O que estão esperando para acabar com as torcidas organizadas?!

Domingão, último jogo do Galo no Brasileiro, volta do Ronaldinho, véspera da estreia no Mundial — enfim, muitos motivos para comemorações futebolísticas. Meio alheia a tudo isso, eu estava no carro, a caminho do jornal, para o plantão de fim de semana, quando levei o maior susto, com fogos de artifício sendo estourados na calçada ao lado. Logo surge uma pequena multidão, que entra invadindo a avenida, mesmo com o sinal verde para os carros. Primeira coisa que passou pela minha cabeça: as cenas dos protestos de junho, que eram sempre daquele jeito mesmo, a invasão dos espaços públicos. Mas quem seriam esses manifestantes? Segunda coisa que pensei: arrastão. Fechei os vidros do carro, mesmo com o calor da falta do ar condicionado. Até que vi as camisas da multidão: Galoucura.

No carro ao lado, o motorista usava uma camisa vermelha do Bayern de Munique, o time que deve enfrentar o Galo no Mundial de Futebol. Dois adolescentes da Galoucura se postaram em frente ao carro dele — e do meu — e começaram a xingá-lo e fazer gestos agressivos. Buzinei: o sinal tinha aberto de novo, eu não queria ficar ali. Finalmente, alguns segundos depois, os caras me viram e resolveram ir até a calçada, liberando a rua.

Eu tremia. Ali havia pelo menos 50 jovens, provavelmente alguns armados, agressivos, agindo, em tese, em nome de uma torcida de futebol. Mas qual a diferença entre eles e qualquer outra gangue ou quadrilha? Ou entre eles e um grupo de pessoas que promove linchamento? Nenhuma: em todos os casos, se sentem acima da lei e muito mais poderosos pelo pertencimento a um grupo mais forte. Se cruzarem com alguém a pé, com a camisa do Bayern ou do Cruzeiro, o que farão contra essa pessoa? Se eu, atleticana, estivesse a pé, usando, digamos, uma blusa azul, correria risco? Ou se apenas quisessem implicar com a minha buzinada?

Assim como a Galoucura, eu poderia falar da Máfia Azul, Dragões da Real, Mancha Verde, Gaviões da Fiel, qualquer outra. Mas escolhi, de forma proposital, a torcida organizada do meu time, porque o que vou defender neste post independe de futebol. Aliás, nada tem a ver com futebol.

Quero o fim das torcidas “organizadas”. Que hoje em dia nada mais são do que gangues, que promovem a violência dentro e fora dos estádios.

Brigas entre torcidas organizadas do Cruzeiro fazem festa de título ser cancelada. Foto: Douglas Magno/O Tempo

Brigas entre torcidas organizadas do Cruzeiro fazem festa de título ser cancelada. Foto: Douglas Magno/O Tempo

Tanto nada tem a ver com futebol que, em plena festa do título do Cruzeiro pelo Campeonato Brasileiro, duas torcidas rivais — Máfia Azul e Pavilhão — resolveram brigar. A coisa ficou tão feia que a festa foi cancelada, prejudicando torcedores reais, que tinham motivo real de comemoração. E são, em tese, torcedores do mesmo time!

Tanto nada tem a ver com futebol que, quando vimos aquele escândalo no jogo Vasco x Atlético-PR na tarde de ontem, com torcedores tentando matar, literalmente, uns aos outros, com gente desacordada no chão sendo chutada por vários, os jogadores — ídolos? — iam conversar com suas próprias torcidas e eram recebidos aos gritos de ódio.

Torcedores do Vasco e do Atlético-PR em briga no último domingo. Foto: Geraldo Bubniak / Fotoarena

Torcedores do Vasco e do Atlético-PR em briga no último domingo. Foto: Geraldo Bubniak / Fotoarena

Torcedor do Atlético-PR que foi espancado quando já estava desacordado no chão. Foto: GIULIANO GOMES/ESTADÃO CONTEÚDO

Torcedor do Atlético-PR que foi espancado quando já estava desacordado no chão. Foto: GIULIANO GOMES/ESTADÃO CONTEÚDO

Ouço de pessoas nem tão mais velhas assim que ir ao estádio, há alguns anos, era um prazer e um divertimento. Que era possível haver partidas, inclusive clássicos, com torcedores misturados na arquibancada, sem necessidade de barreira, de policiamento fortíssimo (como o que faltou na Arena Joiville, contribuindo para os quase-assassinatos vistos). Que dava até para levar as crianças numa boa, com segurança. Que a rivalidade em campo se restringia exclusivamente ao jogo, ao futebol, ao esporte, e nunca era extrapolada para inimizades, agressões, violências gratuitas. Que um placar de jogo era só um placar de jogo e não um decreto de morte.

