Pesquisador diz que 15% dos jovens não têm amigos íntimos e pandemia acelerou ‘recessão da amizade’; texto destaca importância dos encontros ‘com intenção’
Outro dia dei uma sugestão de newsletter, a Veredas, para todos que se preocupam com questões ambientais. Hoje volto a sugerir que assinem uma newsletter, mas com uma proposta totalmente diferente.
Ela é feita pela Contente.vc, plataforma criada em 2010 que “trabalha para promover uma conexão genuína e uma vida digital mais atenta e consciente”. Para quem não conhece, a Contente é um estúdio de criação presente no Instagram (640 mil seguidores) e LinkedIn (58 mil), criado pela excelente jornalista Dani Arrais, com quem trabalhei, em outra vida, na “Folha de S.Paulo”.
Logo no segundo email que recebi, já fiquei bastante tocada. A Luiza Voll, sócia da Dani, escreveu sobre a importância dos encontros e das amizades.
Ou melhor: da importância de significar os encontros, principalmente se são entre amigos. De colocar intenção neles.
Vou deixar ela explicar melhor:
“Estou em um momento da vida em que nada parece mais precioso do que as minhas conexões verdadeiras, principalmente as amizades. E, ao mesmo tempo, também me vejo em uma incessante busca por mais sentido em tudo o que eu faço. Depois da maternidade o tempo fica mais escasso e cada escolha de como usá-lo tem um pouco mais de peso. Pais e mães que me lêem: é ou não é assim?
Feita essa intro, tenho pensado cada vez mais no porquê de tudo. E existe algo que quero tirar do automático: o porquê nos encontramos.
Quem ajudou a despertar essa faísca dentro de mim foi um livro da Priya Parker, facilitadora, consultora estratégica e escritora, que se chama “A arte dos encontros: como se reunir e a importância de estar perto dos outros”. Nele, a autora nos ajuda a enxergar que, quando o assunto são encontros, a gente sempre acaba pensando neles de forma meio parecida e automática. Aniversários, casamentos, chás de bebê, jantares de amigos, festinhas, viagens. Se você pensar, tudo tem mais ou menos a mesma estrutura. Mas o que será que poderia acontecer se pensássemos com mais intenção no que estamos precisando uns dos outros em cada ocasião? Será que não criaríamos milhões de rituais diferentes?
O que alguém pode precisar de um aniversário?
Talvez um pouco de força de quem mais se ama depois de um ano difícil.
O que uma dupla pode desejar em um casamento?
Proporcionar uma expansão de famílias, desde a de sangue até a escolhida.
O que futuros pais e mães podem precisar de um chá de bebê?
Receber conselhos para verdadeiramente cuidar de uma criança de forma mais equilibrada.
O que alguém pode precisar em um jantar de amigos?
A sensação de começar a criar raízes em um novo bairro ou cidade.
O que alguém pode precisar em uma festinha?
Conhecer pessoas novas sem ser em uma rede social.
Esses são apenas alguns exemplos que mostram que, quando nossos encontros têm de fato um objetivo, tudo pode ficar mais claro – e mais interessante.”
O texto dessa newsletter continua, com Luiza descrevendo um encontro incrível que ela teve com suas melhores amigas, e como ela planejou um gesto – com intenção – para ajudar a marcar aquela experiência tão especial.
Eu já fiz coisas parecidas (como comprar coraçõezinhos de chocolate para todos os amigos nos encontros de fim de ano, ou os cartões quilométricos que eu entregava nos aniversários, ou ainda o “Oscar” que eu promovia com os colegas de trabalho), mas nada igual ao que ela fez com as melhores amigas – nem que tenha provocado o mesmo impacto.
Recessão da amizade
Terminei de ler o email com lágrimas nos olhos, e bastante reflexiva.
Quando eu era criança, tinha uma turma grande de amigos da escola. Mudei de escola, e nunca mais os vi.

Na escola nova, formei outra turma grande de amigos. Éramos muito próximos, muito amigos, como é comum acontecer na adolescência. Mas não tínhamos quase nada em comum (hoje vejo). Os anos foram passando, e eles foram seguindo seus rumos, um a um.
Hoje, quando reencontro algum deles, ainda é gostoso, mas isso é cada vez mais raro. Juntar todo mundo, então, nem se fala. Fiquei pensando se faltou intenção em nossos encontros dos últimos anos, se eles não estavam automáticos demais. Se não ficaram forçados.
