Tim Maia: ame e odeie

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Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia. Eis um livro que amei e odiei, na mesma medida em que amei e odiei seu protagonista quanto mais fui conhecendo ele melhor.

“Que ficcionista seria capaz de criar um personagem como Tim Maia? E quem acreditaria?”, pergunta Nelson Motta, o biógrafo, logo no comecinho do livro. Realmente, o cara é extremamente improvável. E tenho a impressão de que o autor, que era seu amigão do peito, deve ter pegado leve, para não queimar ainda mais o personagem.

Vários adjetivos passaram pela minha cabeça enquanto eu lia o livro: que Tim Maia era mimado, sacana, egoísta, cafajeste, desrespeitoso, arrogante, viciado, irresponsável, carente, invejoso, debochado, folgado, ciumento. Tudo em excesso. O excesso do excesso.

Ele era tão destrutivo que era capaz de pisar na bola até quando recebia uma oportunidade de mão beijada, daquelas que caem do céu no momento em que mais se precisa. E de ferrar com alguém de tal forma que acabava se ferrando mais, no fim das contas. Não foi à toa que, por mais que ele lutasse, trabalhasse muito, fosse extremamente ativo e um gênio em sua área, por mais que ele tenha agregado trocentos amigos ao seu redor e tenha conquistado milhões de dinheiros, ele tenha terminado a vida endividado, melancólico, abarrotado de processos judiciais nas costas, praticamente falido.

Um exemplo dessa autoferração pode ser visto na página 233 do livro, sobre o dueto que ele gravou com Gal Costa:

“A gravação ficou lindíssima, a mixagem perfeita, as vozes eram ouvidas em equilíbrio, com interpretações arrebatadoras. (…) Como as duas estrelas viajavam sem parar, foi muito difícil encontrar uma data para que fosse gravado um clipe para o ‘Fantástico’, única oportunidade para reunir os dois.

No dia marcado, Tim recebeu um telefonema da RCA avisando que a gravação atrasaria dois dias porque o vestido de Gal não tinha ficado pronto.

Dois dias depois, quando ligaram para Tim dizer a hora em que o carro iria buscá-lo, mandou avisar a Gal que não poderia ir:

‘O meu vestido não ficou pronto.’

E não foi.”

Ou seja, só por sempre querer dar o troco quando sentia que outra pessoa estava abusando dele, ele acabou deixando de participar de dezenas de programas, eventos ou oportunidades que, no fim das contas, seriam boas para a carreira dele. (Mas confesso que achei, neste caso específico, que a resposta foi muito boa).

Uma das coisas que “Tim Maia do Brasil” mais gostava de fazer era pregar uma peça em alguém. Até mesmo nos fãs, ao deixar de ir a inúmeros shows. Ele incorporava com afinco a máxima do “perco um amigo mas não perco a piada”. Podia mandar soltar os cachorros (literalmente, duas feras do tamanho de bezerros) em cima de alguém só pelo prazer da “diversão”. Só para rir da cara do outro. No entanto, se ele virava motivo de brincadeira, virava a própria fera. Por exemplo: processou os caras de Casseta&Planeta porque fizeram uma sátira com ele em algumas apresentações. E quase deixou de fazer um show porque seu amigo Jorge Benjor, que tinha feito a linda homenagem de chamá-lo de “síndico” em W/Brasil, tinha posado para os crachás do show vestindo uma camisa com uma caricatura do rei do soul estampada. Enfim, Tim Maia gostava de sacanear para rir dos outros, mas não tinha o menor senso de humor, na verdade.

Por outro lado, custei mas detectei algumas qualidades nele. Era generoso quando achava que alguém merecia (por seus critérios muito particulares). Era muito leal aos amigos que também achava que mereciam sua lealdade. A ponto de ter doado um apartamento a um parente ou ter tirado um amigo da pindaíba e colocado ele como seu braço direito. Tratava o dono da gravadora e o morador de rua com a mesma deferência. Era caridoso, mesmo, em vários momentos, como quando adotou um orfanato e sabia o nome de todos os órfãos que moravam lá e que convidava para nadar na piscina de sua casa. Enfim, como ele mesmo dizia, no fundo, ele tinha um bom coração.

Outra qualidade que ele tinha era ter sido o primeiro a gritar contra a exploração dos músicos pelas gravadoras, contra os problemas no pagamento de direitos autorais e ter criado a própria editora, de forma pioneira no Brasil (aliás, ele era muito visionário em relação a várias coisas, inclusive na criação de gêneros musicais). Se tivesse sabido conduzir melhor os negócios, sem tanta gastança e sem se meter em tantos processos judiciais, talvez tivesse terminado a vida como um raro artista brasileiro milionário.

