Um mês depois de ter sofrido um golpe de Estado, depois revertido após pressão do povo, o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, concedeu uma entrevista ao jornal ‘OPasquim21’, em que falou sobre seu governo, o Brasil e o papel da imprensa; relembre
Texto escrito por José de Souza Castro:
Houve tempo em que eu colecionava “O Pasquim“, jornal que li desde o primeiro número, como a maioria dos colegas e professores da escola de jornalismo da UFMG. Infelizmente, joguei fora a coleção. O mesmo não fez a Cris com sua coleção de “OPasquim21”, cujo primeiro número foi lançado em 19 de fevereiro de 2002 por Ziraldo e outros colaboradores do velho Pasquim.
A coleção dela estava numa esquecida pasta escolar no armário também esquecido do quartinho. O número 2 trazia uma entrevista exclusiva de Lula. No seguinte, retrato de Jacopo Palma, uma pintura feita em 1590. Um italiano sósia do então candidato à presidência da República pelo PT.

Embaixo do texto de Ziraldo explicando a ilustração surpreendente, OPasquim21 publica artigo exclusivo de Lula. Que começa dizendo que leu todas as edições do jornal, inclusive o número zero. “Vocês são uns bons gozadores – e por isso mesmo estão de parabéns”, diz. “Até quando erram na transcrição das fitas gravadas durante a entrevista comigo criam situações engraçadas e excepcionais”.

Mas o que me chamou mais atenção foi a entrevista com Hugo Chávez, na qual o Editor-Superintendente Ziraldo, o jornalista da Fundação Oswaldo Cruz e do Pasquim Caco Xavier, além de Joaquim Palhares, diretor da agência Carta Maior e um dos fundadores da ONG Media Watch Global (Observatório da Mídia Global), acabaram pintando um sósia político ainda mais surpreendente de Lula, o então presidente da Venezuela.
Que também demonstrou um bom senso de humor. Entrevista e ideias que me serviram, ao longo dos anos, para desprezar tudo que a grande imprensa dizia sobre Hugo Chávez. O termo fake news ainda não existia entre nós. Mas mentiras, sim.
Desde sempre, a semelhança mais evidente entre Lula e Chávez é que ambos representam o zé-povinho de seu país que a poderosa aristocracia branca despreza e não aceita que esses representantes governem. Daí os golpes, apoiados pela imprensa empresarial que também renega mestiços e paus-de-arara no poder.
Só lendo a entrevista soube que Hugo Chávez é um Frias, sobrenome da família proprietária do Grupo Folha. Quem fala tão mal desses Frias venezuelanos, como nossos Frias e seus colegas na imprensa, esconde até seu nome completo: Hugo Rafael Chávez Frias.
Se pudessem, ocultariam que ele se formou em 1975 na Academia Militar da Venezuela, era licenciado em Ciências e Artes Militares, Engenharia, e que organizou, em 1982, com outros capitães, o Movimento Revolucionário-200, que tem Simon Bolívar como referente e guia.
Dez anos depois, esse movimento lançou um golpe de Estado contra o governo de Carlos Andrés Péres, a pretexto de corrupção. Resultado do golpe: 17 soldados mortos e 50 feridos e dois anos de prisão para Chávez. Que, ao invés de tentar novos golpes, partiu para a luta política bolivariana, fundando o Movimento V República (MVR). Em 1998, eleito com 56,2% dos votos, se tornou o mais jovem presidente da República na história de seu país.

Não vou tratar aqui da história de Lula, bem conhecida, e sigo com a entrevista de Chávez, realizada no dia 15 de maio de 2002, um mês depois de sua prisão e da ameaça de ser jogado de helicóptero para morrer no mar. Os golpistas, que tinham anunciado que ele renunciara e fugira, não conseguiram resistir à gigantesca manifestação do povo nas ruas, assim que a mentira que o derrubara fora desmascarada.
