‘Os Fabelmans’: a vida de Steven Spielberg ou o manual da vida

Cena do filme "Os Fabelmans", de Steven Spielberg, com Paul Dano e Michelle Williams.
Cena do filme "Os Fabelmans", de Steven Spielberg, com Paul Dano e Michelle Williams.

Vale a pena ver: OS FABELMANS (The Fabelmans)
2022 | 2h31 de duração | Nota 9

Quando o pequeno Sammy assiste ao primeiro filme de sua vida, “O Maior Espetáculo da Terra” (1952), ele fica completamente preso em uma das cenas do filme – pelos dias, talvez semanas, seguintes.

É isso o que os grandes filmes fazem conosco: grudam na nossa cabeça, ou no nosso coração, fazem a gente se emocionar, e danar a pensar, e trazer aquela história para nossas vidas, de alguma forma.

Saí da sala de cinema, depois de ver este filme autobiográfico de Steven Spielberg, com essas reflexões na cabeça.

“A vida não é como os filmes”, diz um dos personagens ao adolescente Sammy (alter-ego de Spielberg).

Mas talvez seja. Os filmes, assim como os livros, e outras formas de arte, são um jeito de encapsular um pedaço das vidas, para serem vistos, revistos, nos fazer pensar e repensar. São o mais perto que temos de um manual da vida.

Dizem que Spielberg chorou em vários momentos, emocionado, durante as gravações deste “Fabelmans”. Estava imerso em suas próprias memórias afetivas, revivendo a história de sua família. E o elenco todo, pelo que diz o próprio Spielberg em um videozinho introdutório, se empenhou nessa missão colossal de traduzir uma vida para a telona.

Leah, Steven e Arnold Spielberg, em foto de família. No filme autobiográfico "Os Fabelmans", eles viraram, respectivamente, Mitzi, Sam e Burt Fabelman.
Leah, Steven e Arnold Spielberg, em foto de família. No filme autobiográfico “Os Fabelmans”, eles viraram, respectivamente, Mitzi, Sam e Burt Fabelman.

Temos, assim, atuações tocantes de Michelle Williams (sempre ótima, já indicada ao Oscar 4 vezes e provavelmente na fila deste ano de novo), Paul Dano, Seth Rogen e do novato (que tem a imensa responsabilidade de interpretar Spielberg) Gabriel LaBelle.

Toda essa carga emocional foi devidamente transportada, com delicadeza – mas também muito bom humor – para o filme. Assim como aconteceu com outros excelentes filmes biográficos que vimos recentemente: Belfast (2021), nostalgia do diretor Kenneth Branagh (nota 10), Dor e Glória (2018), a nostalgia de Almodóvar (nota 9), e Roma (2018), nostalgia do diretor Alfonso Cuarón (nota 9), para citar alguns.

Pelo visto, filmes autobiográficos de diretores talentosos tornam-se facilmente os “filmes de suas vidas“.

No caso de “Fabelmans”, diferentemente dos outros que citei, temos um ingrediente a mais do que apenas a vida de Spielberg entre seus 7 e 18 anos. Temos uma homenagem à própria arte do cinema. Vemos esse talento brotando em Sammy-Steven desde a infância, com muita criatividade, mas que provavelmente só pôde florescer por ele fazer parte de uma família que incentivava essas experimentações de todas as formas, inclusive financeiramente.

Em dado momento, ouvimos uma das irmãs de Sammy dizendo que aquela família estava se despedaçando. E eu só pude pensar: não, não estava. Ela não sabe o que é uma família que se despedaçou.

O fato é que Spielberg cresceu em um lar amoroso, estruturado, estável e criativo, ainda que sujeito às crises que fazem parte de todas as vidas, de todos os lares, de todas as famílias. E muito provavelmente essas condições ajudaram muito no desenvolvimento deste que é um dos diretores de cinema mais criativos e talentosos que conhecemos, que também me encantou pela primeira vez quando eu era ainda bem pequena, vendo seu mágico e emocionante “E.T., O Extraterrestre”.

Steven Spielberg jovem (esquerda) e em foto mais recente (centro). À direita, o ator Gabriel LaBelle em cena do filme "Os Fabelmans", em que interpreta Sammy.
Steven Spielberg jovem (esquerda) e em foto mais recente (centro). À direita, o ator Gabriel LaBelle em cena do filme “Os Fabelmans”, em que interpreta Sammy.

Mas, sim, mesmo as famílias “normais”, com suas crises “normais”, são um ingrediente incrível para as boas histórias. Vide outros belos filmes do tipo, como “Manchester À Beira-Mar” (nota 10) e “Os Meyerowitz” (nota 8). E foi assim que “Os Fabelmans” venceu nas categorias de melhor filme e melhor diretor do Globo de Ouro, e muito provavelmente levará importantes estatuetas também no Oscar.

A verdade é que assistir aos Fabelmans nos faz pensar sobre tanta coisa! Sobre o fascínio pelo cinema, que é uma coisa às vezes mágica mesmo, sobre as famílias que parecem estar desmoronando e talvez não estejam, sobre sonhos que parecem impossíveis e talvez não sejam, sobre arte e criatividade, sobre a importância do humor para combater o ódio, sobre a força das histórias para fortalecer até os mais fracotes, sobre a coragem de ir embora e viver, sobre amor e desamor, sobre esta coisa tão cinematográfica que chamamos de vida.

Saí do cinema com o mesmo êxtase do pequeno Sammy depois de ver o choque do trem naquele filme dos anos 50. Foi mais um passeio pelo manual da vida, este único que temos a possibilidade de consultar.

‘Os Fabelmans’ foi indicado a 7 Oscars em 2023 (não venceu nenhum):

  1. Melhor filme do ano
  2. Melhor direção (Steven Spielberg)
  3. Melhor roteiro original
  4. Melhor atriz principal (Michelle Williams)
  5. Melhor ator coadjuvante (Judd Hirsch)
  6. Melhor trilha sonora
  7. Melhor design de produção

Assista ao trailer do filme ‘Os Fabelmans’:

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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