O “trabalho escravo” dos médicos e a conclusão de um debate

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Fizemos na semana passada um belo debate sobre o Programa Mais Médicos aqui neste blog, com direito a dezenas de textos a respeito – gráficos, artigos opinativos enviados por leitores e três textos escritos por médicos, exclusivamente para nossa reflexão kikacastrana 😉

Depois de tanta leitura, eu já tomei uma posição a respeito da proposta. Resumo no parágrafo abaixo:

Depois de ler que a estrutura dos hospitais cresceu muito mais que o número de médicos; sabendo que a quantidade de médicos no país nem é exatamente um problema, mas sua concentração nos grandes centros urbanos, deixando às moscas os ambulatórios nos rincões e nas periferias do país, é mais do que documentada; e que tentativas anteriores do governo de atrair médicos para essas franjas esquecidas não surtiram efeito, sou a favor da iniciativa de pagar R$ 10 mil para tentar incentivar médicos a, obrigatoriamente, atenderem nos lugares onde há mais carência de profissionais no SUS. Se não houver brasileiros suficientemente interessados nisso, sou a favor da vinda de médicos estrangeiros qualificados e dispostos a trabalharem nessas condições precárias para suprir a demanda. Também concordo que os alunos de faculdades públicas, que estudam bancados pelos nossos impostos, retribuam à sociedade – enquanto aprendem e se qualificam –, trabalhando por dois anos em unidades do SUS próximas à sua faculdade, e orientados pelos professores, aos moldes do que o governo propõe. (Estenderia esse tipo de retribuição a qualquer aluno de faculdade pública, de qualquer curso.) Concordo com os argumentos de Elio Gaspari e me posiciono contrária à mesma obrigação por parte dos alunos de faculdades privadas, como quer o governo. Por fim, acho que deveria haver uma força-tarefa real, por parte do MEC, para qualificar as atuais faculdades de medicina do país e fechar as picaretas, como defendeu o Túlio aqui no blog.

(Você ainda não fechou uma posição sobre um assunto tão importante? Clique nos links ao pé deste post para ajudar a arejar as ideias ;))

Eu só queria acrescentar mais uma coisa neste post, que foi inclusive o que me moveu a escrevê-lo, mesmo não me sentindo confortável para discutir temas de saúde pública, por ser totalmente ignorante no assunto, mera receptora de informações de quem conhece bastante a respeito.

Mas é que eu acho um absurdo esse boicote que está sendo proposto por médicos, provavelmente ligados a conselhos de medicina, por meio das redes sociais. Eles se articulam para se inscreverem em massa no programa e, no último minuto, desistirem, provocando um problemão para o cronograma do governo federal. Estão, com isso, prejudicando justamente os brasileiros que querem participar e forçando o governo a optar pelos estrangeiros. Alegam que a bolsa de R$ 10 mil oferecida para 40 horas semanais de trabalho é “subemprego” e “trabalho escravo” (juro que li isso em cartazes chiquérrimos, impressos em gráficas, empunhados por jovens de jaleco branco indignadíssimos). E eu vou falar o que acho disso: acho um desrespeito e um escárnio com a pobre população brasileira dizer que um trabalho que oferece R$ 10 mil por um período de dois anos é subemprego. É um tapa na cara de muita gente – inclusive na minha.

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Quando eu me formei em Comunicação Social, estava ansiosa para exercer minha profissão. Tinha completa noção de que estava verde ainda e que precisava aprender. Minha ideia sempre foi de subir degraus, um a um, com humildade, e tentando aprender ao máximo. Assim, enquanto eu fazia umas matérias para o jornal de uma igreja aqui de Belo Horizonte (detalhe: não sou religiosa), enviei meu parco currículo para todos os jornais que encontrei em todos os cantos do país, inclusive jornais de lugares distantes como Amapá e Rondônia. Também enviei meu “currículo” para um programa que me faria trabalhar na Rússia por dois anos, ganhando o equivalente a uns US$ 300 por mês. E me inscrevi em outro que pagaria ainda menos, para trabalhar em uma rádio num país africano. Estava ansiosa para aprender, trabalhar na área e disposta a ganhar pouco por isso, porque entendia que ainda tinha muito chão pela frente. (Meus passos acabaram seguindo outros rumos, mas, até hoje, com um tempo razoável de formada, estou bem longe de ganhar R$ 10 mil por mês!)

Agora os médicos recebem a proposta de ganhar uma bolsa de R$ 10 mil pra exercerem sua profissão num local onde há carência de médicos, onde ainda ajudariam a suprir parte dos problemas de saúde pública no país e vêm me dizer que estão sendo convidados a viver no subemprego? E ainda resolvem dificultar a vida daqueles médicos que não concordam com eles e estão a fim de ganhar essa bolsa – mas correndo o risco de não conseguirem a vaga por causa de um monte de gente querendo boicotar e tumultuar?

Tenho certeza que o Conselho Federal de Medicina deve ter razão em vários de seus argumentos contrários ao programa, que não são todos apenas corporativistas. Mas, então, apresentem um projeto melhor e parem de escarnecer com o resto da população brasileira.

