Caso Geddel: ex-ministro da Cultura denuncia Temer

Cerimônia de posse de Marcelo Calero como Ministro da Cultura, em maio de 2016. Foto: Beto Barata/PR

Cerimônia de posse de Marcelo Calero como Ministro da Cultura, em maio de 2016. Foto: Beto Barata/PR

Texto escrito por José de Souza Castro:

Manchete às 19h desta quinta-feira (24) no portal da “Folha de S.Paulo”: “Calero diz à PF que Temer o pressionou no caso Geddel”. O que era grave ficou gravíssimo. Em depoimento nesta quinta-feira à Polícia Federal, o ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, afirmou que no dia 17 foi convocado pelo presidente Michel Temer a comparecer no Palácio do Planalto. No dia seguinte, pediu demissão, alegando, em entrevista ao jornal, ter sido pressionado pelo ministro Geddel.

Não, sabe-se agora, Calero foi pressionado pelo próprio presidente da República. Temer lhe disse que construísse uma saída para o veto, pelo Iphan, ao prédio de 30 andares em construção no centro histórico de Salvador (BA), no qual Geddel esperava morar em seu próprio apartamento, no 23º andar, quando o prédio ficasse pronto.

Temer pediu que o processo do licenciamento do prédio, em exame pelo Iphan, fosse encaminhado à Advocacia-Geral da União, “porque a ministra Grace Mendonça teria uma solução”, relatou Calero, segundo a transcrição do depoimento enviado ao Supremo Tribunal Federal e à Procuradoria-Geral da República.

Acrescentou que Temer encarava com normalidade a pressão de Geddel, articulador político do governo e há mais de duas décadas seu amigo. Temer teria afirmado ao seu ministro da Cultura “que a política tinha dessas coisas, esse tipo de pressão”. Calero se sentiu “decepcionado” pelo fato de o próprio presidente da República tê-lo “enquadrado”, e sua única saída foi apresentar seu pedido de demissão.

Ao contrário do jovem diplomata Calero, não me senti decepcionado com Temer, pois dele não esperava nada melhor. Desde o início do processo que cassou o mandato de Dilma Rousseff, afirmei que ele é um golpista, tanto ou mais que os parlamentares que votaram a favor do impeachment da Presidente da República que tinha Temer como vice.

Aliás, decepcionou-me Calero quando aceitou o convite de Temer para seu ministro da Cultura – e não agora. Escrevi na época:

O advogado Marcelo Calero, 33 anos, bacharel em Direito e diplomata de carreira, foi nomeado em fevereiro de 2015 pelo prefeito Eduardo Paes, do PMDB, como secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro.

Calero é quem sabe onde lhe aperta o sapato – e lhe dói o calo –, mas talvez devesse continuar como secretário municipal para cuidar dos programas Viva a Arte! e Fomento Cidade Olímpica. Pelo andar da carruagem, terá muito pouco a fazer, trabalhando para Temer numa renegada Secretaria de Cultura.

Desde sempre, tenho classificado a derrubada de Dilma Rousseff como um golpe. Ainda espero que outros jornalistas, como meu amigo Acílio Lara Resende,  do saudoso “Jornal do Brasil”, reconheçam que foi mesmo um golpe. Nesta quinta-feira, mais um colunista da “Folha de S.Paulo”, Fernando Canzian, cautelosamente, admitiu o golpe. Título do artigo: “Temer parece convencido de que assumiu com um golpe”. E prossegue: “Pelo modo como age, o presidente Michel Temer até parece ter sido convencido pela tal “narrativa do golpe” que o acusou de ilegítimo para substituir Dilma Rousseff.”

Não vou cansar os poucos leitores repetindo meus argumentos. Até mesmo porque há gente muito mais habilitada para escrever sobre isso. Por exemplo, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que acaba de escrever artigo bem didático sobre as razões do golpe.  Que na opinião dele foi mais dirigido a Luiz Inácio Lula da Silva do que a Dilma Rousseff, com o objetivo final de recuperar o poder para as classes hegemônicas. Diz o embaixador:

“Desta conspiração participaram políticos envolvidos em denúncias de corrupção; os partidos de oposição, inconformados com a derrota em 2014; políticos conservadores; o próprio vice-presidente Michel Temer; os meios de comunicação, em especial o sistema Globo, com suas dezenas de estações de televisão, de rádios, jornais e revistas; o Poder Judiciário, desde o Juiz Sergio Moro, disposto a praticar atos ilegais de toda ordem, aos Ministros do Supremo que, podendo e devendo,  não o disciplinaram; os interesses estrangeiros que viram, nas dificuldades econômicas e políticas, a oportunidade de reverter políticas de defesa das empresas nacionais para promover a  redução do Estado e a abertura aos bens e capitais estrangeiros inclusive para explorar seu maior patrimônio natural que é o petróleo do pré-sal; do mercado financeiro, isto é, dos  grandes investidores, milionários e rentistas, temerosos de uma política de redução de taxas de juros; das associações de empresários como a FIESP, a FEBRABAN, a CNI, a CNA; dos defensores de políticas de austeridade que visam o equilíbrio fiscal pela redução do Estado, dos programas sociais, dos investimentos do Estado, dos direitos trabalhistas e previdenciários e, finalmente, de economistas e jornalistas, intérpretes, porta-vozes e beneficiários destes interesses.”  

Se me resta um consolo, é não fazer parte dessa conspiração.

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