar de país durante um período de violência como aquele. E ainda com a trilha sonora de Van Morrison, outro nativo de Belfast, que concorre ao Oscar com a canção “Down to Joy“.

O resultado é um filme lindo, lindo. Em todos os sentidos. Das cenas em P&B às atuações marcantes, ao roteiro cuidadoso, às canções. Difícil não compará-lo com “Roma*, em que o mexicano Alfonso Cuarón dirige e escreve o roteiro, da mesma forma que Branagh, remetendo a suas memórias de infância. Aquele filme foi indicado a 10 estatuetas, levou 3. Este “Belfast” foi nomeado em 7, também incluindo de melhor filme do ano, melhor direção e melhor roteiro original, que são as três principais. E tem chances reais de ganhar todas elas.

 

Assista ao trailer legendado:

*Outra boa comparação que me veio à mente depois de publicar este post foi com o lindo “Minari“, do diretor  Lee Isaac Chung, que também trata do olhar da infância sobre uma memória afetiva difícil, e ainda fala de imigração. Filmaço do ano passado!

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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