A velhinha de vento e a desinformação da PBH

Estava saindo de casa para trabalhar quando a vi. Sentada de cócoras no chão da calçada, remexendo nuns restos de lixo que estavam caídos por perto. A pele era toda de mexerica: parecia ter uns 90 anos de idade. Cabelo curtos, branquinhos, e uma magreza subsaariana. Miudinha, ficava ainda mais encolhida e frágil naquela posição fetal.

Avancei com o carro, no rumo do trabalho, mas espiei de novo pelo retrovisor. Pensei se tinha algum neto à procura daquela senhorinha. Imaginei que ela estivesse com fome. 15h23, dá tempo ainda. Dei a ré, parei o carro, e entreguei meu lanche para ela. “A senhora aceita?” “Você adivinhou! Não como nada há várias horas”, respondeu, sorridente. Sua pele tinha algumas marcas de ferida.

“A senhora não tem alguém que possa te buscar?”

“Eu estava na CTI, meu filho foi me visitar…” e ela desandou a falar, algumas partes incompreensíveis. “Não tenho casa”, finalizou. Suspirei. Tinha que ir para o trabalho. Ela se despediu, sorridente. Continuou lá, de cócoras, na mesma posição. Parecia tão fraca que um vento a carregaria de lá.

Um quarteirão depois, tentei lembrar o que ela tinha me dito. Lembrei da parte da CTI. Fiquei preocupada. Será que ela está doente? Não seria perigoso ela ficar sozinha, na rua, completamente abandonada? 15h29. Não gosto de falar ao telefone enquanto dirijo, mas fiz algo que me faz sentir menos errada: disquei enquanto o carro estava parado no sinal vermelho e coloquei no viva-voz. 192, Samu. Contei a situação.

“Estava na rua? Era moradora de rua?”

“Não sei dizer, ela disse que não tinha casa…”

“Ligue para a regional que atende a população de rua. O telefone é 3277-7668.”

OK. Vamos guardar o telefone. Memorize. 7668… Próximo sinal vermelho, disquei, pus no viva-voz. 15h31. Ninguém atende. 15h33: “Não é aqui. Ligue no 3277-4904.”

OK, memoriza de novo. 4904… Sempre começa com 3277… Sinal fecha, ligo.

“Não é aqui. Ligue no 3277-4950.”

Tudo se repete. Telefono, escuto: “O número certo pra esse tipo de atendimento é o 3277-1721.”

Só vou memorizando e tentando, não contesto mais. Já são 15h42. Será que ela ainda estará no mesmo lugar, mesma posição de cócoras?

“Ligue no 3277-7687, é lá, minha senhora.”

Vários sinais verdes. Lamento pelos sinais verdes. 15h46, ligo lá. Só chama, até cair. Ligo de novo. Nada. Retorno para o 3277-1721 e explico: já é o quinto número para o qual sou empurrada!!! “Lamento, senhora, o telefone certo é o final 7687 mesmo.

Nunca saberei. Telefono outras cinco vezes, mas jamais sou atendida. 16h, chego ao trabalho. E sou engolida pelas tarefas do dia, até esquecer completamente da existência da senhorinha sentada no chão da rua, remexendo no lixo, perdida em outro planeta. Mais tarde, namorado pergunta: “E a velhinha? Conseguiu ajuda pra ela?” Demoro vários segundos até lembrar. “Poxa, nem perguntei o nome dela. Poderia ao menos colocar no blog e esperar que chegue até algum parente.”

O fato é que nós não sabemos muito como lidar em uma situação assim. Deveria ter levado ela para casa, pedido um RG, deixado ela em um hospital? Tentei pelo caminho que me parecia mais fácil – ligar para a secretaria de assistência social da prefeitura – e acabei caindo em um labirinto de desinformação e jogo de empurra, que não ajudou em nada a velhinha.

O que aconteceu com ela? Não faço a mínima ideia. Só sei que, se outra oportunidade de ajudá-la surgir em minha frente, nunca mais tentarei contar com a prefeitura de Belo Horizonte.

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6 comentários sobre “A velhinha de vento e a desinformação da PBH

  1. Fiquei comovido com o seu texto! Cada palavra, cada frase escrita repercutia sua grande humanidade perante uma situação, que infelizmente é corriqueira em muitos cantos deste país.

    Vou postar um vídeo musical que classifico de muito interessante, e acredito que seja para quem estiver disposto a ouvi-lo.

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  2. Relacionado ao tema do post, o lema da PBH e correlatos (autarquias e empresas públicas municipais) parece ser empurrar o problema para outro lugar. Perto da minha casa há um problema sério de trânsito, registrei reclamação no site da BH Trans e eles responderam que eu tinha que reclamar no site da PBH. Fui ao site da PBH, fiz a reclamação, e voilà: “questões relacionadas à observância da legislação de trânsito devem ser comunicadas à BHTrans”. Resumo da ópera: “pague seus impostos e taxas, cidadão belo horizontino, e por favor não nos encha o saco”.

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