Dois falsos heróis da História do Brasil

Texto escrito por José de Souza Castro:

Padre Antônio Vieira nasceu em Portugal em 1608 e, sete anos depois, desembarcou na Bahia, onde o pai ocupava o cargo de escrivão e onde mais tarde entrou para a Companhia de Jesus e despontou como pregador.

Só voltou a Portugal em 1641, na delegação baiana enviada a Lisboa para saudar o novo soberano português, Dom João IV. No ano anterior, depois de 60 anos de submissão à coroa espanhola, uma revolução restaurou a monarquia portuguesa e o duque de Bragança empalmou a coroa. Ficou fora do Brasil até 1971.Prossegue Jaime Klintowitz, em “A História do Brasil em 50 frases” (Rio de Janeiro: Leya, 2014):

“Em seu primeiro sermão na capela real, Vieira proclamou que Dom João IV era o “rei encoberto” das profecias de Bandarra. Começou ali a sólida amizade entre os dois homens. O jesuíta foi nomeado o principal pregador da Corte e conselheiro de confiança do rei. Entre 1641 e 1653, ele viveu o apogeu do prestígio e poder.

Vieira foi homem de grandes causas. Em Portugal, a primeira foi a luta pela legitimação de Dom João IV, o duque de Bragança, cujo governo sequer era reconhecido pelos outros monarcas. Boa parte de sua obra profética – que tanta dor de cabeça iria lhe causar no processo movido pelo Santo Ofício – foi escrita em favor do rei que restaurou a soberania portuguesa. A segunda foi a defesa dos cristãos-novos. Vieira foi o primeiro a desafiar abertamente o Santo Ofício. Considerava a divisão em duas categorias de súditos como obstáculo à consolidação do reino.

Queria também o apoio financeiro dos cristãos-novos e dos judeus no exílio para a causa do rei. Foi com a ajuda deles que Vieira criou, em 1649, a Companhia do Comércio do Estado do Brasil, conhecida como “companhia dos judeus”. O objetivo era enfrentar os holandeses em seu próprio negócio, o comércio internacional.

Os desafios enfrentados por Dom João IV eram enormes. Muitos fidalgos, e também o Santo Ofício, preferiam permanecer súditos da coroa castelhana. A guerra com a Espanha, que não aceitava a restauração portuguesa, exauria o tesouro real. E havia ainda o conflito com os holandeses, que ocupavam o Nordeste brasileiro e também Angola, na África. Em 1649, Vieira escreveu um parecer recomendando a venda de Pernambuco à Holanda. Parecia então a única saída. Portugal colocaria dinheiro em caixa e afastaria o risco de um ataque holandês a Lisboa.

A explicação era simples: naquele momento, a prioridade era salvar o trono de Dom João IV. Que reviravolta. No Brasil, ele fora testemunha do fracasso holandês em dominar Salvador (que ele atribuiu a um milagre de Santo Antônio) e dedicara alguns de seus sermões mais vigorosos a exortar seus contemporâneos a expulsar os “hereges estrangeiros” da colônia.

Muitos acontecimentos tomaram rumo diferente do previsto por Vieira. Os holandeses foram expulsos de Angola e se renderam em Pernambuco, em 1654. (…)

A escravidão é outro paradoxo do jesuíta. Aguerrido na luta pela liberdade dos índios, Vieira considerava justa e necessária a servidão dos africanos. É possível ler na coleção de seus sermões como ele explicou isso aos próprios escravos, em 1633.

O sermão foi proferido na capela de um engenho do Recôncavo Baiano. A plateia era uma confraria de escravos devotos de Nossa Senhora do Rosário. Com a habitual lógica retórica, o jesuíta sustentou que a “gloria dos pretos” residia na condição de escravos. Eles, mais que quaisquer outros, tinham o privilégio concedido por Nossa Senhora do Rosário de levar uma vida que era a imitação perfeita da paixão de Cristo: “Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. (…)

Vieira voltou para o Brasil em 1671 (…) Em 1691, Dom Pedro II [sucessor de Dom João IV] recorreu a seus conselhos numa questão de grande repercussão na história do Brasil. Tratava-se do Quilombo dos Palmares. O tratado de paz feito com Ganga Zumba fora rasgado por um grupo de revoltosos chefiados por seu sobrinho, Zumbi. (…) O rei tinha em mãos a sugestão de enviar os jesuítas diretamente aos quilombolas em busca de paz. O que Vieira achava disso?