Senão, daqui a pouco, como disse meu amigo Viktor Waewell, vamos ver milhares de professores protestando pelo país afora, exigindo que o governo crie bolsas de R$ 10 mil para também atuarem no interior, principalmente porque a precariedade das escolas nesses lugares distantes não deve ser tão diferente assim da que eles vivem todos os dias nas escolas das capitais. (E fica a dica para o Aloizio Mercadante…).

Leia o resto do debate:

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18 comentários sobre “O “trabalho escravo” dos médicos e a conclusão de um debate

  1. E olha que os professores já protestam por todo o país pelo cumprimento do direito básico garantido em lei que é o Piso do Magistério e sua “bagatela” de R$ 1.567 por 40 horas semanais… não é à toa que os cursos de licenciatura passam por um esvaziamento preocupante. Daí que eu também acho um absurdo falarem em “escravidão” (!) em relação a uma bolsa de R$ 10 mil por 40 horas semanais. Como uma colega me disse ontem, “quem dera ser uma escrava por 10 mil!”.

    Muito bom o debate que você promoveu aqui no blog, Cris! Valeu mesmo! 🙂

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  2. Parabéns pelo debate.
    “incentivar, obrigatoriamente, os médicos trabalharem no interior”. Incentivar obrigatoriamente?
    Deve-se acabar com a Universidade Pública Gratuita no Brasil – pode começar este debate.

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    • A construção ficou ruim, mas não está errada, Túlio. O incentivo é pela adesão ao programa — que é livre, vale lembrar aos escravinhos. A obrigatoriedade é para que os médicos selecionados no programa atuem em áreas com carência de médicos estabelecidas pelo governo federal. Não podem se inscrever, ganhar a bolsa de R$ 10 mil e depois fugirem de volta pra São Paulo ou Beagá.

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  3. Guria, confesso que fiquei em apuros nesse debate, por não ter maiores informações. Eu seguia algumas ideias, mas quando falta alguma coisa guardo meus pensamentos até conseguir uma direção melhor ..hehe terminando meu blábláblá, gostei do debate e dos textos, parabéns! =)

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  4. Cristina, gostei do seu blog e dos textos. Já tô aqui tem umas 2 horas lendo diferentes textos. SOu brasileiro, médico formado em 2010 e ainda concluindo minha especialização. Estou fazendo Pediatria e pretendo fazer Alergologia depois. Pretendo voltar pra minha cidade no interior da Bahia. Não é nenhum fim de mundo, algo em torno de 100 mil habitantes. Mas qquer cidade do interior da Bahia sofre com uma escassez de médicos. Esse texto especificamente da “escravidão” não concordei. Porque? Justifica pagar um salário de 10 mil, 20 mil ou 30 mil pra obrigar alguém a trabalhar onde não quer? Como morador no momento do interior do Rio, nunca passei por aperto de ver paciente morrendo por falta de condições. Mas durante meu rodízio numa UTI, vi várias vezes minha médica supervisora negando vagas pra crianças de cidades da vizinhança. Negando vaga, porque não tinha. Que destino tiveram essas crianças? Não sei. Morreram? Melhoraram? Conseguiram vaga em outra cidade? Tive relatos de amigos próximos, pessoas em quem confio que não fizeram residência médica direto, e preferiram trabalhar ao se formarem. Alguns foram pra cidades do interior. O que durou mais foi 3 meses. Razões? Várias. Posso citar: Falta de local pra atender com dignidade: Falta cadeira/ falta maca, falta janela no consultório/ falta pia pra lavar as mãos/ falta mesa pra escrever. Falta de liberdade: Um colega meu era PROIBIDO de se ausentar de uma cidade no interior de Minas pq era o único médico da cidade. Pediu demissão, cumpriu os 30 dias de aviso prévio e foi embora. Não podia visitar a família, não tinha dia de descanso. Ele estava de plantão 24/7. Quando não estava no hospital, batiam na porta da casa dele. O stress foi tanto que não aguentou. Não pagam: Prometem salários de 15, 20, 30 mil. No primeiro mês pagam metade, alegando que vão complementar depois, no segundo mês não pagam, no 3º mês meu colega já não estava mais lá. Falta material básico: Outro colega perdeu a calma quando chegou um paciente com laceração na perna e não havia material para sutura básica. Entre outros que reclamavam que a farmácia não tinha medicação básica. Faltava soro fisiológico nasal, dipirona, metoclopramida (plasil). Faltava tudo. Fora os que foram demitidos por não concordarem em fazer propagando política pro prefeito com os pacientes ou pro denunciarem essas falhas. Então quando falam em escravidão, não é uma questão de salário. Eu falo de escravidão por ficar nesses locais sem opção de ir embora, vendo pacientes morrerem por falta de coisas básicas. Sabe o que acontece com os médicos que denunciam essas faltas de infraestrutura? São demitidos. A carreira de estado seria uma solução boa, porque dá estabilidade, e em casos deses onde o médico denuncia, o prefeito não pode “se vingar” e têm que resolver. Mas nenhum deles que resolver os problemas. O objetivo deles é que todos sejam atendidos, mas nenhum problema resolvido.