Isso aconteceu também com outras turmas de amigos. A pandemia serviu para mostrar como os encontros são preciosos, mas também esfacelou relacionamentos que já estavam em frangalhos.
E isso não aconteceu só comigo, mas com muita gente. Um link no final da newsletter trouxe os seguintes dados do pesquisador sênior da Brookings Institution Richard Reeves, sobre uma “recessão da amizade” que ele diz estar ocorrendo no mundo hoje:
- a solidão pode ser tão prejudicial quanto fumar 15 cigarros por dia;
- é difícil medir e quantificar as amizades, mas o número ideal de amigos próximos gira em torno de três ou quatro;
- de forma alarmante, 15% dos jovens hoje afirmam não ter amigos íntimos, em comparação com 3% na década de 1990;
- a pandemia de Covid testou ainda mais as redes de amizade, sendo as mulheres as mais afetadas;
- outros fatores que contribuíram para o declínio das amizades no século XXI incluem mobilidade geográfica, exigências parentais, trabalho e rupturas de relacionamento.
O pesquisador destacou a importância de reconhecer e nutrir amizades, pois elas não se formam espontaneamente. “Admitir o desejo de ter amigos exige vulnerabilidade e abertura, o que pode ser difícil para alguns indivíduos”.
Quantos amigos você tem?
Hoje tenho quase 39 anos e não sei dizer quantos amigos próximos, ou íntimos, eu tenho. Mas desconfio que são bem poucos.
Tentei me imaginar num encontro mágico como o da Luiza e suas melhores amigas, que abriram mão de filhos e compromissos (por uns diazinhos, claro), só para aproveitarem esse tempo juntas. Não consegui me ver em uma situação parecida.
Fiquei triste, claro. Percebi que, embora eu tenha me relacionado com muuuuuitas pessoas ao longo da vida, consegui criar muito poucas conexões reais. Bom, tem meu pai, tem o Beto e tem o Luiz – as três pessoas com quem mais me conectei na vida. Mas eles são, respectivamente, meu pai, meu marido e meu filho. Então me peguei perguntando: “Quantos amigos você tem, Cris?”.
Coincidiu de meu pai ser internado um dia depois de eu ler esse texto, e, ao longo dos dez dias em que ele ficou na UTI, eu me senti bem sozinha – primeiro sem me sentir à vontade para falar a respeito com nenhum amigo, ninguém fora da família; depois, quando eu já tinha contado para todos, sem me sentir realmente amparada por nenhum amigo ou amiga – por mais carinhosas que tenham sido várias mensagens que eles me enviaram.
(Por outro lado, acho que a conexão com as minhas irmãs se fortaleceu muito – o que já é um privilégio.)

Nada disso que estou falando é culpa de ninguém, nem estou “cobrando” ninguém. É só uma constatação de como as coisas são. Ou melhor, deve ser culpa desse meu jeito de ser, meio distante, meio “descarinhosa” (como definiu o Beto logo que nos conhecemos). Mas eu nasci assim, então não sei muito bem como consertar um jeito de ser.
Acho que, dificilmente, a esta altura da vida, eu vá conquistar novas conexões profundas em forma de amizade, como as que vi descritas na newsletter da Contente. E tudo bem. Mas vou tentar me propor que cada encontro, mesmo os mais singelos, sejam menos práticos, mais intencionais. Não sei se vou conseguir, mas vou seguir tentando.
E você? Como estão sendo seus encontros? Como são suas conexões com os amigos? Espero que duradouras, fortes e sinceras ❤
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Mãe de um bebê de 09 meses me deparo as vezes com uma sensação de abandono das minhas amigas. Sei que a vida é corrida e que certamente não há essa intenção por parte delas, mas para além dos comentários de stories e conversas rápidas no WhatsApp de que essas relações se sustentam
tenho minha contribuição nisso, mas é estranho sentir esse vazio em relação a amoazade.
Adorei seu texto e sigo tentando entender as mudanças que a maternidade trouxe e o que ela evidenciou.
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Talvez não seja a maternidade em si, mas a vida adulta que vai empurrando a gente pra esses momentos de solitude, de menos amizades profundas, íntimas, como as que a gente tinha na juventude. Espero que, no seu caso, seja só uma fase, e que logo você se veja cercada de atenção e carinho das amigas mais importantes para você 🙂 Abração e volte sempre!
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