Plano de aposentadoria: um curta-metragem que nos faz pensar sobre muita coisa

Cenas do curta-metragem de animação Retirement Plan, com direção e roteiro de John Kelly. Imagens: reprodução.
Cenas do curta-metragem de animação Retirement Plan, com direção e roteiro de John Kelly. Imagens: reprodução.

O que você vai fazer quando se aposentar?

Lembro de uma amiga querida dizendo que, quando era criança, as pessoas perguntavam o que ela ia ser quando crescesse e ela respondia: “Aposentada!”

Acho que ela via alguma avó ou tia que era aposentada e achava o máximo: a pessoa recebia uma quantia mensal, a aposentadoria, e não tinha que trabalhar! Uau!

Desde então, muita coisa mudou, inclusive as perspectivas de nos aposentarmos algum dia. Não só porque os entraves pós-Reforma da Previdência pioraram, mas também porque hoje quase todo mundo é PJ, recolhe uma ninharia para o INSS (quando recolhe), e não consegue se imaginar vivendo esse luxo algum dia.

(Luxo que é um direito trabalhista conquistado a duras penas, diga-se de passagem. Mas que está virando peça de museu, assim como as férias remuneradas.)

A verdade é que está cada vez mais difícil pensar em alguém conseguir parar de trabalhar lá pelos 60 ou 70 anos de idade, descansar, e ser remunerado com uma quantia suficiente para sobreviver. Que dirá com uma quantia suficiente para ter momentos de lazer, viajar etc.

Por outro lado, muitas vezes a gente simplesmente não consegue mais trabalhar depois de certa idade, seja porque o corpo ou a mente não respondem mais da mesma forma, seja porque, mesmo respondendo, o mercado de trabalho é muito etarista para dar uma chance.

E aí deve sobrar para os filhos ou netos. Lembrei agora de uma palestra que assisti com a Mara Luquet num Seminário de Mães, quando o Luiz ainda era um bebê. E ela dizendo que a melhor coisa que podemos fazer pelos nossos filhos é cuidar das nossas finanças. Fazer um plano de previdência, uma poupança, um investimento, qualquer coisa que garanta nossa saúde financeira na velhice. (Já que a aposentadoria oficial costuma ser insuficiente.)

Pensei em tudo isso enquanto eu assistia ao curta de animação “Retirement Plan”, indicado ao Oscar neste ano.

Ao longo de menos de 7 minutos, vemos Ray (na voz do ótimo Domhnall Gleeson) fantasiando sobre tudo o que adoraria fazer na aposentadoria, assim que finalmente tiver “tempo”. Esta é, aliás, a sinopse que aparece no site oficial do filme.

Cena do curta-metragem de animação Retirement Plan, com direção e roteiro de John Kelly. Imagem: reprodução.

Com roteiro original e arte simples e elegante, este filmete tem a habilidade impressionante de nos fazer pensar sobre um monte de coisas, com tão pouca duração. Mais ou menos como “O Emprego” já tinha feito, anos atrás.

A gente pensa sobre tempo, perda de tempo, sonhos, a eterna busca pela felicidade. Pensa na satisfação (ou desilusão) com a vida. Pensa na importância do ócio e do lazer, em contraste com o trabalho. Pensa no desespero. O desespero de tentar abraçar o mundo, mesmo sabendo-nos completamente incapazes disso.

Pensa nas limitações humanas. Nas cobranças para sermos mais sadios, equilibrados, humanos, solidários, justos, gentis, inteligentes, perfeitos. Em estratégias e sabedorias para seguir tocando o barco, mesmo diante dessas limitações e cobranças todas.

Cena do curta-metragem de animação Retirement Plan, com direção e roteiro de John Kelly. Imagem: reprodução.

Fora todas as reflexões que ele suscitou em mim de ordem mais prática, como as que apareceram nos primeiros parágrafos deste texto. Será que algum dia eu irei me aposentar, no fim das contas?

Enfim, há muito no que pensar. E, embora seja uma verdadeira “crise existencial”, não é um filme triste ou angustiante, porque também são muitas as oportunidades de riso, as tiradas de humor sutil. Sempre podemos rir de nós mesmos, ele nos diz.

Cena do curta-metragem de animação Retirement Plan, com direção e roteiro de John Kelly. Imagem: reprodução.

Não por acaso, com tanto estofo em tão poucos minutos, este curta-metragem acabou recebendo diversos prêmios. Além da nomeação ao Oscar, venceu o Guadalajara International Film Festival, o Irish Film and Television Awards, Newport Beach Film Festival, Palm Springs International ShortFest, SXSW Film Festival, dentre vários outros.

Imagino que vocês estejam querendo assistir, depois de toda essa minha exaltação. A má notícia é que ele não está disponível em nenhum streaming no Brasil. Está no Disney+, Apple TV, Mubi e até YouTube, mas sempre para outros países e regiões.

Resolvi escrever para o diretor John Kelly questionando isso. Contei a ele que sou uma jornalista brasileira, que sempre escrevo sobre os filmes do Oscar aqui no blog, e que vinha tentando assistir ao Retirement Plan desde o início do ano, e estava frustrada com as restrições.

E perguntei: “Por que você não deixa o resto do mundo assistir e falar sobre seu belo trabalho? Não seria ótimo ver este filme alcançar um público maior?

Ele me respondeu com um link e uma senha para que eu pudesse ver o filme (e sou muito grata por isso!) e explicou:

“Essa é uma pergunta que me fazem com frequência — e eu adoraria poder disponibilizar meu filme gratuitamente em nível internacional, para que o maior número possível de pessoas pudesse assisti-lo.

No entanto, meu sonho é produzir cada vez mais curtas-metragens, e o licenciamento para diferentes territórios ao redor do mundo me proporciona uma pequena renda que viabiliza a continuidade do meu trabalho. Licenciar o filme para o Disney+ aqui na Europa me permitiu produzir um novo curta — Rat Story —, cuja animação estamos finalizando nesta semana. Isso também ajudou a custear a campanha de divulgação para premiações que levou o filme a ser indicado ao Oscar.

Essa é a realidade de muitos cineastas de curtas-metragens; licenciar o filme para quem tiver interesse em adquiri-lo é, atualmente, a única maneira de tornar essa atividade sustentável. Assim que esses contratos expirarem, daqui a alguns anos, vou disponibilizá-lo no YouTube ou no Vimeo para que as pessoas possam assisti-lo gratuitamente. Compreendo sua frustração e espero que isso responda à sua pergunta.”

Sim, John, compreendo e acho que está respondido. Aliás, já quero assistir ao Rat Story também, e espero que tenha o mesmo sucesso de Retirement Plan 🙂

Cena do curta-metragem de animação Retirement Plan, com direção e roteiro de John Kelly. Imagem: reprodução.

A verdade é que você, como todos nós, também quer ganhar dinheiro com seu trabalho. E entendo que essa seja a única forma de tornar sua atividade sustentável, pelo menos por enquanto.

Torço para que essa “pequena renda” que você mencionou possa crescer proporcionalmente à sua criatividade e que viabilize não só a continuidade do seu trabalho, mas também seu plano de aposentadoria no futuro 😀

***

Assista ao trailer de Retirement Plan:

Vale a pena assistir: Retirement Plan
2024 | 0h07 de duração | nota 9

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista desde 2007 (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), dona da empresa Kikacastro Comunicação desde 2022, blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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