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‘O Tigre Branco’: um caldeirão de miséria prestes a entornar

É curioso que eu tenha lido “O Tigre Branco”, de Aravind Adiga, neste momento em que a Índia volta a ocupar todos os holofotes do noticiário mundial.

No livro, esse país é descrito como um lugar paupérrimo, desigual, sujo, com esgoto e lixo em todo canto, com operários fazendo cocô a céu aberto, com um rio fétido que é o Ganges, com poluição crítica, analfabetismo, servidão, escravidão e absolutamente corrupto. Todos esses adjetivos deploráveis aparecem inclusive nas cidades grandes, como Déli, mas têm uma versão ainda pior na metade do país que o narrador-protagonista chama de “Escuridão”, onde ele nasceu.

Há que se imaginar que, numa Índia como a descrita por Adiga neste livro, a pandemia até  demorou a sair do controle. Não que no Brasil as coisas estejam muito melhores, tanto no quesito pandemia quanto no quesito miséria… Mas algumas coisas descritas em “O Tigre Branco” ultrapassam qualquer noção de miséria já divulgada por aqui.

O quanto há de verdade nessa descrição ácida da Índia? Eu não sei. Adiga é indiano, mas, pelo que li de sua biografia, nasceu e cresceu em berço de ouro, e morou boa parte da vida em países ricos, como Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, antes de voltar para a Índia.

Li que ele quis descrever seu país com todo esse excesso de crítica pensando que autores como Charles Dickens fizeram o mesmo, no século 19, e ajudaram uma Inglaterra então cheia de miseráveis a progredir.

Pode ser. Este livro, que venceu o Man Booker Prize de 2008, acabou sendo adaptado pela Netflix e foi até mesmo indicado ao Oscar pelo roteiro (não venceu). Ou seja, milhões de pessoas ao redor do mundo agora conhecem esta Índia em desgraças, que seu autor quis que fosse conhecida, e quem sabe agora ela progrida de alguma forma, inclusive com ajuda dos outros países — e inclusive porque o risco sanitário da situação da pandemia por lá pode resvalar em todo o planeta.

Uma coisa, porém, me incomodou neste livro. Ele é narrado por Balram, o protagonista que nasceu na região da Escuridão, de uma família paupérrima, de uma casta inferior, e conseguiu virar um grande empresário bem sucedido em Bangalore. Logo no início do livro, ele reconhece que cometeu um crime e é um fugitivo.

O que me incomoda é que a receita de sucesso dele, a forma como ele encontrou para se livrar da escravidão moderna vigente na Índia, foi ter cometido esse crime. A gente fica com aquele gosto meio amargo na boca, de simpatizar com o personagem, entender seu drama, mas sentir asco por algumas coisas que ele pensa e faz*. Um completo anti-herói.

A narrativa dele é o ponto alto: cínica, desbocada, fluida, sincera. Ele cita absurdos sem nenhuma transição, como se estivesse desferindo socos na gente, de vez em quando. E faz a gente mergulhar de cabeça numa cultura completamente diferente. Também nos dá um ponto de vista bastante sólido para refletir.

Lendo este livro, ficamos com a impressão de que a Índia é um caldeirão, com mais de um bilhão de pessoas, que estão já no limite da fervura por terem de se sujeitar a certas situações absurdas. E que a qualquer momento este caldeirão vai entornar


*A observação a seguir contém spoiler, então recomendo que seja lida só por quem já leu o livro: o crime que me incomoda mais em Balram não é nem o assassinato de seu patrão. Dá para “entender” que ele tenha querido se vingar de toda a humilhação que sofreu. Mas toda a corrupção a que ele se sujeita e abraça em Bangalore, na vida de rico, é um lixo. A forma como se refere ao sobrinho, idem. É, definitivamente, um anti-herói.

 

O Tigre Branco
Aravind Adiga
Ed. Harper Collins
335 págs.
R$ 33,60


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

2 comentários em “‘O Tigre Branco’: um caldeirão de miséria prestes a entornar Deixe um comentário

  1. Um livro amargo escrito por um jornalista experiente. Muito diferente das histórias sobre a Índia escritas por Rudyard Kipling, que nasceu em Bombaim em 1865 na chamada Índia Britânica, no auge do império, e morreu em Londres em 1936, três décadas depois de vencer o Nobel de Literatura de 1907. Excelente a análise que você fez do livro.

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