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Minhas soluções contra a licença para matar (de carro)

Land Rover que atropelou Vitor Gurman, em julho de 2011, logo após o acidente numa rua tranquila de São Paulo. Reparem na placa de 30 km/h logo atrás. Para a Polícia, a motorista tinha bebido. Ela diz que ingeriu "apenas uma margarita" naquela noite. Foto de Silvio Portante/Folhapress.
Land Rover que atropelou e matou Vitor Gurman, 24, em julho de 2011, em foto tirada no dia seguinte ao acidente numa rua tranquila de São Paulo. Reparem na placa de 30 km/h logo atrás. Para a Polícia, a motorista tinha bebido. Ela diz que ingeriu “apenas uma margarita” naquela noite. (Foto de Silvio Portante/Folhapress.)

O garoto tem 18 anos de idade. Bebeu, depois dirigiu. Perdeu controle do carro, que só tinha permissão para guiar havia seis meses, e invadiu a calçada, após um cavalo-de-pau. Bateu em mãe e filha que estavam, de mãos dadas, passeando por ali. Prensou a filha, dois anos de idade, lindeza pura, contra um portão. Duas vezes. Ela morreu na hora. A mãe se machucou pouco, teve alta no mesmo dia. Mas adquiriu uma chaga permanente, incurável. Não vai adiantar o garoto responder pelo crime de homicídio com dolo eventual, ficar anos na cadeia. A chaga permanecerá.

E aquele rapaz é só uma consequência de uma cultura de décadas, incrustada na nossa sociedade. Que diz, que grita, que propaga: beber é bom e beber antes de dirigir é OK. Uma latinha só tá valendo (até a Lei que valia até pouco tempo atrás dizia isso, gritava isso: uma latinha pode! Uma latinha pode!). E é bom ter máquinas potentes, cada vez mais potentes, correndo pelas ruas. Dane-se o pedestre, o dono da rua é o carro. Aliás, danem-se também os ciclistas, os ônibus. A cultura é a do carro e a do álcool e essa cultura entra na cabeça do jovem com a facilidade proporcional a sua imaturidade.

Quem lê meu post deve achar que sou superior a esta cultura. Nada disso. Eu bebo. Hoje em dia não mais dirijo com frequência, nem tenho carro, nem sei se quero voltar a ter. Mas já tive e já dirigi depois de beber. Usei meu primeiro salário para pagar a aula de legislação e, com os seguintes, a de direção. Era minha prioridade zero. Só não posso assumir a culpa pelo desprezo geral contra pedestres, porque sempre os respeitei, inclusive porque eu mesma adoro caminhar. Mas todo o resto eu já fiz. Meu anjo da guarda cansou de me salvar e, mais importante ainda, salvar os outros inocentes ao meu redor. Contou com o fato de que dirijo muito bem, mas certamente é um milagre que eu nunca tenha batido o carro, nem tenham batido em mim. Talvez com o propósito de me fazer chegar até este dia de hoje, defensora veemente da alcoolemia zero ao volante, a única taxa segura conhecida.

Não adianta só prender o garoto de 18 anos. Claro, ele deve ser responsabilizado, mas nada vai mudar realmente enquanto essa cultura não mudar. E, para isso acontecer, é preciso muita coisa: a começar por proibir certos comerciais na TV, como já aconteceu com os cigarros.

No dia em que chegarmos ao nível de preconceito a que estão submetidos os fumantes hoje, em relação aos que bebem e dirigem, provavelmente vamos ter obtido algum sucesso. E olha que os que fumam, em tese, só estão prejudicando a si próprios. Os que bebem e dirigem receberam carta branca para matar. Licença para matar. Dizem que a Constituição garante o direito de ir a vir, mas não garante o direito de ir e vir dirigindo por aí. O que permite a alguém fazer isso é um negócio chamado licença, que só é dado a quem tem condições seguras para isso – e, como o nome diz, é só uma licença, algo temporário, não definitivo e com condicionantes básicos. Por isso, acho que cassar a licença em definitivo seria a punição adequada para muitos desses jovens inconsequentes. Os que dão de ombros para a multa de quase R$ 2 mil, mas não se imaginam sem o carrão, aquela máquina potente e idolatrada, extensão de sua masculinidade. Cassem-lhe as licenças!, diria a Rainha de Copas.

Outra solução para o problema, no meu ponto de vista, é aumentar a idade mínima para obtenção da licença. Com 18 anos todo mundo é imaturo e idiota – eu já fui, eu também já dirigi depois de beber. Claro que não dá pra saber qual a idade em que a pessoa já está madura. Há os que demoram 40 anos para atingi-la, há os que chegam aos 18. Mas, de um modo geral, pelo que conheço da minha geração e da posterior a ela, aos 18 ninguém está maduro ainda, não. Pelo contrário, está acabando de entrar na faculdade, com todas aquelas festas, aquela liberdade, aqueles doidões da Belas Artes, os pseudo-revolucionários do DCE etc. Quase que dá pra dizer que é o pico da imaturidade na vida da maioria. Aos 25 já se espera – e já há uma cobrança social e cultural nesse sentido – que a pessoa esteja trabalhando, pagando as contas, saindo da casa dos pais, em um relacionamento mais estável etc.

E aí teremos o seguinte caldeirão: pessoas mais velhas e mais maduras antes de obter licença para dirigir, num contexto cultural que não incentiva e até discrimina quem bebe e depois dirige e com multas e prisão pesada para os poucos que fogem da curva. Esse foi o caminho percorrido pela maioria dos países ditos desenvolvidos, que até muito pouco tempo atrás também tinham índices de mortos em acidentes nas estradas altos como os nossos (no Brasil, da ordem de 42 mil por ano, uma epidemia, uma guerra), como a Espanha, e que hoje vivem uma curva normal, que dá o devido significado acidental à palavra “acidente”.

E o garoto de 18 anos teria uma vida normal. E os pais da linda Anna Victória, de dois anos, também teriam uma vida normal. E o Natal seria mais fácil para todos.

***

PS. Assisti ao documentário abaixo, Luto em Luta, quando ele estreou, em setembro, ainda em São Paulo. Se conseguirem o DVD, vale a pena ver:

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

2 comentários em “Minhas soluções contra a licença para matar (de carro) Deixe um comentário

  1. Boas soluções. Incrementá-las… eis a questão! Começando pela proibição de propagandas de bebidas alcoólicas na televisão. Isso mexe com empresas muito poderosas e com forte lobby no Congresso. Mas não é impossível. Há precedente – o cigarro. A maior dificuldade é adiar a concessão das carteiras de habilitação, para uma idade mais madura. Aí o bicho pega, Cris. É grande o poder dos jovens, que até podem votar para presidente da República e governador, aos 16 anos. Quase tão grande quanto o da indústria automobilística que lucra muito entregando a direção de automóveis a esses jovens. Essa indústria não dispensa o poder destrutivo deles para renovar mais rapidamente a frota, com anúncios cada vez mais atraentes na televisão – de bebidas e de carros. Vamos ter que escrever sobre esse problema por muito tempo ainda, na esperança vã de mudar a mentalidade predominante dos brasileiros que vivem em guerra nas estradas e nas ruas, sem se darem conta disso.

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    • É, vai ser uma guerra dura… Esqueci de abordar a indústria automobilística, que é uma das grandes responsáveis por essa cultura errada. Em seus comerciais, ela não costuma misturar a questão do álcool, mas sempre coloca um motorista a 200 km/h, em ruas desertas irreais, fomentando a velocidade excessiva, que também é uma das principais responsáveis pelos acidentes com vítimas fatais…

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