Para assistir: O ABUTRE (Nightcrawler)
Nota 8
Eu já fui chamada de abutre. Estava cobrindo uma morte trágica (se não me engano, um acidente de carro envolvendo pessoas alcoolizadas, no auge da Lei Seca) e tive que fazer uma coisa que NENHUM repórter do universo gosta de fazer: ir ao velório para tentar falar com a família da vítima. Mesmo que não verbalizem o adjetivo, as pessoas te olham como se você fosse um chupa-cabras e se sentem muito desrespeitadas.
Por isso, eu ia preparada para falar com pessoas menos próximas, amigos ou parentes distantes, e fazer um longo discurso sobre a importância de contarmos um pouco sobre aquela vítima, para traçarmos seu perfil, prestarmos uma homenagem e humanizar o caso, de fazê-lo chegar ao leitor para gerar empatia e chamar à reflexão. Afinal, este é um dos objetivos do jornalismo, em última instância.
Mas o filme é sobre um tipo de abutre bem diferente. Ele se abastece de sangue, de imagens chocantes – quanto mais chocantes, melhor para aumentar a audiência.
Afora a questão do sensacionalismo, que também entra nos dilemas que temos que lidar diariamente na profissão (quando colocar um freio, mesmo que isso signifique perder alguns cliques), o filme extrapola, ao mostrar um sujeito absolutamente sem nenhuma ética – sem qualquer freio – em seu objetivo de conseguir as melhores (ou piores) imagens que depois serão vendidas aos canais de televisão.
Esse sujeito é interpretado pelo excelente Jake Gyllenhaal (famoso pelos papéis em “Brokeback Mountain” e “Zodíaco”, dentre outros), que segura o filme todo. O elenco é praticamente só ele (com eventuais aparições de seu assistente e da editora de TV que compra suas imagens), que perdeu 9 kg para o papel e, em dado momento, se entranhou com tanto afinco no personagem que chegou a quebrar um espelho com um murro, de forma não prevista no roteiro, tendo que ficar algum tempo no hospital antes de continuar com as gravações.
Não entendo como ele ficou de fora do Oscar, que só indicou “O Abutre” pelo roteiro original (mas Jake chegou a ser indicado para outros prêmios importantes, como o Globo de Ouro e o Bafta).
É o primeiro filme que o roteirista Dan Gilroy dirige e ele o faz muito bem, usando uma estética tosca, como a estética que os abutres usam. Ele disse que o filme é uma crítica aos noticiários locais, mas também aos telespectadores. “Todos nós realmente assistimos a essas cenas.” E será que precisamos delas?, questiona Gilroy.
Ou seja, ele aponta os dedos para a humanidade, como se dissesse: vocês são todos abutres. E isso não só explica a audiência estratosférica de canais sensacionalistas como também a multidão que sempre se forma ao redor de grandes desastres, de acidentes graves ou crimes hediondos: curiosos, pessoas que deixam o que estão fazendo unicamente para irem sorver o sangue jorrado de uma vítima.
Mas não interessa que haja tantas pessoas com essa sede de horror: o jornalismo deve se pautar pelo exercício da ética, da moral e do interesse público (diferente de interesse do público), e, sempre que perdermos a noção de freio, nos aproximando do protagonista deste filme, teremos perdido um pouco do sentido e do real propósito da nossa profissão.
Veja o trailer do filme ‘O Abutre’:
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