Quem mudou essa história foram as torcidas organizadas. As gangues armadas de desmiolados. Há anos, propõe-se cadastrar esses sujeitos, proibí-los de ir ao estádio, desarticular as agremiações. Parte dessas medidas está prevista no Estatuto do Torcedor, que é lei federal desde 2003. Mas, de que adianta? As coisas só pioraram nesses dez anos. O corintiano que esteve preso na Bolívia após a morte de um adolescente se envolveu em briga contra a torcida do Vasco logo que foi solto. Banido dos estádios com base no Estatuto do Torcedor, ele burlou a proibição e compareceu em um jogo contra o Grêmio apenas dois meses depois.

Então, não adianta dizer que o sujeito está banido dos estádios por alguns meses. Isso não vai contê-lo. Tem que reprimir e proibir a existência das torcidas organizadas. Tem que adotar leis mais severas — que precisam ser cumpridas –, assim como a Inglaterra fez para conter seus hooligans, que eram tão agressivos que, em 1985, causaram a morte de 38 pessoas em um único jogo. Naquele país, a própria federação inglesa baniu seus clubes das competições europeias por cinco anos. Suas leis preveem, além de prisão de até quatro anos, banimento dos estádios por até dez anos, inclusive fora do Reino Unido, para os que se envolverem em confusão. Em caso de reincidência, há previsão de afastamento dos campos para sempre. Também há multas pesadas, grande policiamento e vigilância intensa com câmeras. Resultado: a violência caiu e os hooligans estão sumidos pelo menos desde 2006.

O que eu sei é que não dá para continuar assim. Tendo medo de ir ao estádio para torcer pelo meu time e, pior, chego até mesmo a ter medo de andar pelas ruas vestindo uma cor específica (que dirá uma camisa oficial). Que a chegada da Copa do Mundo sirva para acordar as autoridades brasileiras para o que já é óbvio há anos: é preciso acabar com essas gangues organizadas e agir de forma mais severa contra torcedores-bandidos encamisados e nada organizados.

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13 comentários sobre “O que estão esperando para acabar com as torcidas organizadas?!

  1. Bom dia Cris! Concordo com você quanto a extinção definitiva das torcidas organizadas. Só não acho que apenas a extinção resolve o problema, pois como você colocou no post, estes caras vão dar um jeito de continuar indo ao estádio e arrumar confusão. No meu ponto de vista, o que falta é fazer cumprir a lei que já existe! E também é preciso responsabilizar o clube/dirigente que subsidia estas torcidas/gangues; e acima de tudo, é preciso fiscalização para que as penas sejam realmente cumpridas. E só para terminar, essas cenas de violência gratuita que vemos nos estádios brasileiros podem ser vistas diariamente nas ruas e bairros de todas as cidades brasileiras…

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    • É verdade, mas acho que o fanatismo pelo futebol deixa os ânimos mais exacerbados que o normal, por isso acabamos vendo mais violência gratuita em dias de jogos, perto dos estádios, nos ônibus e metrôs. Torcida organizada que promove violência é quadrilha. Isso, até pra tipificar uma pena, é muito mais grave do que quando não há um grupo, né? Abraços!

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  2. E apenas para complementar: a própria torcida organizada do Atlético-PR já previa o confronto: http://www.espn.com.br/noticia/375029_torcida-do-atletico-pr-ja-previa-confronto-e-nao-levou-mulheres-e-criancas-para-joinville

    Conforme o profjeanmagno bem pontuou e é o que venho comentando há tempos também, já passou da hora de responsabilizarem os clubes que financiam essas gangues seja com ingressos, transportes, carnaval e outras benesses em troca de apoio – inclusive político e não apenas na “política interna do clube”, pois não são poucos os dirigentes que fazem do futebol um “trampolim” para voos mais elevados.

