A época do ano para agradar aos estranhos

Pelo menos duas vezes por ano, separo um tempo para abrir meu guarda-roupas e fazer uma verdadeira “limpa” nas gavetas e cabides. Separo não só as roupas velhinhas, mas também algumas em ótimo estado que, por uma razão ou outra, eu quase nunca uso. Depois de fazer a seleção, que costuma chegar a umas 20 peças, coloco tudo num sacão e vou caçar um lugar para doar. Às vezes envio para tias que moram em regiões carentes do Norte de Minas, às vezes entrego para centros espíritas que fazem trabalhos sociais bacanas e também já aconteceu de eu ir direto a um albergue de moradores de rua e, antes mesmo de entrar lá na casa para procurar algum funcionário que pudesse receber a doação, ser cercada por dezenas desses moradores de rua, que estavam na porta e perguntaram: “É doação? É doação?”, concluindo com um afoito “pode deixar com a gente”. Deixei, já que eles eram mesmo o público-alvo, e observei, no caminho de volta, como eles realmente distribuíam tudo entre várias pessoas, de forma muito mais organizada que em várias ONGs especializadas em arrecadar (e às vezes desviar) doações.

Acho que todo mundo tem condições de doar um pouquinho e sempre tem alguém, abaixo na pirâmide econômica, que está precisando do que a gente pode descartar. Épocas como início do inverno (quando é promovida a Campanha do Agasalho) e Natal (quando as pessoas estão mais generosas, ganham mais roupas de presente ou querem organizar o armário para a virada de ano) são as ideais para esse tipo e prática. E, como já estamos em 10 de dezembro, e o ano já caiu num buraco-negro em que o tempo é engolido ferozmente até desaguar no ano seguinte, sem dó nem piedade, deixo aqui esta inspiração para quem está contando os dias para o Natal, como eu.

Neste ano, pela primeira vez, resolvi também pegar uma das cartinhas enviadas ao Papai Noel dos Correios, uma iniciativa que sempre achei sensacional. O jornal onde trabalho fez uma parceria com os Correios e intermediou o processo de pegar as cartinhas, coletar os presentes e entregar aos Correios. Só fui ficar sabendo disso quando o prazo já tinha terminado, mas, como ainda havia uma única cartinha não adotada por ninguém, a funcionária deixou eu ficar com ela, com a condição de entregar o presente até o dia 9 — ontem.

Achei tudo muito emocionante. Com a letrinha tremida típica das crianças em processo de alfabetização, Júnior pedia ao Papai Noel um helicóptero com controle remoto. Um brinquedo que, fui descobrir depois, pode custar até R$ 500. De gente grande, pensei. Ouvi sugestões: dê um carrinho, em vez do helicóptero, que é mais barato e ele não vai quebrar fácil. Dê um helicóptero sem controle remoto. Dê um aviãozinho barato.

Pensei em quando eu era criança e acreditava em Papai Noel. Para as crianças, a fábrica do bom velhinho é um lugar mágico, onde tudo é possível, até a fabricação de irmãozinhos e de um casamento perfeito para os pais que sempre brigam, sem contar da perna nova pro amiguinho cadeirante, coisas do tipo. Imagina a frustração de pedir um incrível helicóptero que voa de verdade e receber um aviãozinho de plástico no lugar? “Os duendes estavam em greve”, escreveria um exausto Papai Noel.

Minha colega Ana Paula desenvolve melhor essa ideia, vejam AQUI. O que eu acho é: não quer entrar na fantasia da criança? Então é melhor nem pegar a cartinha.

Como eu peguei, saí atrás de um helicóptero que coubesse no meu bolso. Na Black Friday, achei alguns por até R$ 79, mas seriam entregues muito depois do prazo que eu tinha. Então fui ao centro e, com algum custo, achei um por R$ 100. Neste ano, meus presentes de Natal para a família estão girando em torno de R$ 20, porque resolvi comprar presentes alternativos (conto depois do Natal ;)). “Você vai dar o presente mais caro a um completo desconhecido?”, perguntaram. Eu não, Papai Noel que vai.

Também comprei um papel-ímã e imprimi uma cartinha do Papai Noel que pudesse ser colada na geladeira. Algo mágico… Ela foi enroladinha, como um papiro, e encaixada dentro do pacote. Depois embrulhei tudo num papel com tema natalino, que comprei na papelaria da esquina, e finalizei com um laço dourado. O mais encantador que pude fazer, pensando em deixar o Natal de Júnior e de sua família realmente especial.

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Uma das coisas bacanas do Natal é exercitar, no nosso espírito, a importância de tentar agradar o dia de pessoas completamente estranhas à nossa vida. É o que se traduz por generosidade e solidariedade, dois conceitos que estão rareando no mundo do cada-um-no-seu-quadrado.

O prazo pra pegar a cartinha do Papai Noel dos Correios já acabou, na semana passada. Agora, só ano que vem. Mas ainda há tempo para aquela revirada nos armários. E também para treinar o bom humor e a cordialidade (temos um trânsito inteiro à frente para esse exercício!). Que tal começar agora mesmo?

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12 comentários sobre “A época do ano para agradar aos estranhos

  1. Procuro palavras para descrever esse seu ato. Não há.

    Você disse tudo: “Não quer entrar na fantasia da criança? Então nem é melhor nem pegar a cartinha”. Mesmo com o preço exorbitante do brinquedo, você foi atrás e procurou alternativas.

    Parabéns por alegrar o Natal de um “desconhecido”, moça!

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  2. hahahaha! É assim mesmo! Depois da primeira é dificil largar. Eu estou na 3ª 🙂

    Também dá vontade de pegar cartinha na Pascoa e Dia das Crianças 🙂

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  3. É gratificante ser solidário, Kika. Eu também fiz minhas ações aqui por Três Corações. Muito legal as fotos de BH e, mais legal ainda, os vídeos de uma sensibilidade incrível do Po Chou-Chi,de Taiwan. Valeu!

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