“Eu devo a reversão desse golpe oligárquico à coragem do povo e ao apoio da imprensa mundial e à ação dos meios alternativos da Venezuela”, contou Chávez. “Na televisão, leram num papel: ‘Eu, Hugo Chávez, renuncio’. Foi importante dizer ao mundo que eu não havia renunciado, que era uma grande mentira”.
Disse que teve grande apoio dos militares que o mantinham prisioneiros no Forte Tiuna. “Um oficial me emprestou o telefone e eu pude fazer duas ligações, falei com minha mulher e minha filha. Eu lhes disse que não sabia o que ia acontecer comigo, mas que gostaria que elas dissessem a todos que eu não havia renunciado”, disse.
A filha ligou para Fidel Castro.
“Outro oficial, jovem”, continuou Chávez, “ao saber que eu não havia renunciado, pediu que eu escrevesse isso numa folha de papel, que ele levaria a todos. Eu estava escrevendo, e não havia terminado, quando vimos que chegava uma comissão de altos oficiais para dizer-me que eu seria levado à ilha de La Orchila. O rapaz, que é da minha terra, dos Lhanos [das planícies], disse-me que eu terminasse de escrever e que jogasse a mensagem na lata de lixo, e comprometeu-se a apanhá-la mais tarde. Depois que eu saí, ele voltou e cumpriu o prometido. Apanhou o papel, conseguiu um veículo, foi até a cidade mais próxima, tirou várias cópias e passou por fax para inúmeras pessoas. Envolveu sua mulher, que também começou a fazer cópias e a distribuir a mensagem por fax. Neste voo, de Tiuna a La Orchila, eu já não pensava em morrer, já não pensava que seria o último. Ao contrário, eu me sentia muito bem e muito fortalecido. Eu me sentia como Zaratustra descendo da montanha, estava seguro. Ali eu já sabia que ia voltar, eu sabia que ia voltar”.
Segundo Hugo Chávez, o golpe de Estado ocorreu porque a classe média venezuelana, sobretudo a alta, foi induzida pela mídia a acreditar que seria afetada pelo processo revolucionário “que visa a resgatar os direitos sem atropelar a ninguém”. A imprensa, já no começo do governo, três anos antes, estava implicada em criar um monstro*.
“A classe média tem ódio, um ódio irracional, e a maioria não sabe nem explicar o porquê. Entraram no Palácio com tal carga de ódio – e tudo isso foi transmitido pelos canais de televisão – que é impossível deixar de pensar que este ódio não tenha sido pacientemente construído ao longo de muito tempo“*, raciocina o entrevistado, que à noite viajaria para uma reunião de cúpula em Madri com a presença de presidentes europeus e latinos.
Hugo Chávez disse que as oligarquias venezuelanas têm uma história de apropriação da terra, do capital, dos meios de produção. E fundamentavam-se na miséria do povo. “O visionário Bolívar desejava estabelecer a união da América do Sul para equilibrá-la com a outra América”, afirmou. “Se essa ideia valia há 200 anos atrás, muito mais vigência tem hoje”, completou.
Na sua opinião, a integração pelo lado do neoliberalismo é impossível, “é uma integração para nos desintegrarmos, para sermos tragados. Assim como estamos é impossível, é totalmente ambíguo. Estamos cada dia menos integrados. O Mercosul cada vez menos integrado. Primeiro é preciso impor a vontade política dos líderes”, disse.

Nova Constituição revolucionária
Logo no começo do governo, a primeira providência de Chávez foi propor uma nova Constituinte, aprovada em 1999. Em 2000 foi o ano da relegitimação dos poderes e também o ano do aprofundamento do processo revolucionário.
“O Governo entregou 49 leis, uma por semana, todas ou quase todas com caráter revolucionário, do ponto de vista em que tocavam em questões cruciais da população venezuelana e da situação econômica e social. Havíamos feito uma Constituição maravilhosa, mas teríamos que cumpri-la se quiséssemos transformar o país”, frisou.