    Nem lembro qual foi a última vez que fui a um estádio de futebol, mas eu não tenho a menor vontade de ir. ( mas lembrei também daquela cena do estádio em Brasília no jogo Vasco x Corinthians: um pai protegendo o filho dos brigões das Torcidas Organizadas, onde havia até um VEREADOR envolvido na confusão. Tem que ser muito corajoso para levar família a um estádio atualmente.)

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  3. Cris, você fala em uso político do futebol e das torcidas organizadas. E coisa pior está para acontecer no ano que vem. Veja o que escreveu ontem o jornalista Ricardo Kotscho [

    http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2013/12/08/vem-por-ai-novos-protestos-para-que-e-contra-quem/%5D:

    “Na nota de abertura da sua sempre bem informada coluna, o velho amigo Ilimar Franco, de “O Globo”, relatou neste sábado:

    ‘Os movimentos sociais que foram para as ruas em junho, organizam-se para voltar a protestar na Copa. Comitês de mobilização estão sendo criados nas 12 capitais-sede dos jogos. A ideia é colocar gente na rua nos dias das partidas, na frente dos estádios e nas “fan fest” produzidas pela Fifa. Neste momento, seus líderes percorrem o Congresso em busca de apoio político e logístico’.

    Quais movimentos sociais estão se organizando?
    Vão protestar contra o quê, exatamente?
    Os comitês de mobilização estão sendo criados por quem?
    Quem são seus líderes que estão percorrendo o Congresso em busca de apoio?”, indaga Kotscho.
    Hoje, o jornalista Fernando Brito, que em 1989 era assessor de imprensa de Brizola na campanha para o governo do Rio de Janeiro, enquanto Kotscho assessorava a campanha de Lula, parece que encontrou uma resposta. Escreveu ele [http://tijolaco.com.br/blog/?p=11205]:

    “…fui procurar quem registra na internet o site portalpopulardacopa.org.br, principal central de articulação de críticas e protestos contra a Copa do Mundo (…). O site pertence a uma ONG chamada Justiça Global, igualmente legítima, embora seja sustentada – a crer nos seu último balanço divulgado na internet, o de 2008 – praticamente só por doações interacionais (R$ 831,9 mil, contra apenas R$ 4,5 mil de brasileiros). (…) E quem aparece como um dos contatos registrados? O senhor James Louis Cavallaro, eleito para o Comitê de Direitos Humanos da OEA como candidato apresentado pelo Governo os Estados Unidos. Cavallaro tem uma longa história aqui, desde que divergiu com a tradicional Human Rights Watch e criou uma ONG própria, o Centro de Justiça Global, que dirigiu durante anos por aqui. Como ficaria o Brasil se o nosso representante, Paulo Vanucchi, aparecesse como responsável pelo site do Occupy Wall Street? Saia justa, não?”

    Sim. Jogo sujo também, não? – pergunto aos meus botões…..

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    • O ano 2014 vai ser rico em razões de sobra para promoção de manifestações!
      Os recursos destinados a financiar Educação, Saúde, Saneamento Básico, Infraestruturas Rodoviárias, Portuárias e outras necessidades primárias são desviados bem à frente dos nossos olhos e narizes, e se não tomarmos qualquer tipo de atitude, também teremos nossa cota parte de culpa, por simplesmente sermos omissos a todos esses desvios.

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  4. Se não estou em erro foi a UEFA, em resultado do desastre no Estádio do Heysel, que excluiu os clubes ingleses das competições europeias por cinco anos, tendo a rainha da Inglaterra apoiado essa decisão.
    Na Inglaterra a violência desapareceu e os hooligans deixaram de existir nos estádios ingleses após o Desastre de Hillsborough, cuja tragédia mudou radicalmente a concepção das estruturas e infraestruturas do futebol inglês.

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  5. Janio de Freitas trata desse tema hoje na Folha de S. Paulo. Trecho:

    Na imprensa, poucos não sabem que muitos dos bandos são patrocinados com doações dos respectivos clubes, a pretexto de torcida para incentivo ao time. E que o patrocínio tem duplo interesse eleitoreiro, nas disputas pelo poder no clube e nas eleições político-partidárias: há muitos cabos eleitorais nas torcidas organizadas. É uma engrenagem bastante conhecida.

    Íntegra (acessível a assinantes): http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/142975-em-volta-das-arquibancadas.shtml

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