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    • Olá, Gabriel! Eu só não sei se dá para dizer que são “obrigados”, uma vez que, para entrar no programa, os médicos já são bem informados sobre os locais onde vão atender, e são livres para sair se não gostarem. Mas achei muito boas suas informações/observações sobre a realidade dos hospitais. Como é uma realidade muito diferente da minha, acho muito enriquecedor quando um médico vem aqui e se debruça sobre o debate, destalhando experiências de vida únicas. Inclusive essa era uma razão para eu não ter querido dar pitaco sobre um debate tão complexo, mas acabei não resistindo e saiu este post.
      No mais, fico feliz que tenha gostado do blog e lido vários textos nas últimas horas! Volte sempre 🙂
      Um abraço!

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  5. Grabriel Brito, sou enfermeira coordenadora da Atenção Básica,numa cidade do interior do RS(município de 2.000 habitantes) . Temos dificuldades para que os médicos permaneçam na ESF mesmo o nosso município oferecendo todas as condições, equipamentos e insumos necessários. Temos uma UBS com estrutura ótima, equipe completa, com especialistas, garantia de exames, consultas especializadas, serviço hospitalar com referência garantida, salário de R$ 15.000 pago religiosamente todo mês, enfim, o município oferece todas as condições para que se realize um trabalho digno e mesmo assim os profissionais médicos não ficam satisfeitos. Ficam o tempo todo falando mal do SUS, sendo que os próprios fazem parte do sistema e que o sistema depende também deles para funcionar adequadamente.
    Com base na nossa realidade, posso afirmar que a falta de condições de trabalho não é o motivo que justifica a falta de médicos nas pequenas cidades.

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    • Quênia, você pegou como exemplo um município em todo o território nacional. Não dá pra se basear nisso. Me baseio em experiências de 5 colegas próximos que tomaram calote em cidades do interior. Mas já que está assim, em faça o seguinte. Esse salário é concurso público? Ou é contrato de boca? Tem férias? 13º? Desconto de IR, INSS, FGTS? Carteira assinada? Se sim, me passe seus contatos. Existem colegas que formam no final do ano e têm interesse em ir trabalhar no interior de mala e cuia por 1 ou 2 anos se a proposta for boa assim. Ainda mais com infra-estrutura como você falou. Qual a cidade mesmo?

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      • Olá, Gabriel! Esta realidade não é só do meu município, mas da maioria dos municípios da região. O contrato é terceirizado, não é de boca, não! Podes encaminhar seus colegas que tenham interesse em fazer um bom trabalho de saúde da família, que trabalhem em equipe, que serão muito bem vindos! O município é Protásio Alves/RS. Podem encaminhar currículos para: administracao@pmprotasio.com.br ou saude@pmprotasio.com.br.

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      • Vou encaminhar esses contatos para meus amigos, não sei se nenhum deles irá realmente te responder, pq sair do interior do Rio de Janeiro pro interior do Rio grande do Sul é muito chão. Mas vou fazer minha parte e divulgar seus e-mails pra eles, pra ver se rola pelo menos um contato. Grato.

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  6. olá. sou medico e vi esse texto por acaso. Gostaria de comentar algo que acho muito importante, pois está totalmente deturpado.
    Não sei o que você viu ou ouviu sobre “trabalho escravo”, mas o que nós (pelo menos eu e meus colegas) reclamamos é do trabalho civil obrigatório!
    10 mil é um ótimo salário. Mas, mesmo que oferecessem 50 mil, o errado é ser obrigatório! Não podem obrigar um pai de família a se mudar para outra cidade por 2 anos! Não podem nos obrigar a trabalhar para o governo! Esse é um país livre (eu achava). Ofereçam o emprego, façam concurso público (e assim teremos direitos trabalhistas), e deixe quem quiser ir trabalhar. O salário é bom, errado é ser obrigatório!

    Não esqueçam que todos os estudantes de escolas públicas, de medicina ou não, tem pais que pagam impostos, e vão pagar impostos o resto da vida após a faculdade. Portanto, eles, médicos ou não, não devem ser obrigados a trabalhar para o governo como forma de compensar, já que “fizeram o curso com impostos pagos por terceiros”. Durante a sua vida profissional, ele vai pagar impostos que cobrirão os custos de outros estudantes. Isso já é a sua contribuição!
    Portanto, é bom não deturparem a reclamação da classe! O dinheiro que pagamos em impostos já é alto suficiente para não termos nem direito à educação mais!

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  7. Lógica da jornalista: todo funcionário público tem direito a carteira assinada, concurso público etc menos o médico, e quando este se recusa a trabalhar como temporário (contratado), é o carrasco da história. Sou favorável a que todos os estudantes de universidades públicas paguem mensalidades ou trabalhem para o Estado após se formarem, assim como a jornalista defende o trabalho no SUS para os médicos formados em universidades públicas.

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