Hoje é dia da poesia, viva a poesia!

Ora, ora, hoje é Dia Nacional da Poesia!

Eu nem ia postar nesta sexta-feira, porque achei que o post de ontem foi muito pouco lido (humpf), mas não podia deixar uma efeméride como esta passar batido.

Poesia é essencial. Poesia é minha terapia. Não é à toa que praticamente só produzo poemas quando estou em momentos de melancolia, intranquilidade, quando se enxerga a poesia com mais facilidade (como a Ana Paula bem resumiu no blog dela hoje). Não é à toa que minha produção de poemas despencou desde que voltei a Beagá 😉

No entanto, mesmo em momentos de alegria, gosto de ler ou ouvir poesia, porque é pela forma poética que alcanço reflexões muito mais profundas. É pela forma poética que consigo resumir melhor, por exemplo, casos tão tristes como o do motorista de ônibus que foi linchado e do cinegrafista que foi explodido. Ou consigo resumir o momento de euforia com o título inédito do Galo na Libertadores.

Por isso, temos que comemorar o Dia da Poesia aqui no blog!

Pensei em como fazer isso e não me ocorreu nada melhor do que colocar por aqui um poema do meu poeta favorito de todos os tempos, o Carlos Drummond de Andrade, ou meu querido Dru-dru. Gosto de muitos, mas ele é o maior, e quase não coloco nada dele por aqui, por já ser tão divulgado por todos.

Escolhi dele o poema “Caso do Vestido”, por ser um dos que mais me tocaram quando li, desde a primeira vez. Cheguei a chorar com o conflito proposto na história e com a situação da mulher na sociedade, e com o amor, e traição e tanto mais. O poema é longo, mas vale a leitura do início do fim. Bom proveito:

vestido

“Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.
Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.
Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.
Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!
Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.
E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,
se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,
chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,
me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.
Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.
Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,
que tivesse paciência
e fosse dormir com ele…
Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.
Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.
Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,
só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.
O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei… disse que sim.
Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.
Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,
visitei vossos parentes,
não comia, não falava,
tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.
Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,
perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,
minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,
minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.
Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.
Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,
pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.
Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,
que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,
última peça de luxo
que guardei como lembrança
daquele dia de cobra,
da maior humilhação.
Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.
Mas então ele enjoado
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,
me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito
de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.
Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?
quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?
quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?
quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?
Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.
Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.
Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada
vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,
mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,
põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de lado
e nem estava mais velho.
O barulho da comida
na boca, me acalentava,
me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,
vestido não há… nem nada.
Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.”

Texto extraído do livro “Antologia Poética”, de Carlos Drummond de Andrade, pela editora Record, 51a edição, 2002. Páginas 206 a 213.

Leia também:

Todos os poemas do blog

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4 comentários sobre “Hoje é dia da poesia, viva a poesia!

  1. Este poema parece-me um inquérito de uma traição, falando dos desejos do homem e da dor da mulher traída, representado por um vestido com um colo muito devassado.
    Poema interessante, mas difícil de ler e interpretar.

    Agora um poema para a poetisa Cris:

    Autopsicografia

    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração.

    Fernando Pessoa

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