Mas a qualidade mais óbvia era mesmo sua genialidade musical. Tim Maia era incontestável. Foi reverenciado por A a Z (Tom Jobim, Caetano, Marisa Monte, Paralamas, Os Cariocas, Djavan, Lulu Santos e tantos outros) . Era uma máquina de fazer hits. Autodidata, aprendeu sozinho uns poucos acordes no violão e criava os arranjos de cabeça, que passava para os músicos tirarem nos instrumentos, já que ele não lia partituras. Tinha uma noção de ritmo invejável. Sabia fazer tanto o “mela-cueca” quanto o “esquenta-sovaco” e, por tudo isso, entrou no hall dos grandes nomes da MPB. Passeava pelo soul, pelo disco, pelo funk e pela bossa-nova. E é muito legal ver, no livro, como aqueles clássicos foram gerados, muitas vezes em questão de minutos inspiradores.

Infelizmente, no entanto, a qualidade de sua produção — e de sua voz — foi decaindo com o tempo. Com o envelhecimento, mas também com as toneladas de pó, de “bauretes” e de goró que ele introduzia em seu corpanzil, diariamente. Com isso, o livro também cai de qualidade, junto com a vida de Sebastião. Se as primeiras 200 páginas são instigantes, as últimas quase-200 são um amontoado de grosserias, abuso de drogas, paranoias, sacanagens, esculhambações e regravações que se amontoam e deixam o livro — e seu personagem principal — insuportáveis. Por isso, dá uma certa tristeza quando ele morre, mas também uma sensação de “durou-demais-pro-tanto-que-aprontava”.

De qualquer forma, é uma peça raríssima, uma figura e uma vida que merecem ser conhecidas. Nelson Motta escreve de um jeito meio atropelado, muitas vezes mudando de assunto de um parágrafo para o outro, sem qualquer transição ou coesão — o que é um pouco irritante –, mas também escreve bem, de maneira superinformal, incorporando as gírias do Maia, que tornam o livro bem fácil de ler. E poucos conhecem tão bem todas as figuras da MPB como o autor deste livro, então outros personagens acabam sendo revelados também.

Mas o mais legal, ao meu ver, é a forma bem-humorada como Motta descreve certas situações. Deixo abaixo dois trechos como degustação:

“No fim da tarde, em dois carros, partiam para o longínquo Recreio dos Bandeirantes. Para jogar futebol na praia e dar mergulho, Tim inclusive! O cracão do soul gostava de jogar no ataque. Sua posição era centroavante imóvel, em perpétuo impedimento na cara do gol, esperando alguma bola chegar de algum lugar.” (pág. 148)

***

“Como Tim detestava avião, tiveram de encarar a estrada. No microônibus alugado pelo empresário, o motorista foi instruído a não passar de 60 quilômetros por hora e os músicos congelaram quando Tim entrou com um convidado especial: o seu fiel, feroz e enorme Dick, o fila brasileiro, que, talvez nervoso pelo ambiete em movimento, começou a latir e a soltar peidos fedorentíssimos.” (pág. 168)

“Vale tudo: O Som e a Fúria de Tim Maia”
Nelson Motta
Ed. Objetiva
392 págs.
De R$ 16,63 a R$ 25,90

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6 comentários sobre “Tim Maia: ame e odeie

  1. Cris, li o livro, vi o musical e o filme. Sou fã do Tim Maia. Entendo sua crítica à biografia e sinto que o livro segue mesmo o ritmo da vida dele. No final, está bem para baixo, como vc disse. Depois que vi o filme, me decepcionei. Sei que as películas nunca são tão boas quanto os livros. Mas essa foi uma das piores que já vi. Ela só mostra o lado ruim do síndico. Já o musical, é sensacional, para dizer o mínimo. É isso. Parabéns pelo excelente blog. Abraço.

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  2. Gostei do filme do Mauro Lima, fiquei com muita ternura pelo Tim. Na minha opinião, não adulou, não enfeitou e, ainda assim, conseguiu produzir uma coisa linda. Vc viu, Cris, a polêmica que rolou após o filme ser exibido pela TV Globo? Vi e achei diferente do que vi no cinema, ruim, editado de forma esquisita. Mas, sobre o livro, não entendi quando vc fala das 200 páginas finais, vc não gostou ou é pq é pesado/triste? Li “Noites Tropicais” do Nelson Motta e odiei. A do Tim eu quero ler faz tempo. Amo biografia do pessoal da música. Vc leu a da Cássia? Falar nisso, não consegui ver o musical sobre ela aqui no CCBB Brasília, ingressos esgotados desde sempre!:( Mas o filme taí, não perco!;) Beijo!

    Curtido por 1 pessoa

    • Não li a biografia da Cássia, mas amei o musical 🙂
      Achei as 200 páginas finais do livro arrastadas, mas acho que muito porque eu já estava saturada das histórias do Tim, que foram só ficando mais pesadas quanto mais o tempo passava. Então não chega a ser uma falha do Nelson Motta, entende?
      Vi a polêmica sim. Mas, como eu não tinha visto o filme ainda, não pude tomar partido. Vou ver se assisto algum dia para comparar com a biografia do Motta e ver se o filme distorceu demais, como contou o Afonso.
      besos!

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