Uma das medidas era para deter o processo de privatização do petróleo, o principal recurso do país. “Naturalmente, as reações vieram como ódio e fúria, à altura dos interesses”.
O papel do Brasil e da imprensa
Quando Bolívar conduzia o processo de independência, ele tinha muitas reservas quanto ao Brasil, disse Chávez. “Claro, era um Império, período Bragança. Mas, ao final de seus dias, entendeu a importância do Brasil, sobretudo no sentido geopolítico. Em janeiro de 1830, em seu último ano de poder e de vida, recebeu um embaixador do Brasil, o primeiro que o Brasil enviava à Grã-Colômbia. Ele escreve uma carta ao Imperador, pedindo que reflita sobre essa claridade geopolítica que ele, visionário, já havia captado, sobretudo graças a um grande general brasileiro que lutou ao seu lado, Inácio de Abreu e Lima. Grande revolucionário socialista, pernambucano, que lutou com Bolívar até à morte, verdadeiro herói para nós e para o Brasil”, afirmou Chávez.
Demonstrando muito mais conhecimento desse herói brasileiro do que a maioria de nós, ele continuou: “Bolívar tinha em alta conta os meios de comunicação, e editou um jornal, o Correio do Orinoco, e Abreu e Lima era o redator e editor-chefe do jornal, que circulava em inglês, em francês e em espanhol, em todo o Caribe e na Europa. Sabe o que diz Bolívar, quando inauguraram esta gráfica velha, em meio à guerra? Disse: ‘A imprensa é a artilharia do pensamento‘.”
“Bolívar dizia, do Brasil, uma coisa mais ou menos semelhante”, continuou o entrevistado. “O Brasil é a melhor garantia que a Providência nos enviou para assegurar a continuidade à nossa nascente nação. E ele sabia que era um Império”.
Sobre os Estados Unidos, disse Chávez, Bolívar chegou a dizer, numa carta, “uma frase premonitória que se cumpriu tal e qual. ‘Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a infestar a América Latina de misérias em nome da Liberdade‘. Acerca do Brasil, hoje, em nossa ideia bolivariana, sou capaz de repetir a mesma frase que disse Bolívar ao Embaixador do Brasil, e alguns estão dizendo por aí que um golpe contra Chávez não seria apenas um golpe contra Chávez, mas que também objetivaria o Brasil. É apenas uma hipótese, claro, e eu não tenho elementos para sustentá-la. Isto é trabalho para analistas políticos”.
Depois dessa aula que causaria inveja ao então presidente Fernando Henrique Cardoso [mas não em Lula, que em 25 de abril de 2003, ao lado do presidente Hugo Chávez, inaugurou na Praça São José, no município de Abreu e Lima, a 30 km do Recife, os bustos em memória e homenagem ao general], o presidente venezuelano prosseguiu na sua análise:
“Eu creio que, como há 200 anos o eixo da liberdade para a América Latina foi Caracas-Bogotá, atualmente esse eixo será Caracas-Brasil. Por aí vai a cavalaria, a vanguarda, e isso tem preocupado a alguns. Nós, juntamente com o Brasil, país irmão, temos avançado tanto, tanto! Com Cardoso, no atual governo, temos avançado bastante. Pudéssemos ter avançado ainda mais, mas aí temos limitações de diversos níveis. O projeto que eu tenho posto é formarmos uma PetroAmérica, uma petroleira venezuelana-brasileira. E que mais adiante possamos buscar outros caminhos. Creio que é preciso pensar outros modelos de integração que não aqueles exclusivamente pelo mercado. Um modelo de integração onde participem os povos, os jovens, os camponeses, os trabalhadores, os partidos políticos, as cidades. Nós temos vivido segundo um modelo econômico colonial, somos grandes exportadores de matéria-prima. Nós somos um grande produtor de alumínio, matéria-prima, e o vendemos. Eles constroem os navios e nos vendem. Nosso alumínio se vai, eles fazem os barcos e nos vendem. Extração de matéria-prima, modelo econômico colonial“.