A resposta foi veemente. Ele não confiava em escravo rebelado. Palmares devia ser destruída o quanto antes: “Esta mesma liberdade (se concedida) seria a total destruição do Brasil, porque conhecendo os demais negros que por este meio tinham conseguido ficar livres, cada cidade, cada vila, cada lugar, cada engenho seriam logo outros tantos Palmares, fugindo e passando-se aos matos com todo o seu cabedal, que não é mais que o próprio corpo.”

Pedro II escreveu pessoalmente a Vieira, concordando com seu ponto de vista, em 1692. Três anos depois, uma expedição comandada pelo paulista Domingos Jorge Velho derrotou os quilombolas e destruiu Palmares.

Antônio Vieira morreu dois anos mais tarde.”

aguia

O outro heroi

“Rui Barbosa de Oliveira nasceu na Bahia em 1849. Em 1871, concluiu o curso de direito nas Arcadas do Largo São Francisco, em São Paulo. (…)

Ele foi o primeiro ministro da Fazenda do governo provisório depois da proclamação da República, à qual aderiu de última hora. (…)

Vice-presidente do Senado, Rui alçou seu voo de águia na Conferência de Paz de Haia, em 1907, da qual participou como chefe da delegação brasileira. (…)

Haia consolidou o mito da genialidade e da erudição do político baiano. O codinome “águia”, entretanto, não foi concedido pelos notáveis presentes à conferência e, sim, inventado pelo Barão do Rio Branco, ministro de Relações Exteriores entre 1902 e 1915. Na fase do planejamento, Rio Branco anunciou que enviaria à Holanda uma “embaixada de águias”. Antes do embarque do embaixador, a revista O Malho já estampava uma charge dele [ilustração acima] representado por uma águia em viagem sob o título “Rumo da Holanda”.

Rui já era a Águia de Haia no momento em que, acompanhado da mulher e das filhas, pôs o pé a bordo do navio que o levou à Europa. (…)

No Brasil, divulgou-se uma versão exagerada de sua atuação, inflada por uma campanha de propaganda desfechada pelo Barão do Rio Branco.

Por falta de repercussão espontânea na imprensa europeia, Rui pagou 9.600 florins a um jornalista inglês, William T. Stead, para fazer uma reportagem laudatória sobre seu sucesso na conferência. A matéria foi publicada pela Review of Reviews, jornalzinho londrino especializado em resumir notícias da imprensa europeia. Traduzido para o português e engordado por outros textos, o trabalho de Stead virou um livro de grande sucesso no Brasil. Em menos de um mês, desapareceu das prateleiras a primeira edição de mil exemplares.

De volta ao Brasil, a Águia de Haia dedicou-se à obsessão de ser presidente da República. Foi quatro vezes candidato (1905, 1909, 1913, 1919), sem sucesso. (…) As derrotas produziram um homem ressentido (…) É o que reflete seu célebre lamento: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

Terminam aqui as citações do livro de autoria não de um historiador, mas de um jornalista, há quatro décadas. Jaime Clintowitz foi chefe de redação do Jornal do Brasil, editor da revista IstoÉ e do suplemento Folhetim da Folha de S. Paulo e secretário de redação da Última Hora. Há 22 anos trabalha na revista Veja, da qual é atualmente editor-executivo.

Sua visão da história, a partir de 50 frases muito conhecidas, é uma leitura agradável e inesquecível.

Na minha opinião, Rui Barbosa não foi o primeiro político brasileiro a pagar um jornalista para que ele escrevesse na imprensa um texto laudatório a seu trabalho. Mas é o mais ilustre. Ninguém, como ele, escreveu tanto. Suas obras completas foram publicadas em 150 volumes pela Fundação Casa de Rui Barbosa. E continua muito citado nos meios jurídicos e políticos. Por que não considerá-lo um patrono dos que se dedicam, no Brasil, a corromper a imprensa? (Brincadeirinha.)

Quanto ao padre Antônio Vieira… Ele mostrou que pode patrocinar várias causas, havendo interesse religioso, político ou econômico. É um verdadeiro herói brasileiro, mas se os portugueses quiserem disputar a honraria, vou torcer pela vitória lusitana — eu e os descendentes daqueles escravos que ele queria ver martirizados para merecerem o Paraíso (e para felicidade terrena da Casa Grande). Se o Papa Francisco quiser santificá-lo, que seja Santo Antônio Vieira mais um santo português.

Sobre o livro:

“A História do Brasil em 50 frases”
Jaime Klintowitz
Editora Leya Brasil
456 páginas
De R$ 28,80 a R$ 48
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