Para ver no cinema: ELA (Her)
Nota 9
“Ela” é um filme que transforma em roteiro nossos piores pesadelos sobre o futuro guiado pela tecnologia, que já discutimos à exaustão neste blog (veja a lista de posts no pé).
Imagine o mundo, talvez não muito distante, em que damos comandos ao nosso celular-óculos-qualquer-coisa, mandamos ele ler nossos e-mails em voz alta, deletar, enviar texto etc. Depois mandamos esse computador acessar um chat e interagimos com outras pessoas o tempo todo, via o equipamento-qualquer. Até aí, ótimo. E, realmente, bem próximo de nós, já que é algo que já existe e será banal com o Google Glass, óculos inteligentes que estão prestes a ser lançados no mercado.
Essa realidade, por enquanto, é a da interação entre seres humanos mediada por um computador. Algo simples e já velho, que apenas se tornará mais corriqueiro depois que os computadores vestíveis pegarem de verdade. E um tanto mais medonho, uma vez que será quase banal ver pessoas conversando sozinhas nas ruas, com suas máquinas, dando comandos, ou com outras pessoas, à distância. Como os que hoje já falam com seus fones de ouvido, mas de um jeito muito mais discreto e disseminado.
E piora. Imagine agora a existência de um sistema operacional tão incrível que, ao conversar com ele, você logo se esquece que está falando com um computador. Ele é um computador, mas com inteligência artificial tão potente que mais parece um humano.
Quais as consequências da existência de um O.S. (operating system) como este? Desde Isaac Asimov – e antes – já foram escritas várias histórias imaginando a possibilidade de humanos interagirem com máquinas da mesma forma como interagem com outros humanos. O que este filme proporciona é, no entanto, muito mais poderoso: fala de um ser humano que, literalmente se apaixona por – ama! – uma máquina, e todas as implicações disso. Inserido numa sociedade que já vê com olhos de banalidade essa relação inter…material? (Qual seria a palavra para o relacionamento entre humanos e O.S.s? A esta altura, até a palavra inter-racial vira obsoleta.)
O mais bizarro é que este filme nos insere de tal forma nessa realidade futurista, e lida com os equipamentos de maneira tão parecida com aqueles de que já dispomos ou já sabemos estar sendo desenvolvidos, que nós mesmos passamos a perceber aquela realidade como possível — e brevemente possível. É verossímil, e, por isso mesmo, extremamente assustador.
Ficção científica, drama ou terror? É difícil enquadrar o filme em alguma categoria, tamanhas as possibilidades de reflexão que ele nos traz. Nos faz pensar sobre o amor, a solidão, a felicidade — conceitos tão vagos que nos pegamos divagando: se a máquina pode proporcioná-los, do mesmo modo que os humanos, seria assim tão ruim? E logo vem um arrepio na espinha.
O mérito de se conseguir construir uma história tão excepcional é do roteirista e diretor, Spike Jonze (de “Quero ser John Malkovich“), que concorre ao Oscar pelo melhor roteiro original. Mas também dos atores, o excelente Joaquin Phoenix* (que capacidade de transmitir uma angústia!!), a sempre ótima Scarlett Johansson (uma mera voz, a voz da O.S., mas muito importante para o filme) e as também ótimas Amy Adams (que concorre pelo filme “Trapaça“) e Rooney Mara (de Millenium), que fazem pontas. Pena que nenhum dos atores tenha sido indicado aos Oscar. O filme também compete por sua trilha, canção original, design de produção e no prêmio mais disputado, de melhor filme. Merece tudo.
O futuro desenhado na história – palpável, próximo, verossímil – é sombrio demais. Esmagador. Solitário. Um punhado de seres humanos se esbarrando nas ruas, tão concentrados que estão em se comunicar com seus aparelhos-mascotes. Incapazes, por vezes, de interagir uns com os outros. Com o amigo no sofá de casa, pedindo ajuda, e o O.S. oferecendo uma piada mais tentadora.
Por outro lado, nos faz valorizar ainda mais nosso presente infantotecnológico. Valorizar, enquanto ainda existem, os contatos, os toques – os toques! Um sistema operacional pode ser inteligente, lúcido, interessante, pode atiçar a imaginação, mas nunca poderá tocar da mesma forma que os humanos. E faz a gente refletir mais uma vez sobre para onde estamos caminhando, que mundo será este das ultratecnologias e se será mesmo o melhor para nós – ou se, em última instância, acabará de vez com o que nos resta de humanidade.
* Joaquin Phoenix está tão diferente com este bigodão, que passei o filme inteiro enxergando o personagem Richard (Tom Selleck), namorado de Monica na série “Friends“. Mas o jeito de ele rir, bem apatetado, é idêntico ao do personagem Leonard (Johnny Galecki), outro “bobão”, no seriado “The Big Bang Theory“. Reparem só 😉

Assista ao trailer oficial do filme ‘Ela’:
Leia mais sobre as discussões tecnológicas:
- O caso de dois viciados em smartphones e tablets
- Finalmente surgem as reações aos viciados em smartphones
- Geração Robocop
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- O homem que enxergava
- Memórias virtuais
- Estamos ficando velhos
- De essencial a obsoleto
- Luto pelo email
Leia sobre outros filmes do Oscar 2014:
- Trapaça – nota 7
- Capitão Phillips – nota 9
- A menina que roubava livros – nota 8
- O Lobo de Wall Street — nota 9
- Blue Jasmine – nota 5
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“O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria.”
Isaac Asimov
Quanto ao filme, é capaz de ser interessante! No trailer quando ele diz que “Queria poder te tocar” e ELA responde “Como você me tocaria?” o Theodore Twombly não tem resposta para isso nem poderia ter. Uma original história de amor a assistir!
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