E não parou aí:
“Nós vendemos petróleo cru para boa parte do mundo. Podemos fazer uma PetroAmérica: Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador, México. Imagina o poder que uma companhia assim, estatal, multinacional, não teria! Penso assim, numa multinacional envolvendo estes estados. Veja como não é difícil sonhar com isso: há três países, Colômbia, Brasil e Venezuela, que produzem grandes quantidades de petróleo, e há outros três (Equador, México e Bolívia) produzindo gás. Eu jamais deixei de dizer que acredito muito na relação entre Brasil e Venezuela como sendo um dínamo, um ponto de ligação, um motor para a integração da América do Sul. O norte do Brasil e o sul da Venezuela são um bloco só, com um grande potencial petrolífero. E ainda temos em comum a biodiversidade da Amazônia, temos água, temos a riqueza da cultura. Creio que ou nós transformamos isso em um esquema de integração, ou nada vai adiante“.
Outros trechos da entrevista histórica
Na entrevista, Chávez admitiu que há muita miséria na Venezuela, que no passado chegou a ser considerado o país mais rico da América Latina. Quando assumiu o governo, três anos antes, a pobreza atingia cerca de 80% da população, disse. “Este número, creio, diminuiu, mas não muito. Ainda estamos bem acima dos 70%. Somos hoje 23 milhões de pessoas no país, e há vários graus de pobreza. A miséria, a pobreza extrema, deve atingir cerca de 25% da população, e este número é altíssimo, altíssimo”.
Explicou que os “círculos bolivarianos não são mais do que a tentativa de propor uma reorganização da sociedade, uma reestruturação visando à criação de uma sociedade participativa, solidária, justa, igualitária. Os círculos bolivarianos são núcleos de organização social popular, criados espontaneamente para discutir os problemas de seu dia-a-dia e encaminhar soluções. Antigamente chamavam-se informalmente junta-vecinos (reunião de vizinhos), e hoje promovem a inclusão no processo democrático e participativo de pessoas antes totalmente excluídas e sem direitos, sem acesso à educação, à saúde, ao trabalho. As comunidades vão adquirindo maior grau de participação, até mesmo como aconteceu na elaboração da Constituição, na elaboração de leis, na gestão de organismos institucionais como escolas dos bairros. Os círculos bolivarianos se constituem numa forma de devolver o poder ao povo, e por isso tantos os veem com tanta preocupação”, disse.
Faltou dizer que os círculos bolivarianos foram os que mobilizaram rapidamente milhões de venezuelanos que saíram às ruas para que o golpe fracassasse.
Diplomaticamente, Chávez disse que não quer acreditar nem por um instante que os Estados Unidos apoiaram o golpe, pois é “um país que fala de democracia, que luta por ela no mundo, que luta pelos Direitos Humanos”. Acrescentou, sem ironia, que o governo está investigando. “No dia do golpe, no dia do Juramento, na mesma hora em que aquele senhor estava se autoproclamando presidente – vocês viram isso pela TV, não viram? – as águas territoriais venezuelanas foram violadas por um navio importante, que carregava helicópteros. Ele chegou muito perto da costa venezuelana”, afirmou Chávez, citando outros exemplos que estão sendo investigados “por nós e pela comissão do Senado americano”.
Chávez também disse que não está apoiando a guerrilha colombiana. “Nós temos sido muito claros, temos que honrar nossa revolução, e o que acontece é que não apoiamos a guerra. Temos dito a eles que não nos peçam apoio militar, porque não vamos apoiar, não vão conseguir”.
Vale a pena ler a entrevista completa, que traz ideias que nunca morrem. Ou nunca deveriam morrer…
* Observação da Cris: Qualquer semelhança com o ódio cultivado entre os bolsonaristas brasileiros, anos depois, não será mera coincidência.
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