Vale a pena ver no cinema: MARTE UM
2022 | 1h55 de duração | Nota 9
Fiquei com vontade de ver o filme “Marte Um” desde janeiro deste ano, quando meu colega Zu Moreira escreveu uma matéria linda sobre ele, editada por mim, contando que o longa nascido na periferia de Contagem ia representar o Brasil no Sundance, um dos mais importantes festivais de cinema do mundo.
Em 5 de setembro, minha vontade aumentou ainda mais, quando a Academia Brasileira de Cinema escolheu “Marte Um” para representar o Brasil, desta vez na disputa por uma vaga no Oscar 2023.
Com isso, o filme já fez história: foi o primeiro dirigido por um negro, Gabriel Martins, da Filmes de Plástico, a ser indicado pelo Brasil para disputar uma vaga no Oscar.
Nossa Academia fez um resumo muito correto do que é este filme. Nas palavras da presidente da comissão julgadora, Bárbara Cariry:
“O filme trata de afeto e de esperança, da possibilidade de seguir sonhando em meio a tantas dificuldades econômicas e políticas”.
Logo na primeiríssima cena, vemos o personagem Deivinho, um adolescente franzino, de óculos grossos, deitado olhando para o céu estrelado, e ouvindo fogos de artifício pipocando após a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018.
Não se preocupem, o atual presidente só será citado mais uma ou duas vezes depois. Mas seu governo serve de contexto e de pano de fundo para o Brasil vivido pela família Martins, que é uma família negra, moradora da periferia, que sintetiza a vida e a rotina de muitas outras famílias brasileiras – coincidência ou não, tem o mesmo sobrenome do diretor, mas também é um sobrenome comum no país, como Silva.
Deivinho não está olhando para o céu à toa. O céu é o sonho dele. Ele quer se tornar astrofísico e participar da missão Marte Um, para colonizar o planeta vizinho em 2030.
Também funciona como metáfora, claro. É uma criança olhando para o futuro, olhando para seus sonhos, num momento histórico em que o Brasil elegia um sujeito que prega o ódio contra as minorias, os negros, os mais pobres, enfim, contra a felicidade de famílias como a Martins.
Passamos as quase duas horas seguintes torcendo por esta família, torcendo para que seja possível realizarem seus sonhos mesmo diante desse cenário nebuloso. Será que vão conseguir?
Os personagens são brilhantemente interpretados por atores incríveis, a começar pelo estreante Cícero Lucas, que faz o caçula. Mas temos Rejane Faria, que faz a mãe Tércia, Carlos Francisco (o pai, Wellington), Camilla Damião (a filha, Eunice), Ana Hilário (sua namorada, Joana), e ainda o rapper Russo APR, o humorista Tokinho e o jogador de futebol Sorín, que fazem participações bem especiais.

Um dos melhores filmes do Brasil
Chorei em vários momentos desse filme, que considero um dos melhores já produzidos no Brasil.
Chorei não só nas horas difíceis, em que parecia que eles estavam se embolando nas teias da sociedade, mas também nas horas tocantes, em que quatro membros de uma mesma família (ou cinco, com a chegada de Joana), se apoiavam, cada um à sua maneira, cada um com suas dificuldades.
Este filme também é um lembrete de que todos estão vivendo batalhas pessoais que muitas vezes os outros nem imaginam.
E outro lembrete de que os filhos vivem suas próprias vidas, têm seus próprios sonhos e desejos, que nem sempre vão coincidir com o que seus pais sonharam para e por eles.
“Você vai casar”, “você vai ser jogador de futebol”, “você vai se formar primeiro”, “você não pode ir para essa palestra”.
Frases no imperativo não carecem de amor, mas são pouco eficazes, mais afastam que ajudam ou protegem. Graças a frases como estas, o menino que queria ser astrofísico, em vez de craque do futebol, toma uma decisão drástica que pode pôr tudo a perder.

Em vez de frases assim, cenas como a das canequinhas, a da cadeira consertada, a da filha assistindo ao discurso emocionado do pai, a da família observando o céu, são mais eloquentes no afeto, no carinho e no apoio do que qualquer palavra daria conta de ser.
O afeto se faz de várias formas: tanto pelo abraço quanto pelo olhar, tanto pelas palavras de um cartão quanto pelo apoio incondicional pelas escolhas de vida que os filhos tomam – afinal, as vidas são deles, não nossas.

Assim, embora muita gente enxergue este filme como político, ele me tocou mais por seu lado familiar. Mas é uma decisão política e pensada do diretor Gabriel Martins colocar apenas atores negros em quase todos os papéis – acho que a exceção está na patroa e no homem-bomba, e não é coincidência que os dois personagens que mais causam estragos àquela família sejam brancos.
“Será que vão conseguir?”, foi a pergunta que fiz lá atrás. Não há resposta para esta pergunta. Talvez muito se responda no dia 30 próximo, quando o Brasil escolherá entre um projeto de governo racista, discriminatório e violento e outro que pretende proteger as populações mais vulneráveis.
Mas já dá uma esperança boa ao vermos um diretor da periferia de Contagem, aqui na Grande BH, batendo às portas da maior premiação de cinema do mundo, o Oscar. É como um Deivinho chegando à Nasa. Se for efetivamente selecionado pela Academia de cinema dos Estados Unidos e se levar a estatueta, será como Deivinho indo para Marte.
Não sei se vão conseguir, mas estou ao lado da metade da população brasileira que torce para que consigam tudo, tudo aquilo que ousarem sonhar.
Veja o trailer do filme ‘Marte Um’:
Leia resenhas de outros filmes nacionais:
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- Bacurau (nota 9)
- O Palhaço (nota 8)
- À Beira do Caminho (nota 8)
- Heleno (nota 8)
- Gonzaga – de Pai para Filho (nota 8)
- Cine Holliúdy (nota 7)
- Turma da Mônica: Laços (nota 6)
- Bruna Surfistinha (nota 6)
- O Menino e o Mundo (nota 6)
- O Dia do Galo (nota 8)
- Breve menção: Xingu e Estômago (notas 7 e 8)
- Não escrevi no blog sobre Linha de Passe e Que Horas Ela Volta?, mas recomendo muito os dois!
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