“Um a menos” pra dar trabalho pra PM

assassinato-negro-alagoas

Ainda sobre o tema violência seletiva, de que tratei nos posts de ontem e de sábado (dentre vários outros na história deste blog), gostaria de relatar uma conversa  — na verdade, quase um monólogo — que entreouvi dentro de um ônibus em Beagá, uma semana após o confronto que acabou com um morto no Aglomerado da Serra (o maior conjunto de favelas da capital mineira) e um sargento da PM, autor do disparo, preso:

“Quando meu menino morreu, minha cunhada disse que ouviu do policial militar: ‘Ainda bem, é um a menos pra dar trabalho pra gente.’ Ela reagiu, falando que meu menino era só uma criança, que só morreu naquela lagoa porque teve câimbra e tinha eletricidade na água, senão ele teria saído vivo, porque nadava como um peixe, e era um menino de ouro, estudioso e carinhoso, que não era um marginal. Ainda bem que eu não estava lá, porque teria sido presa, porque com certeza ia voar naquele policial se ouvisse ele falar assim do meu filho! É por isso que muita gente é revoltada com a polícia e prefere os bandidos. Tem muita polícia que não presta mesmo. Que atira primeiro e depois vem falar que é bandido. Numa vez, um policial invadiu uma casa e começou a bater num garoto que estava lá. Bateu, bateu, sem parar, e só parou porque a mãe do menino apareceu berrando, sem medo de nada, que ia denunciar o policial. Senão estaria batendo até agora na criança.”

Foi só esse trechinho da conversa-desabafo que pude ouvir, mas já me impressionou pelo teor das denúncias, em tão curto espaço de tempo, e pela voz calma com que a moça relatava tudo para a amiga, como se fosse parte da paisagem, do cenário inevitável da vida em que ela está mergulhada. Como se já não coubesse sofrer.

“Um a menos pra dar trabalho” parece comentário de caixa de bilheteria de cinema, quando vê uma pessoa sair da fila porque desistiu de ver o filme. Não condiz com a gravidade do comentário de um servidor público, garantidor da lei, ao atender ao chamado para uma criança que morreu afogada em uma lagoa. Daí me ocorre: teria ele feito o mesmo comentário se fosse uma criança rica, branquinha, aluna da escola particular mais caras, filha de médicos da alta sociedade, moradora de bairro nobre etc? Duvido muito.

A violência é seletiva em todas as suas formas, inclusive nas verbais.

Anúncios